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(A) :: Hospital em Barcelona realiza primeiro transplante de cara com doadora que pediu eutanásia

Hospital em Barcelona realiza primeiro transplante de cara com doadora que pediu eutanásia

Carme ficou com a cara completamente destruída devido a infeção resultante de uma picada de inseto. Especialistas criaram modelos 3D da sua cara e da doadora para facilitar operação "muito complexa".

Miguel Pereira Santos
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Mais de cem profissionais do Hospital Vall d’Hebron de Barcelona participaram no primeiro transplante de cara com uma doadora que pediu eutanásia. A operação foi concluída em setembro e anunciada publicamente esta segunda-feira por membros da equipa que realizou o transplante e a sua recetora, Carme, que se mostrou “muito satisfeita e agradecida” com o resultado e tem feito uma boa evolução pós-operatória.

O chefe do serviço de cirurgia plástica e reparadora, Joan-Pere Barret, explicou que ter uma doação de alguém que tinha solicitado a eutanásia — podem passar semanas ou meses entre o pedido e o dia da morte — contribuiu para o sucesso do procedimento. Os especialistas puderam realizar modelos em impressão 3D, tanto da cara de Carme como da doadora, que foram uma ajuda preciosa para uma operação “muito complexa” que envolve o transplante de pele, musculatura, vasos sanguíneos, nervos, tecido adiposo, estruturas ósseas, cartilagem, entre outros tecidos.

“Pudemos sentar-nos com os engenheiros e, com modelos de software, pudemos planear as melhores opções de reconstrução e adaptação das estruturas de osso para conseguir a melhor função possível, até à máxima correspondência”, disse Barret. Isto porque o transplante facial “não consiste apenas em colocar tecidos moles para dar uma aparência normal”, mas é igualmente realizado para dar “função e sensibilidade”, acrescentou. A operação envolve a ligação entre músculos e tecidos com diâmetros inferiores a um milímetro, explicou.

A doadora, cuja identidade não foi revelada, manifestou o desejo de doar órgãos no momento em que solicitou a eutanásia. A coordenadora médica de doação e transplantes do hospital em Barcelona, Elisabeth Navas, revelou ao El Mundo que, numa entrevista pessoal, a paciente pediu mais informações sobre a possibilidade de doar a sua cara, além de outros órgãos mais comummente transplantados. Segundo Navas, acabou por decidir que iria “ajudar no que pudesse” e concordou com o transplante do seu rosto.

Sobre a sua identidade, apenas foi revelado que era uma mulher de meia idade e que padecia de uma doença grave. Tal como prevê a lei espanhola, nunca houve qualquer contacto entre a doadora e a recetora e o Hospital Vall d’Hebron garantiu também ter cumprido “rigorosamente” a lei que regula a eutanásia.

“Durante o todo tempo, ela sorria e expressava a grande felicidade que sentia não só por doar os seus órgãos e tecidos, mas também o seu rosto, para ajudar o maior número possível de pessoas. É a máxima expressão de amor e generosidade para com todos os outros, sem esperar nada em troca”, sublinhou o cirurgião Joan-Pere Barret.

Na conferência de imprensa desta segunda-feira, Carme acompanhou as palavras do médico. “Estou aqui hoje para agradecer acima de tudo. Esta era a única solução para poder levar uma vida normal. Estou muito feliz”, sublinhou a recetora do transplante que apelidou o cirurgião de seu “anjo da guarda”. Carme deixou palavras de agradecimento à equipa composta por mais de 100 profissionais que participaram na cirurgião que durou mais de 24 horas: “Trataram-me como se fosse da família, foi maravilhoso.”

Para a recetora deste transplante pioneiro, foi numas férias no arquipélago das Canárias em 2024 que se iniciou este capítulo da sua vida. A picada de um inseto provocou-lhe uma grave infeção bacteriana que se espalhou pelo seu tecido facial e lhe destruiu o rosto, além de comprometer o funcionamento normal do seu maxilar.

“Não conseguia comer porque a minha boca não abria, faltava-me metade do nariz e não respirava bem, fisicamente era bastante desagradável e não conseguia levar uma vida normal”, contou Carme, segundo o El País. O chefe do departamento de cirurgia plástica do hospital informou que “devido à necrose, era-lhe muito difícil alimentar-se e falar corretamente” e que a paciente “tinha uma alteração funcional que também a impedia de respirar bem”.

Depois de vários meses internada nos cuidados intensivos, surgiu a oportunidade de um transplante facial. Para tal, foi preciso encontrar uma doador do mesmo sexo e grupo sanguíneo, que apresentasse dimensões da cabeça semelhantes. Joan-Pere Barret sublinha que a escolha do candidato ao transplante é fundamental para o sucesso da operação: “As indicações têm-se tornado cada vez mais rigorosas. É necessário haver um apoio familiar e social significativo para poder realizar este tipo de transplantes e não provocar uma situação de mal-estar emocional, pois o processo é muito difícil, sobretudo nos primeiros meses após a operação.”

Passados mais de três meses do transplante, Carme afirma que recuperou “uma qualidade de vida que não imaginava que voltaria a ter”, apesar de ainda não estar totalmente recuperada. “Com o transplante, tudo correu muito bem, mas ainda estou a recuperar”, disse na conferência de imprensa. Está atualmente a fazer fisioterapia para recuperar funções associadas à cara e espera terminar o processo de convalescença no prazo de um ano.”Já começo a comer, posso falar, tenho sensibilidade na zona do transplante, já tomo um café. Não me importa sair à rua e posso fazer vida normal”, disse aos jornalistas.

O primeiro transplante de cara realizou-se em França, no Hospital de Amiens, em 2005. Foi um transplante parcial mas deu início a uma prática cirúrgica muito complexa que ainda tem um alcance reduzido, sendo que apenas se realizaram 54 operações deste tipo no mundo. O Hospital Vall d’Hebron entrou para história uma primeira vez, em 2010, quando realizou o primeiro transplante total de um rosto — à semelhança do que voltaram a fazer em setembro, passados 15 anos, mas com a primeira doadora que pediu a eutanásia. Três dos seis transplantes de cara realizados em Espanha aconteceram neste hospital em Barcelona.

Nem todas as operações deste tipo têm sucesso. Um estudo científico publicado em 2024 na revista Jama Surgery, citado pelo El País, concluiu que a sobrevivência do procedimento é “encorajadora”. No entanto, durante o período de acompanhamento de cerca de oito anos, seis transplantes falharam. Fora desse período, a operação esteve ligada à morte de 10 pacientes, sendo que dois deles tinham perdido o transplante.

O estudo diz ainda que a sobrevivência cinco anos depois da operação é de 85% e, uma 10 anos depois, é de 74%.  Joan-Pere Barret, que também é membro do comité científico da Sociedade Internacional de Transplante de Tecidos Compostos, disse ao jornal espanhol que as suas análises apontam para uma sobrevivência perto dos 80%, no período de 15 anos.

“A sobrevivência é cada vez maior. A maioria dos problemas ocorre mais no início.”, conta. No entanto, os problemas psicológicos têm surgido com maior prevalência em pacientes que receberam transplantes após tentativas de suicídio com armas de fogo. Tirando esse grupo, os restantes pacientes “geralmente aceitam muito rapidamente” a sua nova aparência, defendeu o cirurgião.  “Em termos de qualidade de vida, se voltariam a fazê-lo ou não, realizámos em julho um inquérito a pacientes na Europa e quase 90% avaliam-no muito positivamente. Voltariam a fazê-lo pelo grande benefício a nível funcional”, terminou.