Marflete posa à frente de uma pilha de entulho, sobretudo composta de metal das chapas que revestiam o que dantes era a sua empresa de lacagem de ferro, a Diartes, nas Colmeias, Leiria. Ouve-se por todo o lado que aquele local “desapareceu” e chegando lá percebe-se que a descrição não é um exagero.
“Está tudo destruído, desde empilhadores, máquinas, fornos, tudo tudo destruído. Nem os computadores se salvaram. Estamos no ponto zero“, afirma ao Observador a proprietária da empresa familiar que geria com o marido e os dois filhos.


De “dentro” do pouco que resta do armazém, Marflete Ferreira e três mulheres retiram algumas das peças que tinham sido levadas por clientes para lacar, uma delas é parte de uma máquina de costura da Singer. Os materiais estão espalhadas por todo o lado, é literalmente uma caça ao que sobrou depois de ter “rebentado uma bomba”, como diz a mulher.
Ali fazia-se termolacagem de portões, grades, tudo o que seja de ferro. “Temos o material dos clientes todo aqui. Na noite do temporal decidimos guardar o material dentro do pavilhão para o proteger e afinal se tivesse ficado na rua tinha ficado melhor, está tudo danificado”, acrescenta.
“Não há palavras, é chegar aqui e ver isto tudo completamente destruído. É ver tantos anos que andámos aqui a tentar trabalhar com clientes, a formar uma empresa, e em duas horas perdeu-se tudo”, lamenta, repetindo que “não se aproveita nada”.

Na empresa trabalham 11 pessoas e Marflete Ferreira não esconde a incerteza em relação ao futuro. “Ainda não tivemos reunião com os trabalhadores, mas não há meios, espero que possamos ir todos para o fundo de desemprego pelo menos”, chega a admitir.
Os seguros da empresa também já foram ativados. “Uma coisa que lhes pedimos [às seguradoras] foi que sejam realistas e que venham ao terreno ver o que está aqui”, diz.
No momento em que a empresária falou com o Observador ainda não tinham sido anunciadas as medidas do Governo, que incluem 2.500 milhões de euros de apoios a famílias e empresas, bem como o regresso do regime de lay-off simplificado nos próximos três meses.
https://observador.pt/especiais/linhas-de-credito-lay-off-simplificado-isencoes-a-seguranca-social-e-moratorias-as-medidas-de-apoio-as-empresas-afetadas-pelo-kristin/
Em relação aos seguros, o ministro da Economia reuniu-se com os principais operadores, que garantiram haver condições para que 80% das vistorias e peritagens necessárias decorram nos próximos 15 dias. Só as “situações mais complexas” poderão levar mais tempo.

“Quando se chega e vê isto, a única coisa que apetece é fugir, mas não se pode fugir”, afirma Marflete Ferreira, que diz esperar “que as entidades competentes também não fujam”.
“Espero que haja apoios e que abram os olhos para a destruição total que está aqui”, apela, referindo que a única visita de autoridades ou representantes políticos que receberam, até agora, foi a da presidente da Junta de Freguesia de Colmeias.
“O nosso cliente não pode parar as linhas”. Empresários correm para voltar ao ativo em tempo recorde
Ao lado desta empresa, nas Colmeias, há mais dois pavilhões que, apesar de terem sofrido danos significativos, não apresentam o grau de destruição da Diartes. Pelo menos ainda estão de pé e lá dentro decorrem trabalhos de limpeza e remoção de entulho que chegou mesmo a voar entre pavilhões durante a tempestade.
Um deles alberga a empresa Wevinco, que se dedica à produção de embalagens para produtos farmacêuticos. Marco Dionísio calcula que o prejuízo causado pela tempestade na empresa que administra “ascenda a um milhão de euros, entre maquinaria, matéria-prima e produto acabado”.

O administrador assume-se um “otimista por natureza” e de olhos postos no futuro diz que gostaria que a empresa voltasse a “produzir dentro de 15 dias”. “Pelo menos dentro de um mês vamos tentar estar a no ativo, porque o nosso cliente não pode parar as linhas”, acrescenta, referindo que produzem um bem pré-hospitalar — uma das peças das embalagens individuais de soro que se utilizam nos hospitais.
“Não podemos estar a parar a produção desse tipo de produto e temos de fazer os possíveis para que isto possa arrancar o mais depressa possível”, alerta ainda. O homem não lamenta de forma veemente a falta de apoio do Estado ou da Câmara Municipal de Leiria, apesar de também não ter ainda recebido qualquer visita ou contacto para apoio.
“O que é que eles vêm fazer, vêm eles próprios para aqui ajudar? Não vai ser isso que vai diminuir o tempo de espera até podermos voltar a produzir”, considera.
[Dezenas de portuguesas, recrutadas numa escola de yoga e tantra em Lisboa, acabaram em sites de sexo na internet. Elas, e mulheres de vários outros países, tinham em comum serem seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Ouça o segundo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio.]
“Esta empresa certamente é para acabar”. Há quem pense atirar a toalha ao chão depois de perder as poupanças de uma vida
Ali bem perto há quem discorde. Célia Mota e a mãe, Gracinda, lamentam a falta de assistência desde quarta-feira, com os danos na casa da primeira bem visíveis a quem passa na estrada paralela à IC2. Viram passar a Proteção Civil e outras autoridades, mas até sábado ninguém tinha parado para ajudar, mesmo com pedaços de chapa metálica a obstruir a via pública, à mistura com cabos de telecomunicações de um poste que cedeu à força do vento.
“O que está limpo da estrada fomos nós que tirámos a puxar com um trator”, refere Célia. A revolta das duas é muita e Gracinda diz mesmo que está na dúvida se que ir votar no próximo domingo na segunda volta das eleições Presidenciais. Diz-se desiludida com todos os que representam de alguma forma o Estado: “Quando tinha as coisas alugadas paguei sempre os meus direitos ao Estado e agora é isto.”

O entulho que ficou à porta das casas desta família é a cobertura em chapa metálica e os pilares de um armazém que arrendavam. Parte da estrutura terá chegado a bater contra o telhado de Célia, o que justificará os danos em quase todo a casa, que tem tido muita dificuldade em conter, tanto devido à falta de telhas e lonas, mas também porque não encontra pessoas que os instalem. Acabou por contar com ajuda de amigos para colocar remendos no telhado até arranjar uma solução mais definitiva.
No armazém que teve a cobertura arrancada, Ricardo Santos admite: “Esta empresa certamente é para acabar.” Há cinco anos arrendou o espaço a Gracinda para criar aquela que considerava a sua “conta poupança”.
Trabalha numa empresa mesmo à frente do espaço arrendado, de mecânica automóvel que, diz, “graças a Deus só tem a parte exterior estragada”. Cumpria o segundo turno, “à noite, aos sábados e domingos”, ali, naquele espaço a produzir peças cilíndricas e metálicas para a indústria. Investiu na maquinaria que não tem a certeza se funciona depois de ter passado dias à chuva.


“Todo o dinheirito que eu tinha estava aqui. Optei por demorar um tempo para comprar uma casa para construir um ativo para me facilitar a compra da casa e agora nem casa nem ativo”, confessa ainda.
Ricardo assume ainda que “não tinha seguros de nada”. E lamenta: “Mesmo que nós quiséssemos continuar com a empresa, a maior parte dos nosso clientes ficou sem empresa.”
“Uns arrastam os outros“, diz um amigo que está a ajudar Ricardo a preparar as máquinas para serem levadas por uma carrinha com grua que acaba de chegar, para depois serem guardadas provisoriamente na empresa onde trabalham.
“Isto é um ciclo que eu acho que ninguém está ainda a perceber. Nem da dimensão daquilo que vai acontecer futuramente connosco aqui em Leiria”, refere ainda. “Há pessoas que ainda estão um bocado na lua”, lamenta.
“Vai haver pessoas desempregadas e eu pergunto-me para onde é que elas vão trabalhar!?”, questiona também. Esta segunda-feira o Governo anunciou que as empresas que contratem trabalhadores em situação de desemprego diretamente causado pela tempestade Kristin, vão receber uma isenção parcial de 50 % da taxa contributiva a cargo do empregador.
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