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Depois de o marido ser deportado, grávida quer autodeportar-se dos EUA mas não consegue devido a problema legal

Grávida, com dois filhos e com o parto previsto para abril, uma venezuelana quer sair dos EUA após a deportação do marido, mas está presa num impasse legal. “É a primeira venezuelana que quer voltar".

Mariana Furtado
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Se Franyelis já tinha fugido uma vez da pobreza e da instabilidade política da Venezuela, um ano e meio depois de chegar ao país onde esperava viver o sonho americano sente-se de novo sem saída. Grávida de sete meses, com dois filhos pequenos e depois de o marido ter sido detido por agentes do ICE e deportado para a Venezuela, sente-se forçada a regressar ao país de onde quis escapar. A história, revelada pela CNN Internacional, expõe o caso de uma mulher presa num impasse legal entre o endurecimento das regras de imigração nos Estados Unidos e a realidade política do seu país natal.

À medida que a data do parto se aproxima, em abril, há um pensamento que não sai da cabeça de Franyelis — o primeiro nome pelo qual é identificada pela CNN, que omite o apelido a pedido da família para proteger a sua privacidade: “Quero ir embora”.

https://twitter.com/cnni/status/2018076585509749025

Natural do estado venezuelano de Zulia, na fronteira com a Colômbia, Franyelis conheceu o marido, Yonquenide, ainda adolescente. Anos mais tarde, com dois filhos pequenos, ele decidiu tentar uma vida diferente para a família. “O que eu não tive, eu queria dar-lhes a eles, entende?”, disse à CNN. “Para que falassem inglês, para que pudessem ter uma vida nova… Eu queria que fosse mais fácil para mim com os meus filhos”.

Para conseguir pagar a viagem, cujo custo rondava os 20 mil dólares (mais de 16 mil euros) — grande parte entregue a redes de contrabando —, Yonquenide vendeu uma casa que tinha na Colômbia e foi aceitando trabalhos ocasionais pelo caminho. Sem passaportes, a família seguiu apenas com documentos de identidade e certidões de nascimento. Com Yoneifer de sete anos e Emma de dois, enfrentaram depois uma travessia de três meses até à fronteira entre os Estados Unidos e o México.

A aplicação da CBP (Agência Federal da Alfândega e Proteção de Fronteiras), criada durante a administração Biden, serviu como porta de entrada para que a família pudesse integrar o sistema de asilo dos Estados Unidos em agosto de 2024. Durante algum tempo, esse sistema ofereceu uma via organizada para migrantes pedirem proteção sem atravessarem ilegalmente a fronteira.

Mas as regras mudaram com a chegada da administração Trump ao poder, que acelerou detenções e deportações e reduziu mecanismos de proteção temporária para várias nacionalidades, incluindo venezuelanos, de acordo com a cadeia de televisão norte-americana.

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Seguiram-se ataques a embarcações que o Presidente dos EUA classificava como sendo de “narcotraficantes”, iniciados no mesmo mês em que foi anunciada a revogação do Estatuto de Proteção Temporária, que tinha protegido centenas de milhares de venezuelanos. O ciclo de acontecimentos no país a que chamavam casa culminou na captura do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e, mais tarde, nas detenções levadas a cabo pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, em inglês).

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Com o casal instalado em Nova Iorque, onde arrendou um quarto, Yonquenide começou a trabalhar assim que recebeu as autorizações temporárias. Fazia entregas, mudanças e vendia doces na rua.

Mas tudo mudou no dia em que foram a uma audiência de rotina no tribunal de imigração, em Manhattan. Apesar dos relatos de detenções à saída dessas sessões, Franyelis quis manter o processo legal. “Eu queria ter uma vida confortável aqui”, recorda: “E isso significava fazer a coisa certa, legalmente, pelos nossos filhos”.

Minutos depois de saírem com a nova data de audiência marcada para julho de 2029, agentes do ICE cercaram o corredor. “Eles não tiveram nenhuma piedade de nós”, conta Yonquenide. Foi detido ali mesmo e acabou transferido para um centro na Louisiana. Pouco depois, um juiz ordenou a sua deportação imediata e dias mais tarde, ligou já de Caracas.

Sozinha, grávida e com duas crianças, Franyelis passou a viver num abrigo. Pediu para sair voluntariamente dos EUA, tentando evitar uma futura proibição de entrada, mas esbarrou num problema básico: não tem — nem nunca teve — passaporte, um documento que, desde o corte de relações diplomáticas entre Washington e Caracas, em 2019, deixou de poder ser solicitado em território norte-americano. “Legalmente, é um impasse”, explica o advogado, Lo Monaco, citado pela CNN.

“O melhor cenário seria que aprovassem o pedido dela [de autodeportação]. Nesse caso, ela teria de deixar o país”, refere ainda.

Sem dinheiro e perante a perspetiva de uma viagem longa e perigosa por terra, resta-lhe esperar por uma solução oficial que pode nunca chegar. O terceiro filho, esse, nascerá com certeza em abril. “O problema é novo”, diz o advogado. “Ela é a primeira venezuelana que encontro que quer voltar.”

Enquanto isso, Franyelis tenta agora encontrar uma forma de sair do mesmo país onde viram neve pela primeira vez. Para muitos imigrantes, ter um bebé americano — com direito à cidadania — seria a concretização de um sonho; para ela, tornou-se parte de um pesadelo que a prende a um lugar de onde já não sabe como sair.

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