No Rio de Janeiro, grande parte dos souvenirs, como t-shirts e toalhas de praia, têm araras estampadas, como um símbolo tropical do Brasil. Mas no céu do “cartão-postal do Brasil” as aves não eram vistas a voar livres há mais de 200 anos, desde 1818, ainda quando o território estava sob domínio português. Isto mudou a 7 de janeiro deste ano, graças a um projeto que investiga, conserva e reintroduz espécies na Mata Atlântica.
Há sete meses, as araras Fernanda, Sueli e Fátima viajaram cerca de 270 quilómetros com investigadores do Refauna. Foram transferidas de um parque que mantém espécies resgatadas de tráfico de animais selvagens e maus-tratos, no interior do estado de São Paulo, para um viveiro no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. As aves partilham a morada com a estátua do Cristo Redentor, que está há quase 100 anos no cume da montanha do Corcovado. Estes símbolos brasileiros encontraram-se finalmente pela primeira vez.

As três araras foram habituadas aos sons e cheiros daquela floresta, que é agora a sua casa principal. A segunda casa pode ser o Parque Estadual da Pedra Branca, que, sendo vizinho da Floresta da Tijuca, forma um corredor ecológico que as espécies podem percorrer. A caça destas aves é a causa de não serem vistas há quase dois séculos a voar livres no Rio de Janeiro — apesar de a cidade estar cercada por duas grandes florestas urbanas que estão entre as maiores do mundo. No primeiro semestre de 2026, o projeto Refauna prevê reintroduzir mais seis araras na natureza, e nos próximos cinco anos ter 50 delas a colorir os céus do Rio de Janeiro. Não apenas com as suas asas de penas azuis e amarelas, mas também com o seu contributo natural de espalhar sementes de árvores nativas, de forma a enriquecer ainda mais a floresta.
Nativas da América do Sul e Central, as araras-canindé são consideradas espécies ameaçadas de extinção no Brasil. E, por isso, Fernanda, Sueli e Fátima tiveram de ser treinadas por biólogos para fugirem das pessoas para poderem permanecer em voo livre, sem a ameaça de serem, mais uma vez, presas ilegalmente. No grande viveiro, que serviu como um ginásio, “desenvolveram musculatura de voo, aprenderam a reconhecer frutos nativos e a evitar a presença humana“, explica o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade no vídeo publicado nas suas redes sociais. Antes de serem deixadas em liberdade, cada uma delas teve a implantação de um microchip e são agora monitorizadas pelos investigadores.

Quando as portas do “lar temporário” foram abertas, a arara Fernanda voou rapidamente e de forma destemida para a natureza. O nome dela é uma homenagem à atriz brasileira Fernanda Montenegro, que venceu o Globos de Ouro em 2025 como melhor atriz em filme de drama por Ainda Estou Aqui. Fátima e Sueli são os nomes de duas personagens da série de televisão Tapas e Beijos [TV Globo Brasil], da qual a atriz também fez parte. Um macho de arara-canindé, que recebeu o nome de Selton — em homenagem ao ator Selton Mello, que também protagoniza o filme que concorreu ao Óscar — está a ser recuperado pelos biólogos para que se encontre, em breve, com o trio da mesma espécie.
Um pequeno-almoço com frutas tropicais foi servido para os pássaros no primeiro dia de total liberade e foi especialmente apreciado por Sueli, que deixou a grande gaiola cerca de duas horas depois da abertura da porta, já de “barriga cheia”. Fátima esperou três dias até alçar o seu voo fora do espaço cercado. “Daqui para a frente, em conjunto, seremos todos responsáveis pela sobrevivência destes animais em vida livre”, disse aos jornalistas naquele dia, a chefe do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar.