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(A) :: Cai neve em Minneapolis

Cai neve em Minneapolis

É desde Macau, onde procuro ensinar o que aprendi, que vejo Minneapolis contribuir para a garantia inequívoca das condições essenciais para educar uma criança. Para educar (o que é ser) Humanidade.

Vânia Sousa Lima
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Não faz sol no meu país. Tampouco me falta Lisboa (aqui tenho o – carinhosamente apelidado — “Velhinho” e desde o apartamento vejo o “Grande”), embora seja difícil sentir-me feliz.

Renee Good foi assassinada um dia antes de se completarem 22 anos da primeira vez que cheguei a Minneapolis para uma estada de tr^es meses, no âmbito do meu doutoramento. Outras se seguiram, perfazendo o total de um ano a ter Minnesota como estado meu. E o estado em que fiquei ao, em Macau, perceber por intermédio da minha amiga B, que dali é e onde se mantém, foi de inominável choque. Paradoxal choque, por infelizmente não decorrer de surpresa, mas da confirmação do inevitável despudor que caracteriza a acção de regimes que fazem a apologia da supremacia (qual? a sua). O estertor ante a execução de Alex Pretti assume-se como a continuidade do previsível horror.

Nevava em Minneapolis quando ali pela primeira vez cheguei. Ouvir o comandante dizer que em breve aterraríamos no Aeroporto Internacional de Minneapolis–Saint Paul (MSP) – as Twin Cities que têm o rio Mississipi como seu líquido cordão umbilical – gerou perplexidade a quem não via a pista, apenas neve. Branco manto que à noite nada permitia distinguir. O motorista do transfer (o mesmo que coincidentemente encontraria numa outra visita, no mesmo trajecto) percebeu a minha renovada perplexidade ao chegarmos à que seria a minha casa. Entre ela e o carro amontoava-se neve. Ajudou-me a transpô-la e à pesada mala que comprei (que os meus pais compraram, era estudante de doutoramento…) para essa primeira “grande viagem” (e que continuo a usar de cada vez que visito, em trabalho, Macau). “Que bela ideia tive em vir para o Estado dos 10000 lagos em pleno Inverno…” pensei antes de tocar à campainha e ser recebida pelo sorriso de S, a proprietária. Era um sorriso quente e acolhedor, como a casa. Senti-me em casa e no dia seguinte, em direcção ao Institute of Child Development (ICD) – University of Minnesotta, achei ser boa ideia deixar o J, da Venezuela, ou o V, do México, usarem a pá destinada a criar passagem para sair. Três estudantes estrangeiros em Minneapolis (a que se juntaria por um breve período o F, de França), que se sentiam seguros. Por se saberem seguros. Por valorizarem a diversidade numa comunidade que preza a diversidade. E serem acolhidos como iguais.

O caloroso acolhimento no ICD por parte de investigadores cujo trabalho foi em vários domínios fundacional sobre o desenvolvimento humano, cujos artigos sabia de cor e com quem tanto mais viria a aprender, de colegas (brilhantes) de tantos Estados dos EUA e da Ásia focados em produzir conhecimento com impacto real na vida das pessoas, de administrativos disponíveis, sensíveis às necessidades e a elas responsivos, da adorável senhora somali responsável pela limpeza e com quem várias vezes almocei, mostrou-me um contexto académico colaborativo. Equipa. O papel de cada um era importante. Porque cada um era importante. Universitas. Espelho da cidade.

A ajuda incomensurável por parte de desconhecidos na resolução de inesperados problemas, a disponibilização de informação relevante para gerir o quotidiano, o interesse em saber mais sobre o país de onde provinha e dos interesses que me moviam, as recomendações de segurança face ao tornado e às tempestades, a disponibilização de cuidados gratuitos de saúde (sim, nos EUA), os convites e incentivos para participar em actividades culturais, lúdicas e recreativas, as boleias para idas ao supermercado (inacessível de outro modo, por greve prolongada nos transportes públicos). O prolongar do horário do alfarrabista, “apenas” por saber ser ritual no seu estabelecimento entrar no trajecto entre a universidade e casa ao fim do dia (e durante um ano apenas um livro conseguir comprar). O não permitir que me sentisse só. O garantir que tinha rede de suporte. Praticasse funambulismo, teria rede. Imigrante fosse, teria rede. Imigrante fui, rede tive. Não é acaso ser Minnesota conhecida pela sua hospitalidade. É real. Mesmo se a minha pronúncia ou não absoluto domínio de vocabulário me denunciava de ali não ser. Irrelevante. Ali me fizeram sentir pertencer. Acolhimento. Hospitalidade.

B é a amiga que me deu boleia para adquirir víveres frescos aquando da referida prolongada greve. Iniciativa sua, não resposta a solicitação minha. A pessoa por intermédio de quem mais informação do que nas (por Bruce Springsteen musicadas) “Streets of Minneapolis” ocorria: da necessidade de partilha da localização e acções do ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement) no estado de Minnesota; da identificação e divulgação de organizações de recolha de produtos de primeira necessidade para quem temia sair de casa; das suas idas, com os seus gémeos (vive nas Twin Cities e gémeos tem), a supermercados comprar os ditos produtos; das interacções com desconhecidos que em equivalente missão se entreajudavam. Da realidade. Da acção em prol de quem mais vulnerável se sentia. Numa sua página numa rede social profissional descreve competências técnicas dirigidas a “contribute to continuous quality improvement with an eye toward social justice and equity”. Em direcção à justiça social e equidade. No concreto, não somente como profissional, mas como pessoa. É este texto uma apologia a B? É. É este texto somente uma apologia a B? Não. É-o a uma comunidade que se coloca em risco para defender outros. Os Diferentes. Tidos como Iguais. Uma comunidade que age em prol da justiça social e equidade, assente no respeito. Que valoriza as pessoas e as relações.

Em Macau debruço-me com os estudantes do Master in Counselling da University of Saint Joseph sobre processos desenvolvimentais de (in)adaptação ao longo do ciclo de vida. A adopção de uma abordagem relacional de multinível obriga à consideração dos factores bioecológicos que potenciam resultados adaptativos ou que, ao invés, se constituem como risco de disfuncionamento. É dada ênfase, conceptual e empiricamente alicerçada, ao carácter dialético inscrito no desenvolvimento da pessoa ao longo do ciclo de vida e na sua permanente interacção desde (e entre) contextos proximais (como os cuidadores primários, a família, pares ou escola) até aos distais, de cariz social, institucional, cultural e histórico (perspectiva também plasmada no comunicado de 28 de Janeiro da American Psychiatric Association referente ao impacto que acontecimentos societais têm na saúde mental). Sustentação científica do ditado “É preciso uma aldeia para educar uma criança”. A investigação levada a cabo pelo ICD assenta e atesta esta premissa. De modo comprometido. E é com base no seu trabalho que desde Macau vejo Minneapolis insurgir-se contra a ignomínia que coloca em causa a dignidade humana, que ostensiva e inescrupulosamente distorce a realidade por demais evidente, que normaliza o uso de crianças como isco e a sua detenção (?!). É desde Macau, onde procuro ensinar o que aprendi, que vejo Minneapolis contribuir para a garantia inequívoca das condições essenciais para educar uma criança. Para educar (o que é ser) Humanidade.

Cai neve em Minneapolis. Gelo que queima. “Detalhe” para quem acolhe como seus os que dali não são. Solidariedade que inflama. Por ser Bela. Por ser Boa. E necessária.