Após mais de 3 milhões de portugueses terem acompanhado o debate presidencial, no próximo dia 8 de fevereiro, os eleitores não escolherão apenas um Presidente da República. Escolherão, acima de tudo, se querem prolongar o modelo político que tem governado o país nas últimas décadas ou abrir espaço a uma rutura clara com esse ciclo. Sendo certo que o Presidente não detém grandes poderes executivos ou legislativos, é o mais alto cargo da Nação e aquele que, naturalmente, transmite a imagem de Portugal interna e externamente.
António José Seguro apresenta-se como o candidato da moderação e da previsibilidade. No entanto, para muitos eleitores, essa “estabilidade” levanta uma dúvida legítima: estabilidade de quê, exatamente? Da trajetória de crescimento anémico, dos serviços públicos em colapso e de uma carga fiscal que continua entre as mais elevadas da Europa? Para uma parte significativa do país, a moderação de Seguro é vista como a continuidade de um sistema viciado que permitiu escândalos como o das gémeas no SNS — onde se gastaram 4 milhões de euros em privilégios enquanto o povo desespera por uma consulta.
O apoio alargado que Seguro recolhe das restantes vertentes políticas é o sinónimo claro de uma cúpula construída que reforça a ideia de um candidato do regime. Falo também numa perspetiva pessoal: sendo um ex-membro da Iniciativa Liberal, custa-me ver setores liberais alinhados com quem tem como referências políticas os rostos da bancarrota e do empobrecimento. A promessa liberal de “libertar o país do socialismo” dilui-se quando, nos momentos decisivos, se converge para a sombra de figuras como José Sócrates ou António Costa. Escolher Seguro não é equilibrar o país; é entregar o nosso destino a quem sempre viveu à sombra dos responsáveis pelo nosso declínio.
Do outro lado está André Ventura. O seu crescimento, de 1 para 60 deputados, não se explica apenas por rótulos de “protesto”. Há uma base social real, da qual hoje sou simpatizante convicto, que sente que o sistema não responde à corrupção, à insegurança e ao descontrolo da imigração. Para estes eleitores, Ventura simboliza a ideia de que o medo de mexer em temas sensíveis é parte do problema. A reação de parte dos média, muitas vezes moralizante, com uma narrativa enviesada e pouco dada ao debate de fundo, apenas provou que existe uma distância abissal entre as perceções das elites e a realidade do cidadão comum.
No fim de contas, é importante desmistificar: esta não é uma escolha entre democracia e ditadura, como muitos querem fazer parecer. É, sim, uma escolha entre dois candidatos e dois caminhos distintos. Um aposta na continuidade institucional e na gestão gradual dos problemas, o que gera o risco da estagnação. O outro aposta na confrontação direta com os bloqueios do sistema, o que pode gerar o risco da tensão inerente a qualquer mudança profunda. No entanto, fingir que só um dos lados tem riscos é desonesto.
Muitos portugueses concluíram que o maior perigo não é mudar demasiado, mas sim continuar quase tudo na mesma. O voto em Ventura é um sinal de saturação com décadas de promessas que raramente saem do papel. No fim, a escolha é simples: queremos mais cinco anos de uma moderação que encobre o declínio ou um rumo que coloque o nosso povo e o país em primeiro lugar?