2026 é um ano carregado de importantes celebrações da nossa História, em particular, do Portugal no mundo que trouxe mais mundo a Portugal. São 70 anos de adesão à ONU, 50 no Conselho da Europa, 40 da entrada na CEE e 30 anos da CPLP. É também o ano em que somos chamados a decidir uma eleição presidencial numa segunda volta.
A memória histórica pode ajudar a ganhar perspetiva: Em 1986, na primeira volta, quatro candidatos disputaram Belém – entre eles, pela primeira vez, uma mulher. Freitas do Amaral obteve 46,31% dos votos e Soares 25,43%, somando ambos cerca de 71% do total. Apesar da desvantagem inicial, Mário Soares acabaria por vencer na segunda volta, beneficiando do apoio dos militantes do PCP, que seguiram o apelo de Cunhal ao voto útil, dizendo que, se preciso fosse, “tapassem a cara” de Soares com uma mão e votassem com a outra.
No quadro de então, a democracia consolidava-se. Portugal acabara de entrar na CEE e havia um sentimento generalizado de futuro. Em 2026, com os dois candidatos à segunda volta a somarem 55% dos votos na primeira, vivemos fragmentados e desconfiados, uns dos outros e das instituições. Estamos cansados, saturados de informação que nos chega filtrada, simplificada e, tantas vezes, enviesada. Lemos e ouvimos muito. Refletimos muito pouco. Raramente levantamos a cabeça para olhar em redor e procurar contexto. É, no entanto, neste ambiente que somos chamados a decidir.
Nesta segunda volta, começa a importar menos saber quem vence e mais como vence. Com que legitimidade política, com que postura institucional, com que visão para Portugal e para o lugar de Portugal no mundo. Num tempo em que o multilateralismo se esvazia e os argumentos da força parecem superar a força dos argumentos, o cargo de Presidente da República exige ponderação, capacidade conciliadora, idoneidade e um profundo sentido de Estado.
Convém não esquecer: não é por se ser eleito democraticamente que se é, necessariamente, democrático. Não é por se proclamar “fora do sistema” que não se beneficia dele. Não é por apontar o dedo a uns que não o fará amanhã a outros. Talvez a todos, excepto a si próprio.
A Constituição, da qual assinalamos igualmente 50 anos, é clara: o Presidente da República é o garante da independência nacional, da unidade do Estado e o Comandante Supremo das Forças Armadas. Devemo-nos assim questionar se alguém que foi condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça; acusa o partido no governo de ser uma “espécie de prostituta política”; considerou o Presidente Marcelo um traidor à pátria; tece acusações a chefes de Estado estrangeiros, garantindo que, “se mandasse”, lhes diria nos olhos que “o tempo de roubarem os seus países tem de acabar”, tem condições para exercer o mais alto cargo da República. Nem que seja pela conveniência diplomática, por respeito político, um Presidente não pode, nem deve, dizer e fazer o que bem entender.
Nos últimos dias, num contexto dramático de crise e de forte crítica à (in)ação governativa, houve quem, de forma discreta mas firme, tenha mostrado ser o Presidente que precisamos. Sem ocupar espaço com ruído, mas preenchendo-o com apoio e confiança.
Mário-Henrique Leiria bem nos dizia, sobre uma nêspera que, “deitada / muito calada / a ver / o que acontecia”, acabava comida pela “Velha”, num fatal destino traçado de quem fica deitado, calado, a ver o que acontece. No dia 8 de fevereiro, importa sabermos o que está verdadeiramente em causa, e não o que parece estar.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.