Um ciberataque ao sistema informático do Comité Nobel norueguês é a causa mais provável para María Corina Machado ter sido revelada em plataformas digitais como vencedora do Prémio Nobel da Paz, horas antes do anúncio oficial. Esta é a conclusão de uma investigação interna dos organizadores do reputado prémio, na qual colaboraram agências governamentais da Noruega.
O nome da opositora de Maduro não estava entre os favoritos das casas de apostas para receber o Prémio Nobel de 2025. De repente, algumas horas antes do anúncio oficial da sua vitória, Corina Machado disparou como a vencedora mais provável do prémio no Polymarket, uma plataforma de mercados de previsão. Neste site de utilização ilegal em Portugal, é possível apostar no desfecho de eventos desportivos, mas também culturais ou políticos, como, por exemplo, a data de um eventual ataque militar dos Estados Unidos ao Irão.
“Dado que vários intervenientes investiram quantias significativas de dinheiro em páginas web de mercados de previsão horas antes do anúncio, podemos afirmar com certeza que houve intervenientes que conseguiram obter informações de forma ilegal sobre a decisão no ano passado”, escreveu Erik Aasheim, porta-voz do Comité do Nobel norueguês, num comunicado escrito. Vários especialistas e três agências estatais norueguesas, incluindo a autoridade de segurança nacional, participaram nesta investigação.
O anúncio da vitória de María Corina Machado foi oficialmente realizado por volta das 11 da manhã, no dia 10 de outubro. O Comité do Nobel terá ficado alerta com um fluxo anormal de apostas que foram feitos no Polymarket na madrugada desse dia. À meia-noite, a vitória da opositora de Maduro tinha uma probabilidade associada de 3,7%. Às 1h55, esse número catapultou para 73,5%.
Ao contrário do que acontece com a maioria das casas de apostas, estas percentagens não são ditadas pela própria plataforma, mas respondem às leis da oferta e da procura, como se se tratasse da compra e venda de ações. Quando muitas pessoas acreditam num determinado desfecho e apostam nele, o preço da aposta sobe. A partir das apostas dos seus utilizadores, o Polymarket ajusta em tempo real a probabilidade de um determinado desfecho — na verdade, é a probabilidade percecionada por quem aposta.
Um total de 1,9 milhões de euros foram investidos em apostas na Polymarket sobre a possível vitória de Machado: para qualquer evento, os utilizadores podem apostar na opção “Sim”, se acham que se vai concretizar, ou “Não”, se acreditam no contrário. Segundo a Bloomberg, horas antes do anúncio oficial do Comité do Nobel norueguês, um apostador investiu cerca de 70 mil dólares (cerca de 59,5 mil euros) na vitória de Machado e obteve um lucro de 30 mil dólares (25,4 mil euros).
A Polymarket não se pronunciou desde que esta polémica surgiu. Na altura, o diretor do Comité do Nobel norueguês, Kristian Berg Harpviken, defendeu que “muito provavelmente” a extração da informação sobre o vencedor do prémio tinha sido obtida através de espionagem, considerando como “improvável” ter sido um dos membros do Comité do Nobel a partilhar a informação antes do tempo. Após a investigação interna, Harpviken admite estar “convencido de que essa não é a explicação”.
O diretor do instituto, que ficou encarregue de ligar a Corina Machado para lhe comunicar a vitória, disse que “não é irracional” pensar que a fuga de informação teve origem num agente a serviço de um outro Estado. “Não conseguimos determinar como a informação foi obtida. Também não conseguimos identificar quem a adquiriu nem se foi um agente estatal ou privado”, reconheceu.
“Parece que fomos vítimas de um agente criminoso que quer ganhar dinheiro com as nossas informações”, acrescentou Harpviken em declarações à Bloomberg. Depois da investigação, o porta-voz do Comité do Nobel norueguês afirma que foram identificadas “fraquezas” nos sistemas informáticos do instituto onde são administradas informações internas. Foram anunciadas várias medidas para proteger o Comité contra “ameaças externas” assim como contra ações de “atores cujas motivações não são benevolentes”.
Entretanto, o porta-voz avançou que, por motivos de segurança, não serão fornecidos mais detalhes sobre as medidas tomadas nem serão anunciadas outras conclusões da investigação interna. Por fim, o Comité do Nobel norueguês decidiu não solicitar uma investigação policial devido à “ausência de uma teoria clara” sobre o sucedido.