O Sol nasceu em Portugal a 19 de janeiro com um mapa tingido de rosa, um cenário que há poucos meses era considerado impossível face à guinada à direita do país. Somando os votos do centro-direita à direita, os 60% são ultrapassados com margem, confirmando a hegemonia ideológica clara. Contudo, essa mesma maioria permitiu que António José Seguro vencesse a primeira volta das eleições presidenciais e devolvesse o brilho a um Partido Socialista que parecia à beira do abismo.
A diferença de maturidade a nível estratégico explica facilmente este paradoxo. Perante uma “Geringonça 2.0”, a esquerda mesmo em inferioridade, uniu-se em torno de um nome para garantir a sobrevivência, a direita dispersou-se em egos e fragmentação. Diria Larry David: “Um bom compromisso é aquele em que ambas as partes estão insatisfeitas”. A esquerda percebeu isto, já a direita preferiu isolar-se e barricar-se em ambições partidárias, ignorando a eficácia.
Jorge Pinto, Catarina Martins e António Filipe, foram racionais. Entenderam que, embora movessem pequenos pontos percentuais, seriam decisivos. Mantiveram as candidaturas, mas geriram o “voto útil” indireto em Seguro. Do outro lado a entrada com excesso de oferta, do institucionalismo de Marques Mendes ao apartidarismo de Gouveia e Melo, culminou na divisão de eleitorado como prato principal. João Cotrim de Figueiredo, apesar do excelente resultado pessoal, foi vítima desta autofagia também por ele criada. Como sobremesa, muitos dos seus votos, assim como os de Marques Mendes, fugirão possivelmente para Seguro na segunda volta por receio da radicalização, cimentando uma vitória do PS.
Além do PS, o grande vencedor estratégico da noite foi André Ventura. Ao chegar à segunda volta, coloca Luís Montenegro num dilema que o prejudica em todos os cenários, ou apoia o CHEGA alienando o centro moderado, ou apoia o PS, dando razão a André Ventura e perdendo eleitorado por entregar Belém de bandeja ao PS. Com isto o PSD manterá provavelmente a neutralidade, mas a história do partido não esquecerá que, num momento hegemónico da direita e depois de 31% dos votos nas legislativas, 9 meses foram suficientes para o PSD alcançar a maior derrota de sempre com 11,3%.
A 8 de fevereiro, os portugueses terão entre António José Seguro e André Ventura no boletim de voto. Se as sondagens se confirmarem e a esquerda vencer com apenas 35% de base ideológica, a lição para o futuro é clara. O PSD terá de decidir se quer ser o unificador da direita ou a muleta para a ascensão do PS. O PSD tem o futuro nas mãos, resta saber se aprenderá a ceder para vencer, ou se continuará com uma política de exclusão do CHEGA e de autofagia da direita em Portugal.