Em geral, quem evita pronunciar-se sobre o conteúdo refugia-se na forma. E, se é verdade que na política as aparências contam, no caso do candidato do PS é evidente a intenção de escapar ao debate substantivo, procurando assim tornar-se digerível para o eleitorado de direita e ocultando aquilo em que realmente se vota: a reconstrução da esquerda e, em particular, do PS.
A tentativa forçada de invocar um alegado “chão comum”, quando a incomensurabilidade esquerda-direita em causa, confirmada por uma longa tradição de disputa histórica, demonstra aquilo que na teoria e na prática política constitui uma impossibilidade evidente, torna a situação ainda mais bizarra. Não se trata de divergências acidentais ou circunstanciais, mas de clivagens estruturais e duradouras que encontraram na democracia uma forma de coexistência pacífica, jamais de unificação.
Essa união, a acontecer, caminha para a já gasta lógica “pós-política” de gestão tecnocrática e que, essa sim, coloca em risco os próprios valores democráticos, a continuação da participação política da população em diversas matérias, bem como todos os outros chavões frequentemente invocados pelos pretensos defensores da legitimidade democrática e dos interesses do género humano. Quando certa intelligentsia repetia que a divisão esquerda-direita deixou de fazer sentido, começa agora a tornar-se visível a olho-nu para que fim se foi preparando o terreno.
Depois de, de forma pouco democrática, explorar até à exaustão o argumento do risco para a democracia numa candidatura a um cargo que, pelas limitações constitucionais dos seus poderes, dificilmente poderia concretizar tal ameaça, recorre-se agora, como última opção, à questão da forma. Usa-se e abusa-se do marketing político, há muito especializado em fabricar e transformar, da noite para o dia, figuras medianas em líderes artificiais e fantoches em Homens de Estado.
Tudo isto no jogo das “percepções”, destinado a produzir uma imagem de simpatia, bonomia, respeitabilidade e “decência”, em contraste com os alegados “bárbaros” que “querem “dividir”. Como se a própria teoria de esquerda não assentasse, desde a sua origem, numa desconfiança estrutural quanto à genuinidade das relações sociais e numa clivagem fundacional de tipo dialéctico, a clássica relação mestre-escravo, replicada até à exaustão e permanentemente ampliada através da exacerbação de divisões de classe, “género” e outras categorias, no que hoje se designa, de forma vaga, por cultura woke.
O desprezo intelectual pelo eleitor de direita atinge o cúmulo quando respeitáveis comentadores políticos sugerem que se deva votar pela cara do candidato, por ser “uma simpatia”. Ignora-se deliberadamente, e com uma ligeireza desconcertante, a clivagem histórica profunda entre esquerda e direita, com todo o seu lastro de confrontos políticos muito recentes, culturais e até de violência verbal e física. Diz-se, como os espanhóis, “¡hombre, no pasa nada!”, ou como na comédia ligeira, que “tudo está bem quando termina bem”. Um extraordinário descaramento.
Que absurda tentativa, vinda de membros da direita conservadora, de captar eleitores, pedindo-lhes que esqueçam os seus valores em troca do apoio a um candidato, nos seus antípodas, que representa um partido radicalizado à esquerda, embora cuidadosamente disfarçado. A pergunta impõe-se: venderam-se a quê?
Recomenda-se “de todo o coração” o candidato do PS, agora convenientemente rotulado de “moderado”, e isto sem qualquer traço decente de sarcasmo, talvez apenas de hipocrisia. Não porque seja melhor, mais capaz, mais inteligente ou dotado de uma obra ou currículo superiores, pois, se tais atributos existissem, seriam, na ausência de melhores argumentos, imediatamente mobilizados.
Não podendo apelar a nenhum desses critérios, a esquerda, cujo único receio existencial à direita parece agora reduzir-se ao Chega, aplica de forma recorrente uma fórmula simples: envergonhar a direita por não apoiar o candidato que a esquerda da esquerda deseja ver no poder.
Estes autoproclamados democratas “decentes” acabam assim por apoiar (ironicamente para defender a democracia) os mesmos proponentes da chamada “anulação”, que ainda há pouco tempo identificavam como uma ameaça à democracia.
Não continuarão a ser os mesmos defensores de concepções aberrantes, de tabus rígidos e de interdições arbitrárias sobre o que pode ou não ser objecto de deliberação pública?
Não continuarão também associados às interpretações mais radicais e disfuncionais da tricoloridade?
É evidente que a dicotomia esquerda-direita não só não está morta, como permanece plenamente operativa e não se deixa empurrar para debaixo do tapete sem se pagar um preço. A esquerda depende estruturalmente dessa divisão nos seus pressupostos quando oferece agora a mão, apenas para a retirar mais tarde, passando-a pelo cabelo.
Numa eleição que depende decisivamente dos votos da direita, é no mínimo bizarro que uma parte dessa direita prefira o candidato do PS a uma posição neutra, em particular por aqueles que tanto defenderam os riscos da “geringonça” que agora se propõem replicar.
Resta perguntar se a memória política se tornou assim tão curta para deixar passar.