O mercado de inverno, normalmente, fica reservado para acertos: posições que não ficaram bem protegidas no verão, lesões prolongadas e inesperadas, pensos rápidos para saídas não planeadas. O que aconteceu com FC Porto, Sporting e Benfica no último mês, porém, não se limitou a acertos.
Nos dragões, Francesco Farioli recebeu reforços para todos os setores. Nos leões, Rui Borges ganhou soluções para o ataque, mas também perdeu um fator de imprevisibilidade. E nos encarnados, José Mourinho teve direito à crónica de um regresso anunciado. O mercado de inverno fechou esta segunda-feira e sem grande drama à mistura — seguem-se os últimos meses da temporada.

FC Porto. O quarentão para a defesa, o miúdo para o ataque e dois empréstimos com garantias
Mais do que ter um mercado de inverno bem conseguido, o FC Porto olhava para esta janela de transferências com a ideia de que tinha de corresponder às boas movimentações do verão e preparar a segunda metade da temporada. Com uma vantagem confortável no Campeonato, apurados diretamente para os oitavos de final da Liga Europa e à espera de Sporting ou AVS na meia-final da Taça de Portugal, os dragões têm nos próximos meses uma prova de resistência a um plantel que se tem revelado surpreendente — pela positiva.
Tal como tinha acontecido no verão com Luuk de Jong, André Villas-Boas também sacou um truque da manga no inverno. Thiago Silva, central brasileiro de 41 anos que estava no Fluminense, chegou a custo zero e assinou por uma temporada com outra de opção, estreando-se desde logo na vitória no Clássico contra o Benfica nos quartos de final da Taça de Portugal. O internacional pelo Brasil regressou ao Dragão depois de ter jogado pela equipa B do clube ainda muito jovem, há mais de 20 anos, e vai alternar com Bednarek e Kiwior no eixo defensivo de Francesco Farioli.
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Seguiu-se o ataque. Com Borja Sainz, William Gomes e Pepê a alternarem entre os três a titularidade nas duas vagas nas alas do onze inicial do FC Porto, no apoio mais direto a Samu, os dragões procuraram um quarto elemento que pudesse entrar nas contas de Francesco Farioli. O eleito foi Oskar Pietuszewski, extremo de apenas 17 anos que estava no Jagiellonia Białystok e é internacional Sub-21 pela Polónia, numa aposta muito mais a médio-longo prazo do que a curto. O avançado custou oito milhões de euros, um valor significativo para a idade e a ausência de experiência, e ficou com uma cláusula de rescisão de 60 milhões.
Ainda no setor ofensivo, o FC Porto procurou reagir à lesão prolongada de Luuk de Jong, que não tem previsão de regresso até ao fim da temporada, e alargou o plantel com mais um avançado para concorrer com Samu e Deniz Gül: Terem Moffi foi oficializado esta sexta-feira, chega por empréstimo do Nice até ao verão com uma opção de compra de oito milhões de euros e reencontra-se com Francesco Farioli, que já tinha treinado o avançado nigeriano de 26 anos precisamente nos franceses.
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Por fim, Seko Fofana. O FC Porto foi o único dos “três grandes” a anunciar uma contratação no último dia do mercado de inverno e guardou essa vaga para o médio de 30 anos que estava no Rennes. Internacional pela Costa do Marfim, Seko Fofana cumpriu parte da formação no Manchester City, já jogou no Fulham, na Udinese e no Lens, é um médio-centro mais puro e chega por empréstimo dos franceses até ao final da temporada e sem opção de compra.
No capítulo das saídas, nada de muito significativo e apenas uma espécie de housekeeping necessário. O avançado Ángel Álarcon foi emprestado ao Utrecht dos Países Baixos, Gabriel Veron regressou do empréstimo ao Juventude e foi imediatamente cedido ao Nacional e Stephen Eustáquio também está de saída para a MLS dos EUA, sendo que já nem sequer viajou com a equipa para o jogo desta segunda-feira contra o Casa Pia, em Rio Maior.

Sporting. Prioridade máxima ao ataque e a saída do abre-latas
Depois de um último dia de mercado dramático no verão, com a contratação de Jota Silva a cair por segundos, o Sporting olhava novamente para o ataque como a grande prioridade — até porque, mesmo com o regresso recente de Pedro Gonçalves e o facto de Nuno Santos já ter jogado na equipa B, a ausência de Geovany Quenda continua a deixar Rui Borges com poucas soluções para os corredores.
Luis Guilherme foi o primeiro a chegar. Com pouca utilização no West Ham, para onde foi no início da temporada passada depois de impressionar no Palmeiras de Abel Ferreira, o avançado brasileiro de apenas 19 anos custou 14 milhões de euros (mais três por objetivos) e aterrou em Portugal claramente com o objetivo de relançar a carreira. Estreou-se na eliminação da Taça da Liga, contra o V. Guimarães, e foi titular nas últimas três jornadas do Campeonato, cumprindo a melhor exibição na partida deste domingo contra o Nacional.
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Também no ataque e também para os corredores, o Sporting apostou em Souleymane Faye. Com 22 anos, é internacional pelo Senegal mas cumpriu toda a carreira em Espanha, entre Talavera e Betis, sendo que atualmente estava no Granada da segunda divisão espanhola. Os leões investiram cerca de 6,5 milhões de euros e Faye ficou com uma cláusula de rescisão de 80 milhões, estreando-se este domingo contra o Nacional.
Nas saídas, a história mais surpreendente. Sem ser uma das figuras da equipa, Alisson Santos descobriu o seu lugar no plantel de Rui Borges desde o início da temporada e somou momentos memoráveis, como o golo marcado ao Marselha na Liga dos Campeões e o mais recente, no País Basco e contra o Athl. Bilbao, que garantiu o apuramento direto para os oitavos de final da competição. Ainda assim, seguiu emprestado para o Nápoles até ao fim da temporada, com os italianos a ficarem com uma opção de compra de 16,5 milhões de euros e a pagarem ainda uma taxa de empréstimo de 3,5 milhões.
O dossiê Jeremiah St. Juste também ficou resolvido, com o central neerlandês a sair a título definitivo para o Feyenoord depois de ter passado a primeira metade da temporada a treinar à parte. Já Matheus Reis, tricampeão nacional pelos leões, deve mesmo sair a custo zero para o CSKA Moscovo, num negócio que não foi oficializado esta segunda-feira mas já estará fechado.
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O último dia da janela de transferências do Sporting contou ainda com muita incerteza à volta de Morten Hjulmand. O capitão leonino falhou o jogo deste domingo contra o Nacional, engrossando os rumores de que estaria a analisar uma proposta do Atl. Madrid, e Rui Borges confirmou depois da partida que a proposta existe — ao mesmo tempo que garantiu que Hjulmand não foi convocado por decisão do clube e para o proteger, antecipando desde já que vai jogar na quinta-feira e na Taça de Portugal, contra o AVS. O dinamarquês deve sair, mas só no verão.

Benfica. Um velho conhecido e um amigo novo que já joga, já é titular e já marca
Quando o mercado de inverno começou, o Benfica não estava a nove pontos da liderança do FC Porto, ainda tinha a final four da Taça da Liga por disputar, estava na Taça de Portugal e tinha a vida muito dificultada na Liga dos Campeões. Neste momento, o Benfica está a nove pontos da liderança do FC Porto, nem sequer chegou à final da Taça da Liga, foi eliminado da Taça de Portugal nos quartos de final e, apesar de tudo isso, garantiu o playoff da Liga dos Campeões.
Ainda assim, mesmo com a segunda metade da temporada algo reduzida a poucos ou nenhuns objetivos, o Benfica manteve-se ativo no mercado. Os encarnados garantiram Sidny Lopes Cabral logo nos primeiros dias de janeiro, com o cabo-verdiano do Estrela da Amadora a mudar-se a para a Luz a troco de quase seis milhões de euros. Já jogou, já foi titular e já marcou, ocupando um lugar mais adiantado no terreno do que o inicialmente esperado.
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Depois, a crónica de um regresso anunciado. Depois do diferendo com o Besiktas, que o deixou afastado da equipa e dos relvados durante mais de um mês devido a desentendimentos face à rescisão de contrato, Rafa Silva aceitou voltar a Lisboa e ao Benfica dois anos depois de ter saído para a Turquia e reforçou a equipa de José Mourinho por cinco milhões de euros fixos mais dois em cláusulas variáveis. Estreou-se contra o Estrela da Amadora, foi suplente utilizado no empate deste domingo em Tondela e é um candidato claro à titularidade assim que recuperar algum ritmo competitivo.
No sentido oposto, tal como aconteceu com o Sporting, o Benfica limitou-se a resolver alguns assuntos pendentes — acabando por afastar as saídas de Gianluca Prestianni e Andreas Schjelderup, já que o argentino contava com o interesse do River Plate e o entorno do norueguês chegou a conversar com o Clube Brugge.
Assim, Rafael Obrador, lateral-esquerdo que chegou no verão e nunca contou, foi emprestado ao Torino, enquanto que David Jurásek, que já tinha estado cedido ao Hoffenheim e ao Besiktas, regressou a título definitivo para o Slavia Praga por 14 milhões de euros (sendo que os encarnados ainda ficaram com 50% do passe).
O mercado do Sp. Braga e o encaixe milionário do Famalicão que ficou por fazer
Para lá de FC Porto, Sporting e Benfica, o Sp. Braga também se mexeu no mercado de inverno. Os minhotos, que estão nos oitavos de final da Liga Europa, contrataram o médio Demir Ege Tıknaz ao Besiktas, por sete milhões de euros, e ainda o jovem avançado Samy Merheg, de apenas 19 anos e vindo do Deportivo Pereira da Colômbia, e o central Adrian Barisic, que estava no Basileia.
Por fim, uma das principais histórias do último dia de mercado de inverno surgiu no Famalicão. Ao início da manhã desta segunda-feira, o jornalista Fabrizio Romano avançou que o Al Ittihad de Sérgio Conceição estava muito próximo de assegurar a contratação de Gustavo Sá, médio de 21 anos dos famalicenses que é já internacional Sub-21 por Portugal. Horas mais tarde, e enquanto a saída de Karim Benzema para o Al Hilal também era oficializada, o negócio acabou por cair. Em cima da mesa estiveram 25 a 30 milhões de euros, sendo que a cláusula de rescisão de Gustavo Sá chega aos 50 milhões.
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