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(A) :: A amizade entre Viana e Pep, o truque dos jogos extra e a comissão que foi chave: como o City ficou com os dois jogadores que todos queriam

A amizade entre Viana e Pep, o truque dos jogos extra e a comissão que foi chave: como o City ficou com os dois jogadores que todos queriam

Com Semenyo houve inteligência, com Guéhi tornou-se um problema numa oportunidade. Pelo meio, Viana venceu as suas batalhas e o City usou o inverno para ficar com os jogadores que os rivais queriam.

Mariana Fernandes
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Dois nomes, um defesa e um avançado, cerca de 90 milhões de euros e um mercado de inverno calculado, preparado e bem sucedido. O Manchester City encerrou esta segunda-feira a primeira janela de transferências de 2026 e assegurou a contratação de Antoine Semenyo e Marc Guéhi — roubando um e o outro aos principais rivais da Premier League e até do resto da Europa, que tinham ambos debaixo de olho.

Com Semenyo, Hugo Viana conseguiu não só dividir o pagamento dos mais de 70 milhões de euros pelos próximos 24 meses como baixar ligeiramente a cláusula de rescisão ao permitir que o jogador ficasse no Bournemouth durante mais alguns jogos do que o inicialmente acordado. Com Guéhi, os citizens usaram o poderio financeiro, ofereceram uma comissão milionária ao agente do central e lançaram John Stones e Phil Foden para apelar ao lado emocional.

No fim, Pep Guardiola resolveu o problema das lesões de Rúben Dias, John Stones e Gvardiol e recebeu um novo atacante com golo — para além de ter alimentado ainda mais uma relação positiva com Hugo Viana que, de acordo com a comunicação social inglesa, é por estes dias a trave-mestra do Manchester City.

Hugo Viana chegou a Inglaterra há pouco mais de um ano. Quase ao mesmo tempo que Ruben Amorim deixou o Sporting para rumar ao Manchester United, também saiu dos leões para se juntar ao Manchester City. E entre as muitas dúvidas que existiam, surgia uma certeza: teria de se superar para conseguir estar à altura de Txiki Begiristain, o diretor desportivo que ia substituir.

E a verdade é que, neste caso específico, não bastava apenas ser competente, ter bons resultados e não levantar muitas ondas. Precisava de se superar também a nível pessoal — ou seja, precisava de se aproximar de Pep Guardiola, de entrar no núcleo duro do treinador espanhol e de beneficiar da mesma relação de intimidade que este tinha com Txiki Begiristain, com quem tinha jogado no Barcelona e de quem é amigo pessoal. A tarefa, à partida, seria hercúlea. Pouco mais de um ano depois, porém, Hugo Viana cumpriu praticamente todos os predicados.

De acordo com o jornal The Times, o antigo internacional português impressionou Pep Guardiola com a ética profissional e com o facto de estar sempre pronto e disponível para passar tempo com o espanhol e restante equipa técnica no centro de treinos. Hugo Viana toma o pequeno-almoço, almoça e janta na mesma mesa de Guardiola e a relação entre os dois, que por estes dias é positiva e muito estável, tem funcionado como a base da política de contratações do Manchester City. Uma política que, no mercado de inverno que fechou esta segunda-feira, fez com que os ingleses garantissem dois dos jogadores mais apetecíveis da Premier League.

O primeiro foi Antoine Semenyo. Com 26 anos, o avançado do Gana levava 10 golos e três assistências pelo Bournemouth desde o início da temporada, sendo o grande ativo da equipa de Andoni Iraola que está a meio da tabela na Premier League. Semenyo agradava a praticamente todos os big six ingleses, com o Arsenal a ser também muito associado ao jogador, mas depressa se percebeu que o Manchester City partia da pole-position e que dificilmente existiria um desfecho diferente neste mercado de inverno.

Semenyo tinha contrato com o Bournemouth até 2030 e uma cláusula de rescisão de cerca de 75 milhões de euros, um valor que Hugo Viana conseguiu reduzir ligeiramente para pouco mais de 70 ao negociar a utilização do avançado por parte da equipa de Andoni Iraola — ou seja, o Bournemouth aceitou receber menos alguns milhões para contar com Semenyo por mais alguns jogos e ainda em janeiro, dada a importância e dificuldade dos encontros consecutivos com Chelsea, Arsenal e Tottenham. Na verdade, o avançado jogou pelo Bournemouth no dia 7 de janeiro, contra os spurs, e três dias depois, no dia 10, já estava a estrear-se pelo Manchester City na Taça de Inglaterra contra o Exeter City e logo com um golo e uma assistência.

https://observador.pt/2026/01/09/recusado-por-todos-semenyo-desistiu-do-futebol-dez-anos-depois-jantou-com-amorim-mas-assinou-pelo-city-a-troco-de-75-milhoes/

Mais do que os pormenores financeiros ou negociais, a contratação de Antoine Semenyo é mais uma prova do sítio para onde o Manchester City — ou, neste caso, Pep Guardiola — está a ir. Rápido, de explosão fácil e exímio na transição ofensiva, o avançado ganês foge muito dos jogadores de posse, de passe e de drible que durante muitos anos eram a preferência do treinador espanhol. As características de Semenyo encaixam na perfeição com a realidade dos números: nas primeiras 20 jornadas desta temporada, os citizens já marcaram mais golos através de transições rápidas do que nas épocas 2023/24 e 2024/25. Juntas.

Mas há mais. Esta temporada, o Manchester City tem a menor média de posse de bola de todos os nove anos de Pep Guardiola em Inglaterra. Em novembro, o próprio clube sublinhou o facto de a equipa ter percorrido mais quilómetros do que qualquer outra na Premier League — um total de 1.269 quilómetros, com uma média brutal de 115.4 quilómetros por jogo. O City tem menos bola e corre mais. E aí, em conjunto com Jérémy Doku, Savinho, Marmoush e até o próprio Donnarumma, Semenyo está como peixe na água.

O avançado ganês já leva cinco jogos pelo Manchester City, com quatro golos e uma assistência, e o facto de ter assinado por cinco anos e meio e até 2031 deixa bem claro que é uma aposta de futuro dos citizens. Além disso, a formulação do negócio, para além de ter poupado alguns milhões ao clube, permitiu ainda uma folga orçamental que abriu a porta à outra grande contratação de janeiro: o City vai pagar os 70 e poucos milhões de euros ao longo de 24 meses e não por inteiro e desde já, ou seja, ficou com uma força financeira brutal para atacar Marc Guéhi.

Aos 25 anos, o central e capitão do Crystal Palace esteve a um passo do Liverpool no último verão. O negócio caiu no último dia do mercado de transferências, quando parecia mesmo que iria ser o companheiro de Virgil van Dijk no eixo defensivo, e Marc Guéhi decidiu ficar no clube de Londres até ao final da temporada e sem renovar. Afinal, o contrato terminava no verão, poderia sair a custo zero e não desfalcava a equipa de Oliver Glasner que vinha de meses em que conquistou Taça de Inglaterra e Community Shield.

As lesões no Manchester City, porém, viraram o mundo de Marc Guéhi ao contrário — e, por consequência, o do Crystal Palace. Rúben Dias, Josko Gvardiol e John Stones lesionaram-se, Nathan Aké continua limitado fisicamente, Max Alleyne foi resgatado do empréstimo ao Watford mas é muito jovem e, atualmente, Khusanov é mesmo o central mais experiente à disposição de Pep Guardiola. Contratar um central em janeiro, portanto, era crucial. Contratar um central que quase todos os rivais queriam no verão, adicionalmente, era pertinente.

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Com a certeza de que o Liverpool iria recuperar o interesse em Marc Guéhi no verão, utilizando a proximidade já estabelecida antes do início da temporada, a garantia de que Arsenal e Chelsea também iriam perguntar pelo central quando este ficasse livre e ainda a ideia de que Bayern Munique, Real Madrid e Atl. Madrid tinham o jogador numa shortlist para a próxima janela de transferências, o Manchester City. E avançou em força — e cheio de dinheiro.

Para além do pagamento de cerca de 20 milhões de euros ao Crystal Palace, o City pagou uma comissão choruda ao agente do central, deixou os londrinos com uma mais-valia de 10% de uma futura venda e ainda correspondeu às exigências salariais do jogador, que estará a ganhar algo como 300 mil libras por semana. Depois, entraram em campo as armas mais importantes: Phil Foden e John Stones, colegas de Marc Guéhi na seleção de Inglaterra e amigos do jogador formado no Chelsea desde a adolescência.

“Estava a falar com o Manchester City há algum tempo e claro que também falei com outros clubes. Mas sempre senti, com essas conversas com alguns dos jogadores que estão lá, que era o sítio certo para melhorar, para crescer e para ajudar o máximo possível. Falei com o Phil e o John, falei com o treinador, falei com o Hugo [Viana]. Tem sido ótimo”, disse o central depois de ser oficializado no Etihad.

Marc Guéhi já fez dois jogos pelo Manchester City, cumprindo os 90 minutos tanto contra o Wolverhampton como contra o Tottenham, e veio resolver o problema que Pep Guardiola tinha no eixo defensivo. Atualmente, vai fazendo dupla com Khusanov; mais tarde, fará dupla com Rúben Dias. Pelo meio, garantiu ainda mais a presença no Campeonato do Mundo, onde será um dos centrais titulares na Inglaterra de Thomas Tuchel.

Depois de um verão milionário, em que reforçaram a equipa com Rayan Cherki, Reijnders, Rayan Aït-Nouri e ainda os guarda-redes James Trafford e Gigi Donnarumma, os citizens fecharam um inverno mais contido, mas pragmático e quase cirúrgico. Mexeram na defesa e no ataque, corrigiram os problemas provocados pelas lesões, retiraram potenciais alvos aos rivais e contrataram nomes de presente e futuro. Em resumo, Hugo Viana continua a vencer as suas batalhas.

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