Yanis Varoufakis, economista e antigo ministro das Finanças grego, está em contraciclo com as tendências tecnológicas. Numa altura em que os investimentos em infraestruturas de computação estão no centro das atenções, o economista foi à Web Summit Qatar pedir que “não se invista em centros de dados e supercomputadores a menos que controlem o algoritmo”. Associou ao algoritmo à ideia de um “fantasma na máquina”.
Questionado em conferência de imprensa sobre o que disse no palco da cimeira tecnológica, Varoufakis equiparou os grandes projetos de centros de dados a algo saído dos tempos coloniais. E notou que, tal como Portugal, também a Grécia está a competir pela captação de centros de dados.
Em Portugal, um dos casos mais emblemáticos da onda de investimento em centros de dados e inteligência artificial (IA) é o data center de Sines. Em novembro, a Microsoft anunciou um investimento de 10 mil milhões de dólares em Sines no data center da Start Campus.
https://observador.pt/2025/11/11/investimento-da-microsoft-no-centro-de-dados-de-sines-chega-aos-dez-mil-milhoes/
“Os centros de dados são o novo colonialismo”, declarou. “Chegam, ficam com a eletricidade, com a água, não criam empregos. Não ajuda Portugal ter centros de dados se não controlar os algoritmos”, explicou. “A questão principal é quem é o dono dos algoritmos. Se não é dono disso, são vítimas dos centros de dados.”
“Quantos empregos é que vão ser criados em Portugal com os centros de dados? São números pequenos, mas a vossa rede elétrica vai ficar sobrecarregada, os recursos hídricos vão ser afetados”, realçou.
Na vida após a política, Varoufakis centra-se agora na teoria do tecnofeudalismo, em que equipara os líderes de grandes empresas tecnológicas a “senhores feudais”, que ganham dinheiro à custa dos dados dos utilizadores. “Temos de começar a repensar os direito de propriedade na tecnologia”, afirmou, referindo que são os donos das big tech quem recebe “o valor” criado pelos dados resultantes da interação entre pessoas e tecnologia.
Tanto no palco quanto na conferência de imprensa, o economista grego teve sempre o mesmo alvo na mira: Jeff Bezos, o fundador da Amazon. Mas também atirou a outros empresários da tecnologia, como Elon Musk, comparando a rede social X a “um grafitti numa sanita”.
“Stablecoins vão ser a razão do próximo grande colapso financeiro”
Além das críticas ao modelo centrado em dados das big tech, Varoufakis ainda teceu críticas a uma área de união entre tecnologia e finanças: os criptoativos, em particular as stablecoins (criptoativos indexadas a um ativo estável).
“As stablecoins vão ser a razão pela qual vamos ter o próximo grande colapso financeiro”, que na perspetiva do economista grego será comparável à crise financeira de 2008.
“As stablecoins não têm nada de estável, são a fonte de instabilidade”, afirmou. E, logo a seguir, falou neste tipo de ativos como “uma tentativa da administração Trump, ligada aos ‘senhores’ da tecnologia, de essencialmente tentar esmagar Wall Street e elevar Silicon Valley”. Usando como exemplo a Tether, que emite a maior stablecoin do mundo, Varoufakis falou sobre as ligações entre Trump “e a sua própria empresa de stablecoin, a Liberty Financial”.
“As stablecoins são um meio, uma espécie de cavalo de Tróia que está a tomar Wall Street”, reforçou.
Apesar de dizer que já vê “instabilidade” no mercado, assume que não sabe prever quando é que esse cenário de crise possa surgir. “Pode demorar um ano, dois, vinte anos”, admitiu. “Hoje ninguém pode prever como e quando acontecerá, mas estou a usar a reputação que tenho para vos avisar.”
O Observador está no Qatar a convite da Startup Portugal