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(A) :: E se os candidatos estivessem trocados?

E se os candidatos estivessem trocados?

O cavalheirismo é de esquerda ou “uma coisa careta”? O estatismo é de direita ou “uma decorrência do socialismo”? Esta campanha revela até onde grelhas de leitura esquerda/direita estão ultrapassadas

José Manuel Fernandes
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A “direita”, ao que consta, atravessa uma crise existencial. Em contrapartida não creio que a pátria – e os eleitores em particular – sintam necessidade de passar pelo psiquiatra.

Há uns meses, depois da pesada derrota das várias esquerdas nas eleições de Maio, essa dita “direita” andava esfuziante. Fazia contas à aritmética, e entusiasmava-se ao verificar que, pela primeira vez na história da nossa democracia, havia no Parlamento mais de dois terços dos deputados sentados à direita do PS – uma maioria constitucional.

Há duas semanas foi como se caísse de um andaime quando ouviu, na noite da primeira volta das presidenciais, André Ventura proclamar-se líder “da direita” e apelar ao voto de todos os eleitores “não socialistas”.

Desde essa altura que “a direita” não faz outra coisa senão esgatanhar-se sobre se é ou não possível votar em Ventura ou se é ou não urgente votar em Seguro. De caminho antevê-se o fim próximo de um governo de centro-direita que nem um ano tem, prognostica-se a dissolução da Iniciativa Liberal, antevê-se por fim um cataclismo se Ventura tiver  um voto sequer a mais do que os votos recolhidos pelo PSD de Montenegro nas eleições de Maio.

No meio de tudo isto fala-se cada vez menos do país e daquilo que nele é estrutural, repetindo a cada catástrofe – e estamos a viver mais uma – as discussões de sempre, com os argumentos de sempre, mesmo que agora com troca de camisolas partidárias.

Não creio que a maior parte das discussões que atormentam os que se afligem com “a direita”, os que querem “salvar a direita”, ou mesmo as dos que simplesmente querem o voto dos eleitores “de direita” no próximo domingo, atormentem o sono dos eleitores. Até porque, como a recente evolução das preferências eleitorais evidencia, o “ser de direita” ou “ser de esquerda” é capaz de não ser o primeiro critério de muitos eleitores na hora do voto.

Aliás, se pensarmos um pouco, aquilo que pode diferenciar os candidatos nestas eleições é capaz de nem sequer encaixar nas gavetinhas onde, por preguiça ou hábito, tantas vezes identificamos de forma equívoca a “esquerda” ou a “direita”.

Qual dos candidatos, por exemplo, será mais “estatista” no sentido de acreditar mais depressa que as soluções estão no Estado (e em Portugal o Estado é quase sempre sinónimo de Governo) ou estão antes nos cidadãos e na sociedade civil?

Qual confia mais nesses mesmos cidadãos – e por isso acredita também mais na liberdade – e qual mais depressa acredita que são as autoridades que devem reger a nossa vida, na rua, nas escolas, nas empresas, no limite dentro de casa?

Qual o que revela comportamentos pessoais e relacionais mais conservadores no sentido tradicional do termo, isto é, qual o que mais depressa é capaz de cavalheirismo e boa educação?

Qual é o que dá mais sinais de acreditar que as sociedades evoluem por mudanças graduais, aceites e partilhadas, e qual o que se predispõe a rupturas quase revolucionárias?

Sem responder a qualquer destas interrogações – deixo isso para os leitores –, recordo apenas que estatismo, dirigismo, insubordinação ou ímpetos revolucionários são características que mais depressa, no imaginário comum, associamos à “esquerda”, e que a compostura, a fé na liberdade e na autonomia das cidadãos ou até o culto das boas maneiras muitas vezes surgem como apanágios dos “caretas da direita”.

Por outras palavras: estas grelhas de leitura, e podia acrescentar outras mais, se aplicadas aos dois candidatos eram bem capazes de os colocar em campos distintos daqueles em que os arrumamos por hábito e tradição. E isso não acontece apenas porque, como agora se lê e ouve por aí, “a direita adoptou o discurso da esquerda”, ou “a direita não travou a batalha cultural”, ou ainda “a direita tem vergonha de ser direita”. Acontece porque aquilo que faliu quando caiu o Muro de Berlim não foi apenas o sovietismo, foram também as dicotomias fáceis que durante décadas arrumaram os espaços políticos das democracias.

É por isso que se, como expliquei a semana passada, não acredito que a nossa democracia corra qualquer tipo de risco de destruição na eleição do próximo domingo, também não acho que nela tudo se resuma a um confronto esquerda-direita ou de “socialistas contra não socialistas”.

O voto, de resto, não tem de ser, não deve ser, nem é comum precisar de ser uma espécie de escolha final entre a vida e a morte para mesmo assim ser um voto e ter o mesmo valor – ponhamos ou não a cruzinha no candidato de baixo ou no de cima.