Quando li a carta dos “250 não-socialistas” fiquei comovida.
Estes 250, e os demais apoiantes professos de Seguro, mostram-nos o caminho: corajosos profetas da verdade, orientam o eleitor para que se mantenha na senda do socialismo, para que não se esquive da prosperidade que este sempre trouxe ao país e para que, disciplinadamente, ignore décadas de evidência empírica que possam sugerir que alguma mudança seria benéfica.
Mas não se enganem, e não se atrevam a desviar-se da virtude: os 250, e os restantes (agora) assumidos votantes de Seguro, querem apenas o melhor para o país, desde que, para alguns, isso signifique a continuidade da sua influência. Querem mais socialismo, apesar de alguns até se assumirem liberais ou democratas-cristãos, para evitar que o país a que se acostumaram, no qual cravaram as unhas e onde até já têm o assento moldado à medida, depois de tantos anos sentados, permaneça “em família”. Querem o melhor para o povo, desde que esse povo não escolha mal: ora, não se sabe que o povo só não é “atrasado mental” quando vota como deve, como diz Sérgio Sousa Pinto?
Os 250 querem, objectivamente, influenciar o eleitor a votar como é suposto (de forma complacente, claro, tal pai carinhoso que tem um filho algo problemático): então agora lembraram-se de começar a dizer que os portugueses podem escolher alguém que não seja do centrão, ou de esquerda? Que brincadeira de mau gosto é esta? Não era esse o plano, nem o caminho predestinado.
Que cambada de ignorantes são estes eleitores, que ameaçam boicotar 50 anos de conluios silenciosos: quem não vota Seguro não pode ser senão, à falta de melhor palavra, um verdadeiro asno.
Mas os 250, e os apoiantes de Seguro em segundas núpcias, zelam por nós: toda a gente sabe que quem percebe destas coisas democráticas são os Senhores Doutores, que já governaram, que decidiram sempre bem, que falam de forma empertigada e que tornaram o país no paraíso que é hoje. É espantoso: depois de tudo isto aparecem estes eleitores a votar no que não devem?
Para esta elite de portugueses, virtuosos democratas, votar Chega equivale a ignorância. Os licenciados, mestres e doutorados que votam Chega são simplesmente estúpidos. Mas quem não estudou, quem não fez o ensino superior, quem é agricultor, por exemplo, vota Ventura apenas, e só, por ignorância e falta de estudos. Coitado: esse que trabalha com as mãos e alimenta o país, mas não vota Seguro, só o faz por falta de informação e de educação, nunca por esclarecimento ou vontade. Não, este não é Doutor, por isso o seu voto vale menos, mas só se não votar Seguro. Aliás, no Alentejo, historicamente comunista, o voto era do povo até passar a ser do Chega: quando assim foi, o povo não mais ordena. Coitados, perdoem-nos, pois estes eleitores não sabem o que fazem. A democracia é para todos, claro, mas não para os que não votam bem.
Os 250 querem o melhor para nós, mas têm medo da mudança, para eles. Para quê mudar o que tem funcionado tão bem? Porque raio tinha de vir o povo dizer o que quer, se o que quer não for Seguro? Só podem ser fascistas, senão nem hesitavam em votar no candidato que os 250, e os demais, à falta de melhor, já elegeram, por nós, para o país. Como se pode ser tão ignorante e abdicar de um país perfeito, imaculado e irrepreensível, que não precisa de nenhuma mudança?
Em Portugal, há democratas que estão inquietos. Têm medo da mudança e da decisão do povo. Porque a democracia só lhes serve se o resultado lhes pertencer.