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(A) :: Não, Seguro não ajudou o governo de Passos Coelho

Não, Seguro não ajudou o governo de Passos Coelho

É legítimo que pessoas de direita, do PSD, do CDS e da IL queiram votar em Seguro. Mas não é aceitável que contribuam para a falsificação da história, tentando construir um “Seguro” que não existiu.

João Marques de Almeida
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Para se fazer escrutínio democrático a António José Seguro, é necessário voltar a 2013 e 2014. Desde então abandonou a política (não é uma crítica), por isso 2014 é ontem, politicamente, para Seguro.

Está a construir-se a “narrativa” de que Seguro foi responsável e apoiou o governo de Passos Coelho durante um período crucial da história recente de Portugal. Vejamos o que aconteceu. Em Março de 2011, o governo socialista de José Sócrates pediu resgate às instituições europeias e ao FMI para salvar Portugal da falência. Em Junho de 2011, houve eleições e a AD de Passos e Portas ganhou com maioria absoluta. Depois da derrota eleitoral, Sócrates pediu a demissão da liderança do PS, e Seguro foi eleito líder socialista.

Os termos do orçamento para 2012 foram basicamente negociados pelo demissionário ministro socialista Teixeira dos Santos e pela troika. O governo da AD teve pouquíssima margem para introduzir alterações orçamentais. Em Novembro de 2011, o PS absteve-se na votação do orçamento para 2012. Era o mínimo, um orçamento que resultou do pedido de um governo do seu partido para evitar a falência do país. Esse voto não foi ajuda alguma. Foi o mínimo dos mínimos. Além disso, o governo de direita tinha maioria absoluta. Não precisava da abstenção do PS para aprovar os orçamentos. Aliás, em 2012 e em 2013, o PS de Seguro votou contra os orçamentos, e eles foram aprovados. Os votos do PS a favor de políticas públicas do governo também não foram uma ajuda porque seriam sempre aprovadas com a maioria absoluta.

Em Julho de 2013, Paulo Portas demitiu-se do governo. Isso significaria automaticamente o fim da maioria parlamentar que apoiava o governo da AD. Portugal entrou em crise política. Se não fosse possível votar o orçamento para 2014, Portugal precisaria de um segundo resgate. Durante a crise, houve uma tentativa de Cavaco, na altura PR, para o PS deixar passar o orçamento para 2014 (para evitar um segundo resgate) e em troca haveria eleições antecipadas em 2014.

Inicialmente, Seguro mostrou abertura para esse acordo, mas depois recuou não tendo sido capaz de resistir às pressões do seu partido. Não tenho dúvidas sobre as boas intenções de Seguro, mas o que me preocupa foi a sua fraqueza. De resto, essa fraqueza política foi evidente durante todo o mandato de Seguro na liderança do PS. Nunca foi capaz de resistir ao seu partido na fuga à responsabilidade do governo socialista de Sócrates na vinda da troika para Portugal. Alinhou nos ataques à “falta de sensibilidade social” do governo”, nas acusações de “ultra-liberalismo”, e decretou o “falhanço do governo e do programa de austeridade.” Até hoje, nunca ouvi Seguro dizer que estava enganado e que o governo de Passos alcançou um enorme sucesso e salvou Portugal, restituindo ao país o crescimento económico.

É legítimo que pessoas de direita, dirigentes e militantes do PSD, do CDS e da IL queiram votar em Seguro (ao contrário de outros muito preocupados com a democracia, nunca critico o voto de alguém). Mas não é aceitável que contribuam para a falsificação da história, tentando construir um “Seguro” que não existiu. Seguro só se revoltou contra Sócrates e contra António Costa quando foi atraiçoado pelos socialistas, em 2014 (depois de vencer as eleições europeias), e perdeu a liderança. Também me lembro disso, e distingo muito bem Seguro de Sócrates e de Costa. Mas, numa altura muito crítica para Portugal, e quando Seguro desempenhou funções políticas de liderança, falhou. A sua fraqueza perante o PS teria levado Portugal para um segundo resgate. Foi a determinação de Passos Coelho que evitou o que teria sido uma tragédia financeira, económica e social para Portugal. Não foi a “ajuda” de Seguro.