Sessenta votos certos de distância entre António José Seguro e André Ventura, num distrito onde o candidato apoiado pelo PS teve, na primeira volta, um dos maiores jantares-comício da campanha. Esta segunda-feira, a rota da caravana pelo distrito incluiu duas paragens (Elvas e Campo Maior) em terreno seguro para o adversário Ventura, e uma boa ventura (Portalegre) para Seguro. A investida sobre o adversário que é também líder do Chega tem aparecido de forma velada nesta campanha, mas à medida que se aproxima do dia D, Seguro vai perdendo o pudor.
O tempo voltou a ser o do braço de ferro entre os dois adversários nesta segunda volta a Belém, com Seguro a pisar, nesta recta final da campanha, o território onde Ventura tem resultados mais expressivos, a sul do país. Em Elvas, planeava mesmo voltar aos contactos de rua com a população, mas não foi ajudado nem pela chuva nem pelo deserto que encontrou. Entrou num café, onde esteve com João Manuel Nabeiro, o seu mandatário distrital, numa loja de toalhas e lençóis e numa farmácia. Não se cruzou com quase ninguém. Depois entrou no seu carro e seguiu para Campo Maior onde visitou o Museu Aberto.
Em Elvas ainda tinha passado por uma esquadra da polícia onde quis entrar — até aqui só o tinha feito em Vila Franca de Xira, na primeira volta, quando as sondagens começaram a consolidar a hipótese de enfrentar Ventura na segunda volta. Garantiu que não o fazia para marcar terreno, mas volta a procurar essa moldura numa fase da campanha em que aparece a perder fôlego e com dificuldade em mobilizar eleitores, entre mau tempo, as suas consequências e o o desvio do foco mediático desta campanha. Seguro parece agora apostado em tocar algumas campainhas de alarme, com especial insistência na da “estabilidade”, a da “democracia”, a da moderação/pacificação e a da “modernidade”.

Do outro lado está o outro perfil, aquele de que procura diferenciar-se. À noite, perante a sala cheia do Centro de Artes e Espetáculos de Portalegre, dedicou boa parte do discurso precisamente às diferenças com André Ventura e chegou à conclusão de que “não houve nenhuma eleição onde fosse tão fácil e claro decidir.”
Neste segundo turno, insiste no seu perfil para contrapor ao do adversário que diz ser o de alguém que “semeia ódio e divisão”, “quer recuar ao passado” e segue o “caminho da intolerância”. Antes de entrar na sala, para o comício, tinha dado uma entrevista à RTP, em direto emitida ali perto, do Museu da Tapeçaria, onde já tinha dito que não quer “recuar ao passado”. E quando questionado sobre se é isso que pretende o seu adversário, o socialista atirou: “Ele é que disse que queria três salazares”.
Já a carta da “moderação” é jogada quando fala na promoção da “divisão” que está do outro lado da barricada destas presidenciais. E desafia eleitores a decidirem, nestas eleições, sobre “qual dos candidatos tem melhor perfil para representar e interpretar a alma nacional e a nação portuguesa”. Apontando para a diversidade de apoios à sua candidatura e prometendo ser “um Presidente moderado” capaz de “dialogar com todos, da esquerda, direita, centro e os que não são de sítio nenhum”.

E para provar esta amplitude da sua candidatura — e também o caractér “suprapartidário” que vai sempre pregando — Seguro arriscou até dizer que “que se fossem legislativas, se calhar muita gente não estava nesta sala”. Talvez nessa altura estivesse, no entanto, Ricardo Pinheiro. O ex-governante e dirigente do PS por Portalegre ainda há duas semanas estava ao lado de Henrique Gouveia e Melo, nesta luta presidencial, como seu mandatário distrital. Agora apareceu para o comício de Seguro.
No apelo aos democratas vai valendo a repetição da defesa da “liberdade” e da “Constituição”. Na RTP tinha ido mais longe ao criticar o discurso de Ventura, sobretudo quando fala em “50 anos de corrupção”. “Alguém acredita?”, questionou Seguro que diz que quer “mudar muita coisa” mas não quer “mudar de regime. Sou defensor da democracia”, garantiu, numa altura em que o apelo ao voto sobre de tom bem como se tornam mais agressivas as armas contra o adversário, como aquela em que agita no ar o “pesadelo” que será acordar no dia 9 de fevereiro com Ventura em Belém.

No que ao apelo à “estabilidade” diz respeito, ele vai surgido pela oposição que faz à relação que ambos vão mantendo com o Governo. Quando Ventura cavalga as críticas a Montenegro, Seguro aparece a dizer que os apoios à tragédia na zona centro “vão no bom caminho” — até porque algumas das suas propostas surgem na lista do Executivo — ou até na escolha de Paulo Fernandes para a estrutura de missão para acompanhar recuperação das zonas afetadas pelo mau tempo. Evita entrar em avaliações do primeiro-ministro e dos seus ministros, por uma questão de “lealdade institucional”. À RTP chegou mesmo a dizer que “seria muito interessante e útil que o país pudesse voltar aos ciclos legislativos que estão instituídos na Constituição, governos de quatro anos”.
Prometeu não vir “para criar instabilidade” e que só dissolve se “intuir que pode haver crise”. “O papel do Presidente é para que o país tenha estabilidade”. “Não olho para a Presidência como um local para fazer oposição a este ou a qualquer Governo”. Uma frase que Luís Montenegro anotará seguramente para eventual futura coabitação.
Pelo caminho, o socialista que quer mobilizar o voto anti-Ventura, ainda tenta não hostilizar o eleitorado fiel ao seu adversário, reconhecendo a sua “muita desilusão” e dizendo que o “compreende”. Não é a primeira vez que lança este charme, fê-lo também no debate com André Ventura nesta segunda volta. É uma tentativa de pôr o pé na sua quinta, na pior das hipóteses para garantir que no dia seguinte será também “o Presidente dessas pessoas”.
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