André Ventura tenta centrar a campanha exclusivamente na tempestade, mas o equilíbrio em tempo de campanha, com perguntas de jornalistas e apoiantes, torna-se complicado. O candidato presidencial não abandona as críticas ao Governo, porém o combate político com o adversário está de volta — e juntando o útil ao agradável, com ataques a Seguro exatamente sobre a reação aos danos causados pela intempérie.
O candidato a Presidente da República apoiado pelo Chega, que mudou os moldes da campanha devido à tempestade, foi apanhado na curva a meio de uma visita a uma fábrica de madeira em Chaves. Aquela que estava a ser ação de campanha calma tornou-se, de repente, numa arruada, quando dezenas de apoiantes se posicionaram no sítio onde Ventura ia abandonar o local. De tal forma que se proporcionou um momento de confusão.
Com apoiantes a quererem aproximar-se de Ventura e uma bolha de jornalistas à volta, uma mulher virou-se contra a comunicação social e gritou “É inadmissível! É inadmissível! Tire isso daqui!”, tentando desviar as câmaras. Foi o próprio Ventura que se apercebeu, puxou a senhora e afirmou: “Vocês sabem o que eu acho do trabalho dos senhores [jornalistas], mas eles estão aqui a cobrir uma campanha eleitoral e estão a fazer o seu trabalho.”
Apesar disso, a mulher continuava a criticar: “Eu respeito, mas o doutor Ventura vai para lá com os nossos votos, não é com os deles, porque a si eles esquartejam-no na televisão. Está a entender?” No fim, ainda deixou o líder do Chega sem jeito: “Ponha tudo no seu devido lugar — nada mais — e bendita a mulher que o pariu, senhor doutor”. Ventura percebeu e seguiu, embrulhado na multidão, como se de uma arruada verdadeira se tratasse. Uma coisa é certa: se Ventura não vai ao povo, o povo vai a Ventura.




Depois de dias de recolhas de alimentos e de anúncios de entregas de lonas (algumas que estão a ser retiradas de outdoors), Ventura viu o adversário anunciar a entrega do material para tapar telhados e não deixou passar em branco. Deu-lhe as boas-vindas ao movimento de apoio.
“Nós começámos uma mobilização de uma campanha de ajuda, o nosso adversário disse que não sabia o que era isso, distribuir alimentos, não faz a menor ideia, que isso não é para ele. Depois dissemos que íamos dar lonas? Que é isso, é para as pessoas que não interessam nada… E hoje o que é que ele foi fazer? Distribuir lonas”, afirmou o candidato a Belém apoiado pelo Chega. Que também quis deixar claro que foi o primeiro a fazê-lo, ao dizer que a imprensa está a noticiar a ajuda de Seguro e que anda “há três dias a falar nisto”.
Para Ventura, isto é “o melhor que a política pode fazer neste momento” — já depois de ter rejeitado críticas de aproveitamento político da situação. “É o melhor serviço que podemos fazer nesta altura e por isso saúdo o meu adversário por finalmente cair na terra, perceber o país em que está e começar a ajudar e começar a fazer alguma coisa”, disse.
Antes do anúncio das lonas, não tinha poupado Seguro. De visita a uma fábrica de madeiras, em Chaves, prometeu “não desligar do que está a acontecer no país” e disse que o faz “ao contrário do adversário”.
Nessas declarações aos jornalistas, em que começou por rejeitar “disputa política“, André Ventura não conseguiu manter o objetivo por muito tempo. Contou que “em vez de estar a ouvir António José Seguro” esteve a “acompanhar uma série de estruturas do Chega no país todo, que estão a tirar as lonas para as entregar”. E atirou: “Sinceramente, acho que o António José Seguro não levará a mal, mas acho que isto neste momento é muito mais importante do que eu achar que ele é um inimigo da democracia ou um perigo para a democracia, ou ele achar que eu sou um perigo.”
Numa referência à entrevista de Seguro na SIC, Ventura sugeriu que o adversário “não pode ter fugido aos debates todos” e “agora querer debater com intermediários”: “Esconder-se num estúdio de televisão, que não era o estúdio de televisão ontem, e dizer tranquilamente, mas sem ninguém à frente, que o André Ventura é um perigo para a democracia, acho que não é, pelo menos, de homem corajoso e acho que Presidentes e políticos devem ser corajosos.”
E não se ficou por aqui. Fez contas às sondagens, que mostram Seguro a “cair há muitos dias”, e tirou as próprias conclusões, referindo que “isso se deve ao debate”, em que “as pessoas perceberam aquilo que muitos não sabiam nem se lembravam, é que António José Seguro não tem ideias sobre nada e a questão não tem a ver aqui com a tempestade, com o André Ventura, tem que ver com uma parte do país estar a acordar”.
“António José Seguro não tem ideia sobre nada, por exemplo, estamos no meio de uma crise enorme e se fizéssemos o resumo do que foi ontem a entrevista à SIC, é que eu sou um adversário da democracia. Francamente, as pessoas não são parvas, os portugueses não são parvos e gostam pelo menos de ter políticos que podem concordar ou discordar, mas que ao menos dizem alguma coisa e ao menos percebem o que é que estão a dizer e ao menos querem mesmo mudar as coisas.”
Aos olhos de Ventura, “a outra campanha” — a do seu adversário, leia-se — “não tem nenhuma força” e está a “perder a força, mesmo sendo totalmente anti-aventura na sua génese”.
https://observador.pt/programas/reportagem-observador/ventura-volta-ao-ataque-a-seguro-nao-e-corajoso/
Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador
Sem preocupação de votos, Ventura critica “falsa direita”
E depois do “que se lixem as eleições”, Ventura voltou a assegurar que não está preocupado com votos, já que o país está a passar por dificuldades. E recuou a ideia de que o não apelo ao voto dê uma sensação de que já atirou a toalha ao chão, justificando que “cada um tem a sua consciência” e que “quando há um problema desta magnitude e natureza, quando as pessoas estão a passar mal, não devemos voltar para o terreno da mera disputa política”. E acrescenta que “os votos são a última preocupação neste momento”.
Ainda que vá tentando recusar falar sobre tópicos além da tempestade, as sessões de esclarecimento que tem protagonizado (e que estão a acontecer porque Ventura travou as arruadas e comícios), obrigam-no sempre a tocar em vários tópicos — até porque Ventura está habituado a falar abertamente sobre praticamente tudo e é difícil resistir à tentação. Quando teve oportunidade regressou aos apoios a Seguro e acusou o oponente de estar “refém do sistema de interesses”. De manhã disse não se ter surpreendido com a declaração de voto de Eanes (“Tinha a certeza que se ia unir o sistema político todo contra mim”) e à tarde considerou “hilariante” que pessoas que “disseram que toda a vida o socialismo mata, destrói e é o nosso maior inimigo, andarem agora a sair de casa para aparecer um minuto ou dois na televisão, a dizer ‘eu voto António José Seguro’”.
“Não sei sequer se isso é direita e centro-direita, é falsa direita. Ficou clara uma coisa, havia um sistema, ou há um sistema tão incrustado no nosso regime político, que Portugal tornou-se uma espécie de proteção de interesses comum, em que quando esse sistema de proteção de interesses foi posto em causa, todos, de direita, centro-direita, centro-esquerda, imediatamente se puseram a sair da toca, para dizer, ‘eu estou do outro lado, eu também estou do outro lado’. Inclusive pessoas que deviam, por definição, estar mais próximas desta área política”, explicou.
Pelo meio, ainda cantou vitória pela presença nesta segunda volta, independentemente do que se venha a passar: “Vencendo as eleições ou não vencendo as eleições, parece-me incontornável que esta segunda volta é um marco na mudança no nosso sistema político. Nós na primeira volta das eleições, vencemos o candidato apoiado pelo Governo, com o partido maior do Parlamento, vencemos o candidato liberal, e ainda vencemos um candidato independente. Portanto, conseguimos que este movimento se tornasse na liderança da direita e da oposição em Portugal.”
Crente de que no dia seguinte às eleições não haverá mais outra conversa de direita” e que o Chega será “a direita” e “a verdadeira e única alternativa ao espaço socialista”.

Ataques ao Governo não abrandam
Apesar de Seguro ter voltado a ser o alvo, Ventura não deixou de criticar o Governo. Pelo contrário. Na visita à fábrica de madeira, não poupou Luís Montenegro, dizendo que “basicamente [dá] a entender que a responsabilidade das pessoas que morreram é delas próprias”, disse esperar que tenha a “oportunidade de se retratar” e apontou que “no máximo foi por inação do Estado” que houve mortes.
Na mesma linha que já tinha seguido, acusou também o Governo de “incompetência”, considerando que as medidas são “verdadeiramente insuficientes para o que se está a passar” e “um ultraje ao sofrimento das pessoas”.
Questionado sobre se o sistema das duas voltas que existe nas Presidenciais portuguesas pode ter sido “inspirada no bipartidarismo”, André Ventura deu exemplos de outros países e assumiu que é uma “questão que pode ser colocada”. Em todo caso, acredita que isso pode ser “dar munições aos adversários”. E conclui: “Já passámos à segunda volta, já vencemos todo o espaço da direita e do centro-direita, o nosso adversário não é de direita nem de centro-direita, o nosso adversário é um socialista. Não temos desculpas, nós temos que vencer o socialismo em Portugal. E não temos desculpas para isso. Temos que vencer o socialismo em Portugal.”
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