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Imprevisível não é o clima, é a nossa própria mudança

Um país que governa por reação, constrói mal e vive de atalhos, que depois se queixa do clima. Mudar, em Portugal, é o único fenómeno verdadeiramente imprevisível.

Rui Camarinha
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Tudo começou com um padeiro a morrer esmagado por uma árvore quando estava a caminho do seu ganha pão. Caiu muita água e fez muito vento em Portugal nos últimos dias. Tempestades passaram por nós. E choveram críticas aos políticos.

Não vale a pena criticar quem nos governa. Os políticos são pessoas iguais ao comum dos cidadãos, isto é, ignorantes, vaidosos e convencidos de que o mundo começa e acaba no próximo ciclo eleitoral. Ignorantes porque confundem fenómenos extremos com “exceções”, vaidosos porque acreditam que uma conferência de imprensa resolve aquilo que décadas de desleixo agravaram, e perigosamente confiantes porque sabem que, no fim, a culpa morrerá solteira – como  sempre.

Nestas alturas surge sempre uma palavra mágica: “resiliência”. Uma espécie de mantra nacional que serve para tudo, menos para prevenir. Resiliência é um nome bonito dado à arte de aguentar calado, enquanto se promete estudar o assunto depois da próxima tragédia. Como se não houvesse sinais e avisos. Como se o problema fosse a surpresa e não a fragilidade estrutural de um país que confunde fatalidade com destino e incompetência com azar.

A Kristin não matou só um padeiro a caminho do seu ganha pão. Expôs um país construído em cima do improviso, governado à base do remendo e embalado pela ilusão de que nada de verdadeiramente grave nos acontece. Até acontecer. Sempre de surpresa. Sempre “imprevisível”. Sempre com a mesma encenação: visitas oficiais aos destroços de semblante carregado e declarações graves para as televisões, minutos de silêncio e, semanas depois, o silêncio absoluto – como sempre.

Duas situações tipicamente portuguesas subiram ao palco com a entrada em cena do cidadão comum. A primeira foi a sua convocação para o papel que o país mais lhe reserva: subir ao telhado para resolver. Sem rede, sem proteção, sem condições mínimas de segurança, mas com a urgência de quem não pode esperar por seguros, peritos, autorizações ou do próprio Estado.

Até agora foram dois os incautos. Eles não morreram por causa da Kristin. Morreram porque escorregaram. Morreram porque caíram. Morreram porque “tiveram azar”. Azar é a palavra favorita de um país que se especializou em transformar negligência estrutural em fatalidade estatística. Como se a estupidez estivesse em subir ao telhado e não em viver num país onde subir ao telhado é a última opção.

A segunda cena é a das casas que voam. Algumas habitações, na verdade, já tinham deixado de o ser muito antes de ruírem. Anexos ilegais, construções feitas à pressa e fora da lei, erguidas na convicção confortável de que “nunca acontece nada”. Ignora-se a lei, dispensa-se a segurança e empurra-se a responsabilidade para a frente, na esperança de que, no fim, alguém pague a conta.

Quando o telhado voa, instala-se a indignação. Aponta-se o dedo ao Estado, às câmaras, às seguradoras, às indemnizações que tardam. Tudo serve para evitar o essencial: grande parte da destruição é autoinfligida. Constrói-se mal, constrói-se onde não se deve e, depois, exige-se que a realidade faça vista grossa. Como se o vento tivesse obrigação de respeitar ilegalidades.

No fim, não foi a Kristin que falhou. Falhámos nós. Um país que constrói mal, governa por reação, vive de atalhos e depois se declara vítima do clima. Um país que chama resiliência à resignação, azar à irresponsabilidade e exceção ao que já é regra. As tempestades passam e a lição nunca é aprendida. Porque aprender implicaria mudar. E mudar, em Portugal, continua a ser o único fenómeno verdadeiramente imprevisível.