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(A) :: Estamos por nossa conta

Estamos por nossa conta

A única garantia que portugueses tiveram com a tempestade é que, quando precisam, o Estado não aparece e contam apenas com eles próprios e solidariedade ocasional. Os políticos não estiveram à altura.

Rui Pedro Antunes
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A resposta às tempestades deu a todos os portugueses uma certeza: estamos por nossa conta. Felizmente não vivemos no Pacífico Noroeste ou no Golfo do México, mas sempre que há catástrofes naturais a resposta do Estado é insuficiente, tardia e confusa. Foi assim nos incêndios de 2017, voltou a ser assim com a tempestade Kristin.

Os portugueses sabem agora que — ainda mais se viverem longe da capital, não necessariamente em zonas rurais ou do interior — se houver uma grande tempestade, incêndios devastadores, uma pandemia fulminante ou se começar uma guerra contam, nos primeiros dias, apenas com eles próprios e com a solidariedade possível de familiares, vizinhos ou amigos. Quando existem, claro.

Desde logo, mesmo que existam meios de socorro e forças de segurança, não há forma de as pessoas os contactarem — o que é uma inevitabilidade, se as antenas das operadoras forem afetadas. O que não é aceitável é que a informação não circule em sentido contrário e o Estado não consiga (ou pelo menos, não tente) comunicar com essas pessoas. A forma mais eficaz de o fazer seria através da rádio, tradicionalmente o meio mais resiliente. Não consta que as antenas da estação pública tenham sido afetadas — nem agora, nem no apagão de abril de 2025. Isso significa que os meios existem, mas o Estado não os utiliza, não os requisita.

Na fase de prevenção, os cidadãos limitam-se a receber SMS genéricas, como as enviadas na terça-feira pela Proteção Civil que diziam: “Depressao Kristin: Vento intenso ate 140km/h nas proximas horas na sua regiao. Fique atento. Siga recomendacoes autoridades“. Ou, já este domingo: “Chuva persistente nos proximos dias. Risco cheias/inundacoes. Evite circular proximo de rios. Retire bens de zonas inundaveis“. Não falta apenas pontuação às mensagens, falta informação concreta. As SMS, mesmo que sirvam de prevenção, de nada valem no pós-desastre.

A Proteção Civil — que é aparentemente o alfa e o ómega da resposta operacional às catástrofes — tem vindo a ser alvo de várias alterações orgânicas, depois de anos em que se provou que a estrutura de comando era complexa, ineficiente e nonsense. Ainda há duas semanas o secretário de Estado da Proteção Civil dizia que a nova lei está pronta e que ia entrar em vigor este ano. Mas quando? Ninguém sabe. Até porque nem o governante que tutela a estrutura sabia. Além disso houve ainda nomeações na estrutura, como aconteceu em 2017, com motivações partidárias que nada dignificaram nem ajudaram à agilidade da estrutura.

Há, acima disso, a responsabilidade política. Como os responsáveis políticos não podem ser omnipresentes — ninguém espera ver ministros a meter telhas ou carregar paletes de leite — o melhor que podem dar numa situação destas às populações é segurança e esperança. E isso consegue-se com uma comunicação serena, coerente — e que mostre ação.

Se nos incêndios de Pedrógão Grande tivemos uma ministra e um secretário de Estado a mostrarem-se fragilizados perante as câmaras numa grande instabilidade emocional — que até era compreensível perante a dimensão da tragédia — e um Presidente a passar pelo meio de labaredas ainda ativas, mais de oito anos depois a comunicação não melhorou.

O ministro da Presidência decidiu publicar um vídeo que parecia um trailler da série The West Wing, com mapas e walkie talkies, qual super-herói que conseguiria travar o vento com as mãos. Teve, porém, a decência de admitir o erro e apagar o mini-filme. Depois, a ministra da Administração Interna foi a Leiria expor-se ao ridículo de ter um mini-debate com o presidente da câmara local, absolutamente desnecessário, antes de uma caminhada suicida ao lado do Presidente da República, em que foi deixada para trás como se fizesse parte de um dispensável séquito.

O ministro da Defesa foi recebido com pompa por uma formatura de militares no terreno. Porém, após o governante sair do local, as televisões filmaram os mesmos militares a desmontar todo o dispositivo e a abandonar o local onde tinham recebido o ministro da tutela. Ainda hoje, entre comunicados dos três ramos, declarações de ministros e autarcas, ninguém sabe exatamente o que fizeram, o que podiam ter feito e o que ainda podem fazer as Forças Armadas.

O próprio primeiro-ministro passou a ideia de ter inicialmente desvalorizado a situação — talvez por desconhecer a verdadeira dimensão dos estragos — o que contribuiu para uma sensação de abandono, e a ressonância dessa ideia, junto das populações afetadas.

O Presidente da República tem, ele sim, uma missão de representação do povo português, com tudo o que isso acarreta. O rei de Espanha fê-lo em Valência em 2024, mesmo que tenha levado com lama na cara, e até um fragilizado D. Manuel II visitou Benavente depois do terramoto de 1909. Numa República, o Presidente — ainda para mais se tiver como uma espécie cognome “o afetuoso” — pode e deve estar no local com esse objetivo. O problema de Marcelo Rebelo de Sousa é que, muitas vezes, não resiste a ir a teatros operacionais quando a ação ainda acontece, ao invés de visitar desventurados (algo que até faz com eficácia e empatia).

Desta vez, Marcelo voltou a meter os pés pelas mãos. Foi à Proteção Civil, em Carnaxide, às escondidas. Depois fez uma nota do tamanho de um parágrafo e duas entrevistas a dizer que só iria às zonas afetadas alguns dias depois porque era ainda o tempo da Proteção Civil agir. Lembrou, na mesma ocasião, que isso mesmo tinha sido aconselhado pelo relatório da Comissão Técnica Independente (CTI) dos incêndios de 2017. Mas, menos de 24 horas depois, estava no terreno a defender uma Comissão Independente para esta tragédia ao mesmo tempo que dizia que uma das recomendações da CTI de 2017 (a de os políticos não irem ao local) não fazia sentido. Uma confusão completa.

No meio disto os dois potenciais sucessores de Marcelo, André Ventura e António José Seguro também andaram meio perdidos no meio da tempestade. O candidato socialista diz que foi sozinho visitar as populações afetadas, mas ninguém sabe exatamente o que andou a fazer. Visitou pessoas afetadas? Onde e quem? Passeou apenas de carro a ver chapa vergada? É que, depois de ter ido fazer essas visitas, nada impedia Seguro de dizer exatamente o que andou a fazer. Caso contrário, é como se não tivesse acontecido.

No extremo oposto, André Ventura voltou a vestir a pele de líder da reposição (de supermercado) e filmou-se a colocar meia-dúzia de garrafas de água dentro de uma carrinha. O filme não é muito diferente do que tinha feito nos incêndios do verão passado. É tão ridículo como quem tenta esvaziar uma barragem com um copo, com a agravante de arrastar os jornalistas para o fugaz exercício de voluntariado.

Os verdadeiros lesados são os afetados pela tempestade que, ou viram os bens de uma vida irem com o vento, ou assistem agora à degradação do recheio e interior das casas com a chuva que passa pelos buracos das telhas que já não existe. Há ainda dezenas de milhares de pessoas sem luz. Quando um apagão afetou a capital, Lisboa, parecia o fim do mundo, mesmo que a privação tenha durado apenas algumas horas. Há pessoas que agora estão há cinco dias sem água e sem luz e tudo é encarado como um mal menor.

A única certeza que estas pessoas têm é que, mesmo que a ajuda venha a chegar, o ponto de partida é: quando procuram o Estado, ele não aparece. Quando procuram referências entre os responsáveis políticos, eles não lhes dão a segurança que os tranquiliza. Não há nada pior para um Estado que seja não ter a confiança dos cidadãos. Quando o seu espaço seguro se transforma num Faroeste, as pessoas tendem a preferir os fora da lei, os que dão tiros para o ar, ao próprio xerife. Quando os cidadãos se sentem abandonados, não é só o Estado que falhou. A política (e por arrasto, a democracia) também.