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O desatino manifesto

O facto de haver tanta gente de direita a repetir esse raciocínio como crítica a outra gente de direita, acaba por provar justamente o ponto contrário: a direita não é monolítica.

José Diogo Quintela
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No seguimento de várias proclamações que André Ventura tem feito desde o dia 18 de Janeiro, autocrismando-se o “líder da direita”, parece haver uma corrente de pensamento a postular que quem é de direita tem obrigação de o apoiar em detrimento do candidato que não é de direita. Devido a esse mal-entendido, co-assinei um texto em que, resumindo, se diz “eh, pá, não és o meu chefe”. No fundo, a uma interpelação directa de Ventura, alguns dos interpelados replicaram com um cortês “não, obrigado” ao save the date que Ventura enviou para 8 de Fevereiro. As boas maneiras educação dizem que se deve responder em tempo útil a um RSVP. Fizemo-lo no dia 24 de Janeiro.

A resposta foi recebida com alguma estranheza, sobretudo por gente também de direita. Para essas pessoas, entre Ventura e Seguro, quem é de direita deve optar por Ventura, pois Seguro é de esquerda e o líder do Chega também é de direita (na verdade, nunca chegam a dizer “optar por Ventura”, usam antes a perífrase “não optar por Seguro”, mas vou simplificar para efeitos de economia de texto). Uma lógica aparentemente imbatível. Sucede que esse argumento assenta na suposição de que existe apenas uma direita, que se move só numa direcção, com um único propósito. Porém, o facto de haver tanta gente de direita a repetir esse raciocínio como crítica a outra gente de direita, acaba por provar justamente o ponto contrário: a direita não é monolítica, não é homogénea. Há uma direita mole, subserviente, emasculada, que é a dos signatários; e há uma direita dura, briosa, viril, que é a dos críticos. Logo, se existem pelo menos duas direitas, é natural que, apesar do muito em comum que possam ter, não partilhem o chefe.

Dessas duas direitas, uma aceita Ventura como líder. É para evitar confusões, que ponho o dedo no ar e digo: “Sou tíbio, não tenho coragem para ser dessa direita”. Eu pertenço à direita pífia, que, cobardemente, prefere rever a Constituição em vez de a substituir por uma novinha em folha. Que quer reformar o regime, não deitá-lo abaixo. Enfadonha, pretende conservar o que está bem no sistema e corrigir o que está mal, em vez de revolucionar o sistema e começar do zero. É uma direita mariquinhas que transige com imigrantes, criminosos e pedófilos, aplicando-lhes a lei. Não tem bravura para dividir o país entre portugueses de bem e outros. Falta-lhe o discernimento para demonizar grupos étnicos específicos. É discriminatória, não convive com organizações que praticam crimes motivados por racismo e xenofobia. Pouco máscula, não admira chefes fortes de outros países. É uma direita demasiado apática para ser saudosista. Demasiado estúpida para ser estatizante. Libertina nos costumes e na expressão, se bem que pouco arrojada e imaginativa na linguagem. Uma direita mal informada sobre conspirações.

É curioso que quem se queixa de um suposto unanimismo anti-Ventura está, na realidade, a defender um unanimismo pró-Ventura. Contam espingardas e aborrecem-se ao perceber que há uns tantos que se pisgaram do armeiro onde, pela sua catalogação, nos deveríamos quedar sossegados.

Eu percebo o desejo de amalgamar as direitas para fins eleitorais. É ainda um resquício da Geringonça. A direita que agora prefere Ventura, por ser de direita, a Seguro, por ser de esquerda, ainda está aprisionada na armadilha que António Costa preparou em 2015. Quando o então líder do PS anunciou que deitara abaixo o muro que separava o PS da extrema-esquerda, erigiu uma alvenaria metafórica entre esquerda e direita. Lembremos a fanfarronice do então delfim Pedro Nuno Santos, ao garantir que o PS não precisaria mais da direita para governar. Houve quem, à direita, ao mesmo tempo que criticava ferozmente Costa, tenha interiorizado estas novas regras. Para essas pessoas, a separação é real, qualquer hipótese de entendimento à esquerda é nula, a direita só pode contar com a direita. Na altura, não concordei com a divisão de Costa. Agora, continuo a não aceitar a de Ventura, muito semelhante. Não vou patrocinar uma Geringonça deste lado. E não me apetece ser amalgamado com uma direita com que não me identifico.

Mantenho a minha opinião sobre não fazer alianças com radicais. Principalmente depois de ter visto a influência que isso teve no PS. Ainda estamos a pagar a presença daninha dos comunistas e bloquistas na educação, na saúde ou nos serviços públicos. Não é boa ideia replicar isso à direita.

Vou ilustrar com uma analogia. No fundo, os críticos do manifesto estão a dizer: “Chegas a casa e tens lá dentro dois animais. Só podes expulsar um deles, és obrigado a conviver com o outro. Um é uma joaninha, o outro é um tigre. Qual escolhes? Lembra-te que és um mamífero e apenas um dos bichos também o é”. Para mim, este parentesco não chega para justificar afinidade.