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Rede elétrica portuguesa é das mais vulneráveis a tempestades. Enterrar é mais caro, mas não é "exorbitante", diz especialista

Rede elétrica portuguesa é das mais vulneráveis porque não se investiu. Efeito da Kristin pode mudar tudo. Enterrar é mais caro, mas não "exorbitante" e deve começar na média tensão, diz especialista.

Ana Suspiro
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A vulnerabilidade da rede portuguesa de eletricidade ficou bem visível perante o impacto destruidor da depressão Kristin. Mais de 5.000 quilómetros de linhas foram afetados — da muito alta tensão, à alta e à média tensão (não há dados sobre a baixa tensão) —, várias subestações ficaram comprometidas e centenas de postes caídos no chão. Quase uma semana depois ainda há mais de 100 mil pontos de abastecimento sem energia (e cada um destes pontos é uma casa, uma família uma empresa ou um serviço público).

É um cenário que trouxe de volta ao debate o enterramento da infraestrutura, com um número crescente de vozes a reconhecer essa necessidade — do Governo à empresa que gere a infraestrutura mais atingida (rede de alta e média tensão).

https://observador.pt/2026/01/30/foi-brutal-e-nao-tem-paralelo-kristin-atingiu-mais-de-5-000-km-de-redes-eletricas-da-media-a-muito-alta-tensao/

No século XX a maioria das redes elétricas eram aéreas, mas os países foram enterrando a infraestrutura. Primeiro foram os nórdicos devido às condições atmosféricas mais severas, mas a tendência chegou aos países mediterrânicos. Portugal é um dos países da União Europeia com a menor percentagem de rede elétrica enterrada — 20%. É menos de metade da média europeia, que é de 45%, e muito abaixo dos níveis verificados em países comparáveis como Espanha e Itália. Apenas a Irlanda e a Grécia têm uma dimensão de rede aérea comparável com Portugal.

Esta é a consequência do país ter investido menos que os parceiros europeus em anos recentes, considera o professor do Instituto Superior Técnico e especialista em energia e redes e coordenador para a transição energética, Pedro Carvalho. O caso mais radical de mudança de paradigma viveu-se em França, precisamente no rescaldo de uma dupla tempestade que, na viragem para o milénio, arrasou as redes elétricas deixando milhões de pessoas sem energia elétrica e com temperaturas muito baixas.

Em Portugal, a opção construir uma rede sobretudo aérea foi justificada pelo presidente da E-Redes pelo facto de a eletrificação ter chegado mais tarde. Houve um esforço nos anos de 1970 e 1980 para acelerar a cobertura e melhoria do serviço de forma rápida e menos cara. E essa opção, explicou José Ferrari Careto numa das  primeiras intervenções sobre os impactos da tempestade, foi feita com base na melhor informação existente à data — nomeadamente em termos de condições climatéricas e da ocorrência menos frequente de eventos extremos.

Regulação fez pressão para reduzir investimento em redes, diz especialista

Está em marcha um ciclo de fortes investimentos nas redes elétricas para renovar uma infraestrutura que é antiga e, ao mesmo tempo, reforçar a capacidade de receber produção renovável e alimentar os super-consumidores. Este ciclo abre uma janela de oportunidade e eventos catastróficos como a tempestade Kristin podem fazer a diferença na tomada de decisões.

Pedro Carvalho alerta também para o efeito que a regulação de preços da eletricidade em Portugal tem tido sobre os investimentos nas redes elétricas. Tem havido uma “pressão muito grande” por parte do regulador (a ERSE) para cortar investimentos de modo a não onerar as tarifas elétricas. Até recentemente, assinala o especialista do Técnico, a ERSE deu vários pareceres negativos aos planos de investimento propostos pela REN (redes de transportes) e pela EDP Distribuição. (Por imposição do regulador, a empresa que gere as redes de distribuição mudou de nome para E-Redes, mas continua a ser controlada pela EDP). Estes “chumbos” aconteceram num contexto de défice tarifário e quando as chamadas “rendas” pagas à produção puxavam os preços para cima.

As redes, diz Pedro Carvalho, valem apenas 10% da fatura elétrica e apesar de ser mais caro enterrar cabos — o impacto na fatura do acréscimo de custos de enterrar uma parte da infraestrutura pode não ultrapassar 1% a 2%, estima o especialista. Para Pedro Carvalho, faz sentido começar por enterrar a rede de média tensão onde o sobrecusto é menos pesado.

O gestor da E-Redes avisou que há trade offs a fazer. Há investimentos muito significativos previstos para as redes — 1.700 milhões de euros para o transporte e 1.600 milhões de euros para a distribuição — mas são para modernizar e aumentar a capacidade. “Temos de equilibrar o que queremos dedicar a enterramentos”.

Numa primeira reação ao tema, José Ferrari Careto admitiu vantagens em alguns casos e num mundo que está mudar, mas considerou que não se devia mudar totalmente a abordagem de um momento para o outro. Mais recentemente, o presidente da E-Redes reconheceu a necessidade de “equacionar” na zona afetada fazer algum enterramento de linhas para evitar estes fenómenos. “Não é fácil enterrar linhas em terrenos muito urbanizados”, mas a empresa vai avaliar essa possibilidade.

A ministra do Ambiente e Energia foi mais clara ao defender que é preciso “pensar a nossa rede de uma forma diferente”, perante um cenário em que há maior frequência de tempestades de uma dimensão que era rara. E isso significa, referiu Maria da Graça Carvalho numa conferência sobre energia europeia, realizada nesta segunda-feira, ter uma abordagem equilibrada entre custos para consumidores e contribuintes e ganhos de resiliência.

Quanto custa?

Em 2017, foi posto em consulta pública o relatório de um grupo de trabalho nomeado pelo Governo para estudar o efeito dos campos eletromagnéticos das linhas de alta tensão na saúde humana. Este relatório avança uma estimativa de quanto custa mais a instalação da rede elétrica através de cabos subterrâneos ao invés de via aérea, indicando que será 13 a 20 vezes mais caro.

Uma proporção comparável volta a aparecer em declarações de 2018 do presidente da REN, quando Rodrigo Costa foi questionado sobre o impacto do decreto-lei que interditou a passagem de novas linhas de alta tensão perto de hospitais, escolas, lares e instalações desportivas e residências. Mas estes valores diziam respeito às linhas de alta e muito alta tensão. A EDP Distribuição, antecessora da E-Redes, avançava com um custo até seis vezes superior ao das redes aéreas. As duas empresas mostravam então resistência à esta opção, usando como principal argumento os custos avultados.

Pedro Carvalho reconhece que há um sobrecusto de enterrar, mas não é uniforme para todos os níveis de tensão, já que vai subindo à medida que o nível de tensão aumenta. E recusa que os valores adicionais sejam 10 vezes mais altos quando estão em causa linhas de baixa ou média tensão. No máximo, indica, será o dobro. Os cabos usados nestas instalações subterrâneas são cerca de 30% mais caros que as aéreas e ainda tem de se prever outros encargos, como a necessidade de abrir valas (ao longo de outras infraestruturas) e ter, por razões de segurança, um membro das forças policiais a acompanhar os trabalhos.

As redes elétricas (transportes e distribuição) representam uma fatia de 10% na fatura final e, por isso, este especialista considera que o investimento para instalar cabos subterrâneos poderia ser limitado à partes da rede de média tensão onde o sobrecusto é mais baixo. E esta é a rede mais exposta a interrupções por ser muito extensa e atravessar zonas de vale nas proximidades de centros de consumo.

Na rede de alta tensão seria mais caro enterrar, mas esta é também muito mais resistente, assim como são os postes de alta tensão. Esta infraestrutura foi a que aguentou melhor o efeito da tempestade. Apesar de terem sido afetadas até 10 linhas, quase 700 quilómetros de linhas, e de ter perdido temporariamente uma subestação, a REN conseguiu manter o fornecimento. A rede de transporte é o backbone (espinha dorsal) do sistema elétrico e tem muito mais redundâncias que a de distribuição.

Uma lenta recuperação e uma infraestrutura que vai ser preciso reconstruir

A Kristin começou por deixar às escuras um milhão de casas e instalações na quarta-feira da semana passada, o que equivale a cerca de 17% de todos os pontos de fornecimento no continente. Este número caiu para metade logo na tarde de quarta-feira. A redução de clientes afetados continuou, mas a um ritmo cada vez mais lento e persistindo falhas no serviço totais ou muito significativas em vários concelhos do distrito de Leiria, num raio que apanhou ainda municípios de Coimbra, Castelo Branco, Santarém e até Portalegre.

Desde o final da semana passada que a E-Redes tem tido muita dificuldade em acelerar o ritmo da recuperação do serviço, apesar de ter concentrado meios humanos e equipamento sem precedentes na região de Leiria. Mais de 200 mil pontos de abastecimento ficaram três sem dias sem energia. E há quase uma semana, que mais de 100 mil clientes continuam sem fornecimento, com impactos nas comunicações e no abastecimento de água.

O especialista do Técnico admite que a reposição da capacidade de infraestrutura na região pode demorar anos, devido aos danos estruturais no equipamento. “Não se refaz uma rede” em pouco tempo. Terá de se substituir os postes de betão onde assentam as torres e as próprias torres, em função dos estragos sofridos, podem ter de ser renovadas.

As soluções provisórias que estão ser adotadas para repor o serviço, como passar as linhas pelo chão, são mais instáveis, o que significa maior vulnerabilidade a avarias, como admitiu já a E-Redes.

O especialista do Técnico diz que o enterramento permite melhorar em muito a resiliência da rede que fica protegida de fenómenos externos, como ventos e tempestades, mas também lixo que vem das árvores. Se é certo que as reparações são mais difíceis de executar, também serão menos necessárias. Há o risco de inundações, como aconteceu com as linhas que abastecem Leiria, mas esse problema é mais fácil de resolver do que reparar os danos físicos nas infraestruturas provocados pela Kristin.

Há ainda vantagens ao nível de minimização dos impactes ambientais negativos. A construção de linhas aéreas envolve frequentemente o corte de árvores — mais comum quando estão em causa linhas de alta ou muito alta tensão onde é necessário limpar um corredor. E também a nível paisagístico e social, uma vez que as populações não gostam da proximidade das linhas elétricas.

Quem paga?

A prazo, só o enterramento de uma parte da infraestrutura dará maior resiliência à rede, insiste Pedro Carvalho, que aponta para um impacto de 1% a 2% por ano nos preços finais. “Pesa pouco na fatura, mas pesa imenso quando acontece isto”, numa referência ao efeito da tempestade. Para o especialista, há um “desajuste entre a perceção de quanto custa e a qualidade de vida das pessoas. Estamos a falar de mil ou dois mil milhões de euros. Não estamos a falar de custos exorbitantes, é um impacto gerível na fatura”.

Portugal tem planos de investimentos para as redes de mais de três mil milhões de euros até ao final da década. O valor sobe algumas centenas de milhões de euros com os investimentos excecionais aprovados pelo Governo e que estão fora dos planos — para responder a situações concretas como o reforço da segurança pós-apagão e o aumento de capacidade em Sines para responder à subida da procura. Nenhum destes planos refere como prioridade o enterramento de linhas. Há projetos para infraestruturas subterrâneas no Porto e a Lisboa.

Em matéria de financiamento, Portugal pode tentar invocar a convergência com a União Europeia, da qual está muito afastado em percentagem de infraestrutura enterrada, para conseguir fundos europeus.

O argumento que terá sido usado junto do comissário da Energia e Habitação, no encontro realizado esta segunda-feira em Lisboa sobre a política energética. Em declarações à imprensa, Maria da Graça Carvalho adiantou que no plano europeu o reforço da resiliência das redes portuguesas foi discutido com a Comissão Europeia no âmbito do futuro pacote europeu para as redes elétricas (“grid package”). E defendeu que as necessidades de países periféricos, como Portugal, devem ser consideradas no financiamento comunitário.

Outra janela de oportunidade para enquadrar o investimento no enterramento de linhas é o concurso para as concessões da rede de baixa tensão, considera Luís Pinho, diretor da Helexia Portugal (empresa do grupo Voltalia especialista em soluções energéticas). Este concurso já foi várias vezes adiado devido a divergências sobre o modelo a adotar e o risco de separação da exploração de níveis de tensão. A empresa do grupo EDP entrega uma renda às autarquias (que é refletida nas tarifas elétricas), ao abrigo de contratos de concessão municipais, a maioria dos quais já ultrapassou o prazo inicial. Numa nova concessão, o Estado ou as autarquias podem impor metas para enterrar linhas.

Para Luís Pinho o eventual investimento na resiliência das redes é um tema oportuno para discutir num processo de transição sobre a concessão destas infraestruturas. “Seguramente que enterrar traz mais resiliência, mas o investimento é mais elevado. É uma escolha estratégica que o país terá que fazer” e com prioridades bem definidas. Eventos como a tempestade Kristin são uma oportunidade que pode ser aproveitada para criar nas pessoas a perceção de que é necessário fazer.

[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]