A campanha de André Ventura para a Presidência da República levanta uma questão intrigante: será que o líder do Chega realmente quer ser Presidente, ou está a jogar um jogo político mais complexo?
Há razões para desconfiar que Belém não é o verdadeiro objectivo. O cargo presidencial em Portugal, embora prestigioso, é sobretudo simbólico e moderador. Para alguém com o perfil combativo de Ventura, conhecido por querer protagonismo directo e capacidade executiva imediata, a Presidência pode parecer uma jaula dourada – muita cerimónia, pouco poder real para implementar a agenda radical que promete.
O cargo de Primeiro-Ministro, esse sim, permitiria a Ventura governar efectivamente, aprovar leis, remodelar políticas. É onde o poder verdadeiro reside no sistema semipresidencialista português. E para lá chegar, precisa de testar e expandir a sua base eleitoral nacional.
Esta candidatura presidencial pode ser precisamente isso: um exercício de sondagem política em tempo real. Com cobertura mediática garantida, debates de alto nível e a atenção de todo o país, Ventura está basicamente a fazer uma campanha nacional financiada e amplificada para as próximas legislativas. Cada voto que recebe é um indicador da sua verdadeira força eleitoral, cada região onde pontua bem é um mapa para futuras estratégias. Se perder, como as sondagens sugerem, não perde muito. Pode argumentar que enfrentou “todo o establishment”, reforçar a narrativa de outsider perseguido, e apresentar-se como mártir do sistema. Se ganhar, ficaria numa posição inesperada mas podia eventualmente criar instabilidade política suficiente para forçar eleições legislativas antecipadas.
Em ambos os cenários, sai fortalecido para o que realmente importa: as próximas eleições legislativas, onde o Chega pode aspirar a ser parceiro de coligação ou, num cenário mais optimista para o partido, liderar um governo.
A segunda volta não é o fim do jogo para Ventura, é apenas o fim do primeiro acto. E talvez seja isso mesmo que ele sempre soube.