“O primeiro e o mais importante detalhe a ser negociado em qualquer acordo de cessar-fogo será o destino das passagens de fronteira que ligam [a Faixa de Gaza] a Israel e ao Egito”. Um número limitado de palestinianos atravessou esta segunda-feira a passagem de Rafah, pela primeira vez desde maio de 2024, quando o corredor entre o território palestiniano e o Egito foi bloqueado pelas forças israelitas. Mas a reflexão sobre a importância desta passagem não data da sua reabertura ou sequer da assinatura da trégua entre Israel e Hamas no final do ano passado. A frase faz parte de uma análise publicada pelo think tank The Washington Institute a 7 de agosto de 2014, por ocasião da última grande ofensiva israelita no enclave, antes de outubro de 2023.
Passados 12 anos, a análise continua atual: a reabertura da passagem de Rafah tem sido um dos pontos de maior discussão na implementação de um cessar-fogo. Afinal, o corredor, na região com o mesmo nome no extremo sul do enclave, fica na fronteira com o Egito e é o único ponto de ligação da Faixa de Gaza ao estrangeiro que não é controlado por Israel, essencial, portanto, para a livre circulação de pessoas e bens do enclave. No acordo original, assinado em outubro do ano passado, a reabertura total de Rafah estava incluída na primeira fase do acordo, imediatamente a seguir ao regresso de todos os reféns, vivos e mortos, a Israel.
Porém, nos últimos meses, Israel apenas permitiu a entrada no enclave palestiniano a camiões de ajuda humanitária e o trânsito de pessoas continuou bloqueado — e as linhas entre as diferentes fases da trégua esbateram-se. No passado dia 14, o enviado especial de Donald Trump, Steve Witkoff, anunciou “o lançamento da fase dois”. O anúncio foi desvalorizado pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que disse que se tratava apenas de “um movimento declarativo” e não de um sinal real de progresso. Afinal, faltava ao Hamas entregar o corpo do último refém. Na última semana, o corpo de Ran Gvili foi encontrado, devolvido e abriu-se caminho à reabertura de Rafah.
Porém, num momento raro, vozes críticas de Netanyahu concordaram com o líder do Executivo de Telavive, ao apontar que a trégua atual é “em grande parte simbólica”, como resume o jornal Haaretz. “Um cessar-fogo apenas em nome“, escreveu Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA. A publicação foi feita este sábado, depois de ataques israelitas terem matado 30 pessoas na Faixa de Gaza, apesar do cessar-fogo em vigor — elevando o número total de mortos desde outubro para quase 500. O Exército israelita justificou os ataques com uma alegada violação do acordo, perpetrada por “oito terroristas” na sexta-feira. Porém, para Lazzarini, este quadro não é suficiente. “Basta. As pessoas em Gaza merecem um verdadeiro cessar-fogo — um cessar-fogo há muito esperado”, acrescentou.

Uns procuram cuidados de saúde, outros educação, outros familiares. Todos têm de passar pelo novo controlo de fronteira
Rawa é palestiniana, tem 16 anos e sofre de uma doença renal. Toda a vida manteve a doença controlada com consultas e exames regulares e uma alimentação específica. Até outubro de 2023. A ofensiva desencadeada por Israel depois dos ataques do Hamas no dia 7 de outubro de 2023 impediu-a de manter a sua rotina e a jovem foi obrigada a recorrer a hemodiálise para sobreviver. Rawa é uma de cerca de 20 mil palestinianos que estão na lista de pessoas que procuram sair para o estrangeiro para obter cuidados médicos que já não estão disponíveis na Faixa de Gaza, uma lista compilada pelas autoridades de saúde locais.
“Espero que acelerem o nosso encaminhamento para que possamos viajar rapidamente porque ela está a ficar exausta”, partilhou com a BBC, a mãe, Sabrine al-Da’ma, que se ofereceu para doar um rim à filha. “Eu tenho 45 anos e eles podem dizer-me que à medida que envelheço, já não serei capaz de doar. Por isso é que nos estamos a apressar”. Doentes crónicos, como Rawa, e os milhares de pacientes com cancro (são mais de 11 mil, segundo estimativas da ONU) não são os únicos a correr contra o tempo. Entre os milhares de palestinianos deslocados, há muitos que aguardam há mais de dois anos para aceitar lugares em cursos no estrangeiro. “Recebi uma bolsa fora da Faixa de Gaza e agora estou ansiosamente à espera para a passagem abrir, à espera de atingir a minha ambição”, relatou uma mulher do centro de Gaza à AFP.
Contudo, a reabertura da passagem de Rafah não é, por si só, um passaporte garantido para ter acesso a cuidados de saúde ou ao ensino superior no estrangeiro. O atual sistema, que está a ser testado, prevê apenas a saída de 50 pessoas por dia, com prioridade para doentes sinalizados. Cada pessoa que sai do enclave, tem de ser aprovada pelo Egito, que depois envia o nome para os serviços de segurança israelitas, o Shin Bet, que também tem de dar a sua aprovação.
Na passagem, o controlo é assegurado por representantes da Autoridade Palestiniana, com supervisão da Missão de Assistência de Fronteiras da União Europeia (EUBAM), detalharam as autoridades israelitas, que compararam o sistema ao “mecanismo implementado em janeiro de 2025”, durante o primeiro cessar-fogo. Os meios de comunicação israelitas detalham ainda que o comando militar israelita irá recorrer a um software de reconhecimento facial, que lhe permitirá identificar todos os palestinianos que passam a fronteira, mesmo sem estar no local.

Mas a circulação na Faixa de Gaza não se faz apenas numa direção: os palestinianos que estão no Egito também poderão reentrar no enclave, ainda que o processo seja mais difícil e implique a passagem em múltiplos checkpoints israelitas. O jornal Haaretz avança, citando uma fonte palestiniana, que a exigência de que a circulação fosse feita nos dois sentidos foi imposta pelo Cairo. A exigência tem, por um lado, o objetivo de impedir o “deslocamento forçado” de palestinianos para fora de Gaza, como classificou Mohamad Elmasry, professor no Instituto de Doha, à Al Jazeera. Mas, por outro lado, o Cairo também quer aliviar pressão interna de integrar na sociedade egípcia milhares de imigrantes palestinianos — estima-se que estejam no Egito cerca de 80 mil palestinianos residentes em Gaza.
E muitos destes palestinianos também procuram voltar a casa. Rasha, de 38 anos, é uma destas pessoas. Vive no Cairo desde abril de 2024, tendo saído pouco antes da passagem fechar, com quatro dos filhos e a mãe. A saída foi possível porque uma das filhas ficou ferida nas pernas durante um bombardeamento israelita em dezembro de 2023. As pernas não sararam corretamente e a menina, agora com 5 anos, precisa de cuidados permanentes. O seu marido ainda está na Faixa de Gaza, mas não é por ele que Rasha quer voltar — ao Haaretz partilhou que gostaria que o marido se juntasse ao resto da família do Cairo para começarem do zero.
O desejo de Rasha voltar é alimentado por aqueles que, ao contrário do marido, não sobreviveram a dois anos de ofensiva israelita em Gaza: a filha mais velha, morta aos 16 anos no mesmo ataque que feriu a criança mais nova, o pai, o irmão e a irmã. “Eu quero voltar e vê-los e nunca mais sair. Eles estão todos mortos, mas sentem-nos. Dão-nos força, mesmo que estejam enterrados”, rematou.
[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]
A “única esperança” de Netanyahu para se focar totalmente no desarmamento do Hamas
“Abrir o ralo de Regavim”. É assim que, no seu site oficial, as Forças de Defesa de Israel (IDF, o Exército israelita) caracterizam a missão em que tropas israelitas realizaram uma inspeção do checkpoint instalado para os palestinianos que tentarem reentrar na Faixa de Gaza. O nome utilizado “não é aleatório”, garantiram dois analistas, especializados em política israelita e críticos de Netanyahu, à Al Jazeera.

A palavra “regavim” significa, em hebreu, “pedaço de terra arável”, mas também um peso histórico, que remonta aos primeiros defensores da criação do Estado de Israel, aponta Mohannad Mustafa ao canal qatari. “Eles estão a enquadrar a sua presença em Gaza não como uma missão temporária de segurança mas como uma forma de ‘redimir a terra’ idêntica à ideologia dos primeiros pioneiros”, aponta. Além da importância histórica, a palavra também tem um peso político: é o nome de um movimento fundado em 2006 pelo atual ministro de extrema-direita, Bezalel Smotrich, que tem como objetivo expandir os colonatos israelitas na Cisjordânia.
Já Ihab Jabareen critica também a utilização da palavra “nekez” (ralo, em tradução do inglês no site das IDF). “Ao tratar a terra como ‘regavim’ (solo que tem de ser detido) e o povo [palestiniano] como ‘nekez’ (um fluxo que tem de ser drenado), estão a estabelecer uma realidade a longo prazo onde Gaza é um espaço administrado, nunca uma entidade independente”, elabora.
A leitura dos dois analistas foca-se nas entrelinhas dos comunicados do Exército. Mas a oposição israelita à reabertura da passagem de Rafah é mais aberta do que o nome dado à inspeção de um local. Durante meses, Telavive adiou este passo, notando que o acordo de paz só devia prosseguir depois de todos os reféns terem sido devolvidos. Com o regresso do corpo de Ran Gvili, a atenção israelita focou-se num outro ponto, um dos principais pontos da segunda fase do cessar-fogo: o desarmamento do Hamas.
Ora, a reabertura da passagem vai de encontro a este objetivo, argumentam responsáveis militares citados pelo Haaretz. Os oficiais afirmam que “Israel não tem uma forma eficaz de prevenir que o Hamas tome controlo da ajuda que entra desde que continue a entrar em quantidade”. Por este motivo, quanto mais abertura ao mundo tiver a Faixa de Gaza, mais fácil será para o Hamas voltar a encontrar financiamento — e armas. E a única forma de travar isso é bloquear o trânsito em Rafah. “Mas essa decisão cabe ao poder político”, remata o jornal, resumindo a posição das chefias militares.

Por agora, a preocupação da cúpula política é endereçada pelo rascunho mais recente plano de paz traçado pelos Estados Unidos, apresentado à margem do Fórum de Davos. Se, no plano original, o desarmamento do Hamas e a retirada das IDF de Gaza aconteciam em simultâneo, na segunda fase do acordo — para a terceira fase estava reservada a retirada permanente e a reconstrução e administração a longo prazo de Gaza —, o novo rascunho, apresentado pelo genro de Donald Trump, detalha que o Exército israelita só voltará a recuar até o Hamas ter desarmado e o governo tecnocrata de Gaza deter o monopólio da força militar.
Com este plano em mente, a diretiva do poder político é que o Exército “não atrapalhe a implementação [da segunda fase] nem enfureça os americanos”, avançou o jornalista e analista do Haaretz, Amos Harel. Mas as IDF têm “planos operacionais para conquistar a Faixa [de Gaza] de o acordo colapsar”, continua o artigo, em que o analista argumenta que essa é “a única esperança” do Governo de Netanyahu para alcançar os seus objetivos. Ou seja, o colapso do atual passo do cessar-fogo, a reabertura de Rafah, ajudaria Netanyahu a justificar perante Washington uma nova ação para alcançar o objetivo de desarmar o Hamas.
Contudo, avaliar o sucesso da reabertura da passagem de Rafah não pode ser feito de forma isolada. Pelo contrário, o “sucesso” de um cessar-fogo na Faixa de Gaza depende de uma aplicação interconectada dos diferentes objetivos políticos e de segurança, argumenta Julie Norman, analista no think tank Chatham House. Além da entrada de ajuda humanitária e da circulação de pessoas, a trégua prevê ainda a reconstrução da Faixa de Gaza, a formação de uma força de segurança e de uma administração permanente — e todos estes objetivos estão, ainda, muito longe de serem cumpridos.