“Obras em Casa” (1991-98)
Disney+
Tim Taylor (Tim Allen) tem um desejo infatigável por potência. “More power!” é a catch-phrase que não se cansa de repetir e que põe em prática em casa — às custas da mulher impaciente e dos três filhos, Brad, Randy e Mark — e no programa de bricolage que apresenta na televisão, Tool Time. Apesar da fama de empreiteiro (tem a alcunha de “Toolman”, ou homem da ferramenta), destrói tudo o que toca quando pega numa, coisa que acontece demasiadas vezes na série, sempre que tenta melhorar o funcionamento de um eletrodoméstico ou veículo, ou a aparência de uma divisão da casa.

Home Improvement no título original, a série foi emitida pela ABC, entre 1991 e 1999, e na Disney Channel portuguesa, a partir de 2001 — um dos poucos conteúdos adultos na programação do canal infanto-juvenil. Apesar da estrutura de sitcom e da conduta por vezes ridícula e irresponsável do protagonista, Obras em Casa não dispensa reflexões mais profundas sobre a vida em família, o amor conjugal ou o entendimento da masculinidade — um aparente ponto sensível para Tim, cujo objetivo primordial é afirmar o seu vigor e autoridade enquanto homem da casa e marido-modelo americano.
https://www.youtube.com/watch?v=x_iANf1BH4U
O grande lançamento de Tim Allen na televisão, e também de Pamela Anderson, que fez parte do elenco nas primeiras duas temporadas, como Lisa, a assistente sensual do programa Tool Time, Obras em Casa merece ser revisitado: todas as oito temporadas estão disponíveis para streaming no Disney+.
“Frasier” (1993-2004)
SkyShowtime
“O Psiquiatra da Rádio” foi o nome que a série protagonizada por Frasier Crane (Kelsey Grammer) recebeu na versão portuguesa, emitida na TVI e na SIC Mulher no início do milénio. Inicialmente distribuída pela CBS, é o raro caso de um spin-off (série derivada de uma primeira pré-existente) com mais sucesso do que o produto original, neste caso Cheers, Aquele Bar (1982-1993), que também passou pelas televisões portuguesas a partir de 1985, na RTP1. Frasier apareceu na terceira temporada da série e, apesar da intenção de permanecer por poucos episódios, acabou por ficar até ao fim.

Depois de um divórcio atribulado, o psiquiatra clínico abandona Boston (onde se desenrolava a ação de Cheers) e regressa à cidade natal de Seattle para trabalhar na rádio. Frasier recebe chamadas de ouvintes — alguns dos quais com vozes oferecidas por celebridades convidadas, como Bill Gates, Mel Brooks, Jodie Foster ou Cindy Crawford — a quem dá conselhos sobre relações e dúvidas existenciais, trabalho que equilibra com o regresso aos velhos hábitos. Vê-se obrigado a acolher o pai, Martin, um homem duro e pragmático, veterano de guerra com quem tem pouco em comum, na sua casa e, com ele, a fisioterapeuta britânica Daphne Moon, excêntrica e detentora de alegadas capacidades psíquicas. Daphne é a grande paixão de Niles Crane, irmão do protagonista, psiquiatra e tão snobe quanto ele, com quem vive várias aventuras atribuladas.
https://www.youtube.com/watch?v=oz–6tGukuw&pp=ygUPZnJhc2llciB0cmFpbGVy
O resultado do malabarismo entre a vida pessoal e romântica, a coexistência com o pai, o trabalho na rádio e as peripécias junto de Niles é uma das séries mais premiadas de sempre, com um total de 108 nomeações para Emmys, 37 dos quais ganhou — foi Melhor Série de Comédia por cinco anos consecutivos (entre 1994 e 1998). As onze temporadas de Frasier estão disponíveis na SkyShowtime assim como o reboot lançado em 2023, em que o psiquiatra da rádio regressa a Boston para se reconetar com o filho Freddie.
“Os Simpsons” (1989-)
Disney+
Esta família de tez amarela dispensa apresentação. Pode parecer equívoco, colocar Os Simpsons numa lista de séries dos anos 90, quando nem a série começou nessa década, nem nela acabou — afinal ainda hoje continua a ser produzida e exibida, já na 37ª temporada. Contudo, o primeiro episódio, intitulado “O Natal dos Simpsons”, foi o único transmitido em 1989 no canal FOX, e já no fim do ano, dia 17 de dezembro. Para além disso, como sempre em Portugal, só chegou à RTP1 com algum atraso. Começou a ser exibida em 1991, na versão original com legendas em português.

Crianças tornaram-se adultas, jovens viram nascer os filhos e morrer os pais sem que Homer, Marge, Lisa, Bart, Maggie e a lista interminável de personagens criadas por Matt Groening abandonassem o ecrã da televisão — nos 37 anos de existência dos Simpsons, todos envelheceram menos eles. Mas se nada mudou na vida da família de classe média de Springfield, certamente muita coisa se passou: entre participações de celebridades — a série detém o recorde do Guinness de maior número de convidados especiais em televisão — e previsões do futuro bizarras, desde a eleição de Donald Trump ao desfecho da Guerra dos Tronos, a família disfuncional já deu a volta ao mundo e viveu milhares de vidas.
https://www.youtube.com/watch?v=3R6IO5lx_Z0
Mas, independentemente de onde os seus atos irresponsáveis — ou os criadores da série — o levam, no fim do dia, Homer vai ao Moe’s beber uma caneca de cerveja, Lisa tira a melhor nota da turma, Bart mete-se numa embrulhada e nós sentamo-nos no sofá para ver — ou rever — as peripécias da família americana mais famosa da televisão — talvez até mais do que a Kardashian. As 37 temporadas d’Os Simpsons estão disponíveis para streaming no Disney+, a que se juntam os episódios diários emitidos no STAR Comedy.
“Friends” (1994-2004)
HBO Max
Cinco amigos entram num bar em Manhattan. Quando saem, são seis, e a nova adição está vestida de noiva. É Rachel, a amiga de escola de Monica, e a catalisadora de dez temporadas de gargalhadas, amores, desgostos e, acima de tudo, de uma grande dose de nostalgia dos anos 90. Mas que não se pense que a personagem interpretada por Jennifer Aniston tem mais destaque do que as outras: em Friends todos contribuem para o ambiente hilário da sitcom que continua a encantar as gerações mais novas, 30 anos depois da sua estreia, não fosse o salário igualitário dos seis protagonistas evidência disso desde o primeiro dia — e que chegou ao marco do milhão por episódio na última temporada.

Friends produziu uma série de one-liners memoráveis, desde o “WE WERE ON A BREAK!” de Ross, ao “Joey doesn’t share food!” e às interpelações a Deus de Janice, que apesar de não fazer parte dos seis, é uma personagem recorrente e das mais cómicas da série. A sitcom da NBC, que esteve no ar entre 1994 e 2004, e a partir de 1998 na RTP1, é a prova de que os arquétipos funcionam em televisão: o inteligente, o engraçado, o engatatão, a excêntrica, a princesinha e a perfecionista têm uma química inigualável, que muito deve à mestria dos atores individuais.
“I’ll be there for you” (estarei cá para ti) é o mote da série que, vê-se logo no título, fala sobre amizade e faz qualquer um sonhar com uma vida romântica na Nova Iorque dos anos 90. As dez temporadas de Friends estão disponíveis para streaming na HBO Max e compra na Prime Video, com exibições de segunda a sexta na STAR Comedy. E quem já viu e reviu os 236 episódios e quer matar saudades do elenco maravilha, tem bom remédio: em Friends: The Reunion, de 2021 (HBO Max), os amigos de sempre regressam ao cenário onde tudo começou, desta vez para revelar os segredos de bastidores.
https://www.youtube.com/watch?v=RasWhgd4vao
“Seinfeld” (1989-1998)
Netflix
Jerry Seinfeld é o nome da personagem, mas também do comediante que o interpreta, numa série batizada com o apelido dos dois. É difícil perceber onde começa um e acaba o outro, porque se cada episódio conta com momentos do comediante em palco, logo mostra o quotidiano do habitante de classe-média nova-iorquino e do seu grupo de amigos eclético. George, o neurótico, Elaine, a inteligente ex-namorada tornada amiga platónica, e Kramer, o vizinho excêntrico, são a fonte de inspiração para o stand-up de Seinfeld, que reflete sobre as banalidades da vida.
https://www.youtube.com/watch?v=ggLvk7547_w
A série criada pelo próprio com Larry David é conhecida por “falar sobre nada”, mas isso não impediu que alcançasse um sucesso astronómico entre 1989 e 1998, anos em que as nove temporadas foram transmitidas na NBC. O último episódio, teve direito a emissão na Times Square, em Nova Iorque, e foi assistido por 76 milhões de espectadores à volta do mundo. O fenómeno só chegou a Portugal no último ano da série, sem o mesmo efeito agregador por passar nas madrugadas da TVI.
Uma série amoral, dispensa os sentimentalismos de outras sitcoms que lhe foram contemporâneas, como Friends ou Cheers, e concretiza o mantra do criador, Larry David: “No hugging, no learning”. De facto, é melhor não antecipar emoções intensas nem o desenvolvimento das personagens de Seinfeld, porque, no fim do dia, continuam iguais ao início, egoístas, cínicas e fundamentalmente humanas. Numa era de heróis e guardiões morais na televisão, Seinfeld resiste pela apologia da normalidade. A série está disponível na íntegra na Netflix.
“Futurama” (1999-)
Disney+
Outra criação de Matt Groening (e do guionista David X. Cohen), Futurama leva os cartoons dos Simpsons para uma Nova Iorque do século XXXI, onde os cenários da ficção científica se tornam realidade. Depois de cair acidentalmente numa câmara criogénica, um dispositivo que congela organismos, suspendendo a vida durante períodos de tempo determinados, o protagonista da série, Philip Fry, acorda numa cidade irreconhecível, com carros voadores e naves espaciais, robôs humanoides, minorias alienígenas, crime, vício e corrupção.

Fry deixou o trabalho miserável como moço de entregas de pizza e a namorada infiel em 1999, ou assim pensa. É recebido na viragem do terceiro milénio pela obstinada e atraente Leela, uma ciclope alienígena que deve implantar nele um chip de carreira, à qual ficará vinculado para sempre. O emprego vitalício de Fry, segundo uma lei vazia que entende que “You gotta do what you gotta do” (tens de fazer o que tens de fazer)? Delivery boy, parece ser aquilo que faz melhor. Ultrapassada a rejeição inicial, Fry integra a tripulação de uma nave da Space Express, empresa de entregas interplanetárias detida por um seu descendente em centésimo grau, ao lado da capitã Leela e de Bender, um bot alcoólico e libertino.
https://www.youtube.com/watch?v=uDlH-NX9zqM
As 13 temporadas (até à data) de Futurama sofreram várias interrupções desde que a série começou em 1999. Emitida pela FOX até à quarta temporada, a produção foi suspensa entre 2004 e 2010, período em que teve direito a quatro filmes. O canal Comedy Central emitiu as temporadas 6 e 7, entre 2010 e 2013, e a série esteve adormecida até 2023, quando foi renovada pela Hulu, numa parceria que dura até hoje. Em Portugal, Futurama está disponível para streaming na Disney+.
“Herman Enciclopédia” (1997-98)
RTP Play
Herman José é uma figura incontornável da comédia em Portugal, dentro e fora dos ecrãs de televisão. Uma cara recorrente desde o fim os anos 70, já tinha sido figura maior de séries como O Tal Canal, Hermanias, Humor de Perdição e Casino Royal quando chegou a Herman Enciclopédia, produção onde assinou alguns dos melhores e mais clássicos momentos da sua carreira. A concretização do programa deve muito ao intérprete e apresentador, mas também aos guionistas da Produções Fictícias, que contribuíram tanto como ele para dar vida às personagens que popularizou. Como esquecer o puritano Diácono Remédios, ou a sua mãe Rute, o MELGA SHOP com a dupla alucinada Mike e Melga ou o cinéfilo pretensioso e com pouco jeito para o inglês, Lauro Dérmio?

Emitido entre 1997 e 1998, Herman Enciclopédia contou com duas temporadas que, numa altura em que canais de televisão privados já faziam concorrência à RTP, paravam o país à frente do ecrã — o próprio António Guterres, primeiro-ministro na época e um frequente alvo de chacota no programa, não perdia um episódio. O humor escandaloso ameaçava a moralidade conservadora, significava liberdade, o fim do cavaquismo mais tradicionalista e uma abertura do país ao estrangeiro, sinalizada pela Expo ‘98. Todos os episódios funcionavam como entradas de enciclopédia, com títulos que inspiravam o momento de stand-up comedy protagonizado por Herman José na abertura do programa e também os sucessivos sketches humorísticos.
https://www.youtube.com/watch?v=PKEaP6mfuWo
Depois de uma seleção de séries americanas, sabe bem voltar a casa e relembrar o que já foi Portugal. Herman Enciclopédia é o retrato de um país com uma democracia jovem, mas segura de si, que tem eco mesmo naqueles que não estavam vivos nos já distantes anos 90. Se algumas referências são datadas, as personagens emblemáticas apelam às gargalhadas de miúdos e graúdos. As duas temporadas de Herman Enciclopédia estão disponíveis para streaming na RTP Play.
“Não és Homem, Não és Nada” (1999)
RTP Play
Uma aposta da RTP para 1999, Não és Homem, Não és Nada juntou o génio criativo das Produções Fictícias e da Herman ZAP a um elenco de luxo. A série ambientada na redação de uma revista contou com a participação de Alexandra Lencastre, João Lagarto e Joaquim Monchique, num esforço de captar as audiências de um mercado cada vez mais competitivo. Lencastre é Vitória, diretora de um corpo de jornalistas quase exclusivamente masculino — além de extremamente misógino e neurótico — habituado a escrever para um público de homens. Mas o que acontece quando são encarregues de criar uma revista feminina?

Obrigados a escrever sob pseudónimos de mulher e sobre assuntos com os quais dificilmente se identificam, os jornalistas põem em cena situações absolutamente ridículas, num cruzamento do filme Tootsie com os cenários do The Office. Para agradar a um público feminino, os machões devem viver na pele de uma mulher: só assim terão as ferramentas necessárias para pensar sobre as vantagens da masturbação feminina, o homem-objeto ou como manter a chama na cama — alguns dos temas das edições semanais da revista.
Com música dos The Gift e uma aparição especial de Sónia Tavares, os 26 episódios da série estão disponíveis na RTP Play.