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(A) :: UpScrolled, a rede social que ganha utilizadores após venda do TikTok nos EUA. “Podem falar sobre tudo, não vamos censurar nada”

UpScrolled, a rede social que ganha utilizadores após venda do TikTok nos EUA. “Podem falar sobre tudo, não vamos censurar nada”

Até há uma semana, a UpScrolled era quase desconhecida. Com o TikTok a enfrentar acusações de censura, a nova rede social chegou a um milhão de utilizadores. “As pessoas estão fartas”, diz o criador.

Cátia Rocha
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“Há uma semana, a UpScrolled era uma aplicação de que quase ninguém tinha ouvido falar. Agora é a aplicação mais descarregada nos Estados Unidos.” Foi desta forma que Paddy Cosgrave, CEO da Web Summit, apresentou a nova rede social durante a cerimónia de abertura da Web Summit Qatar. A terceira edição do evento decorre de 1 a 4 de fevereiro, em Doha, sendo esperados 30 mil participantes.

A UpScrolled, criada em junho de 2025, permite fazer publicações, partilhar vídeos e enviar mensagens, como em qualquer rede social. Mas promete ser diferente: “sem censura”, “sem jogos de algoritmo” e sem “favoritismo pago”.

A ideia de uma rede social “diferente” ganhou tração: há dois dias, a empresa anunciou que chegou à marca de um milhão de utilizadores. É agora a terceira aplicação de redes sociais mais descarregada na App Store norte-americana e a primeira na loja de apps do Android, ultrapassando o TikTok e Instagram (dados AppFigures).

Issam Hijazi, o co-fundador e CEO da UpScrolled, subiu ao palco principal do evento para a “primeira aparição em público” depois da escalada de popularidade da aplicação. Quase do dia para a noite, a aplicação ganhou espaço na imprensa após registar um significativo crescimento de downloads após o anúncio da venda do TikTok nos EUA.

O TikTok, criado pela empresa chinesa ByteDance, concluiu na semana passada a venda da versão norte-americana da aplicação a um grupo de investidores americanos. A lista de novos donos do TikTok EUA inclui a Oracle, a Silver Lake ou a MGX.

https://observador.pt/2026/01/23/apos-seis-anos-de-pressao-politica-e-legal-tiktok-chega-a-acordo-para-criar-nova-entidade-nos-eua/

Dias depois de ser anunciada a criação da nova entidade, começaram a surgir queixas de utilizadores sobre a falta de alcance de conteúdos críticos da administração Trump. Por exemplo sobre a atuação dos serviços de imigração norte-americanos (ICE), ou sobre o caso Epstein. O facto de o grupo de novos donos do TikTok EUA incluir nomes como Larry Ellison, da Oracle, próximo de Donald Trump, deu ímpeto às alegações sobre censura.

https://observador.pt/2026/01/30/nova-iorquinos-aderem-a-protesto-nacional-em-solidariedade-com-minneapolis-e-contra-ice/

Gavin Newsom, governador da Califórnia, acusou publicamente a versão americana do TikTok de estar a censurar determinados temas. “Após a venda do TikTok a um grupo empresarial alinhado com Trump, o nosso gabinete recebeu denúncias e confirmou, de forma independente, casos de supressão de conteúdos críticos ao presidente Trump”, anunciou o gabinete de Newsom na segunda-feira passada.

https://twitter.com/CAgovernor/status/2015963513160683892

Na sequência desta nova vida do TikTok, muitos utilizadores norte-americanos estão a virar-se para alternativas à app de vídeos curtos. E, na perspetiva de Issam Hijazi, é a UpScrolled quem está a beneficiar desse movimento migratório. Questionado diretamente sobre a alegada censura na rede social, acusou os novos donos do TikTok de “quererem controlar a narrativa” e o “livre fluxo de informação”.

Há seis meses, a aplicação tinha 150 mil utilizadores. Há quatro dias, anunciou o primeiro milhão — e os números “não estão a abrandar”. “As pessoas estão fartas e querem mudança. É por isso que começaram a migrar” de outras redes, argumentou. “Não fizemos nada para as pessoas virem, não pagámos a criadores de conteúdo para falar sobre a UpScrolled, não promovemos nada. E continuamos a ver crescimento.”

Hijazi já trabalhou para gigantes como a Oracle, Hitachi ou a IBM. “Não com orgulho”, acrescentou. “Acho que as big tech já provaram que não estão disponíveis para serem éticas. Permitiram o genocídio, vou dizer isso de forma clara, quando a tecnologia que disponibilizaram a certos regimes já permitiu matar pessoas, como em Gaza.”

“Sou de origem palestiniana, nasci na Jordânia e sou cidadão australiano. Ao ver o que estava a acontecer no panorama das redes sociais achei que podia fazer algo diferente”, explicou.

“Hoje em dia, as plataformas de redes sociais são o principal meio para difundir notícias”, contextualizou, principalmente “entre os jovens”. As pessoas procuram obter informação “sobre o que se passa em alguns países através do TikTok, Instagram, X ou outras plataformas”. “O que se passa é que estão a suprimir, a censurar, tudo o que é pró-Palestina nos últimos dois anos. Já o faziam há uma década ou mais, mas agora é mais visível, é mais óbvio.”

“Há conteúdos que não estão a chegar às pessoas. E eu sou uma dessas pessoas: perguntava a amigos meus na Europa e nos EUA se tinham visto as minhas publicações sobre Gaza e não tinham acesso. Há censura e há censura seletiva. Argumentam que o fazem por questões de moderação e conformidade, mas estão a ser tendenciosas, seletivas e isso é muito claro.”

Atirou ainda à forma como as big tech criaram produtos “que não se preocupam com os utilizadores” ou com a “saúde mental”. “Criaram algo para vos manter viciados. Não estão a criar algo para a humanidade, estão a criar algo que lhes gere receitas e lucro, sem darem prioridade ao que é bom para as pessoas.”

Mas Issam Hijazi considera que “não é possível continuar a culpar o algoritmo ou a tecnologia das redes sociais”. “Há pessoas que estão a desenvolver esta tecnologia e o algoritmo, que só é bom se tiver dados. (…) A questão está nas pessoas que estão nos bastidores.”

O que tem, afinal, a UpScrolled de diferente para se afirmar como alternativa? “Estamos a dar oportunidades iguais às pessoas de se expressarem sem as censurar, sejam de direita, centro ou esquerda. Não amplificamos nada, não amplificamos conteúdos”, explicou. “Não temos um algoritmo que, por defeito, porque acha que é importante, coloca as coisas no feed. Os utilizadores é que estão no controlo”, disse Hijazi.

Ao contrário de outras redes sociais, argumenta Hijazi, a UpScrolled tem “funcionalidades mínimas de descoberta”. Ou seja, os utilizadores escolhem quem querem seguir, mas não há espaço para sugestões ou recomendações. “Temos opções que permitem ver outros conteúdos sobre determinados temas, mas não de uma forma que manipule o feed.”

“Uma diferença fundamental entre nós e as outras plataformas é que elas foram criadas para nos ter a nós, os utilizadores, como o produto — não ao contrário. Quando usamos o TikTok ou o Instagram somos o produto, porque estamos a gerar dinheiro para essas empresas”, explicou. “O algoritmo foi desenhado para nos manter na plataforma. Nós não fazemos isso. E os investidores odeiam isto — mas criámos a UpScrolled para permitir às pessoas desligarem a app.”

Questionado diretamente sobre se há dificuldades de financiamento tendo esta postura, afirmou que “surpreendentemente não”. “Há muitas pessoas éticas no mundo e muitas delas querem fazer parte da viagem da UpScrolled”, acrescentou, sem especificar quem “são as pessoas que querem fazer parte da missão” da app.

Mas rejeita “absolutamente” que a UpScrolled se esteja a posicionar como uma aplicação “pró-Palestina”. “Somos pró-humanidade.”

“Estamos a lutar contra gigantes”

A UpScrolled não é a única alternativa às grandes plataformas sociais como as da Meta ou o X. Surge a pergunta sobre a Bluesky, uma rede social que também se promove como uma alternativa às gigantes. “Somos completamente diferentes. A tática da Bluesky foi herdada do X, mas estão a fazê-lo de outra forma.”

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“Há muitos gatekeepers, manipulação de algoritmo na BlueSky. A nossa aplicação é diferente”, disse. “Queremos ser a plataforma para quem quer falar sobre qualquer coisa sem receio de ser censurado ou de ver o seu conteúdo a não chegar à respetiva audiência.”

Num discurso em que falou vários vezes sobre a premissa de “não haver censura” na UpScrolled, explicou que ainda assim há limites para manter a segurança. “Bem, não podem vender drogas ou armas na plataforma, temos de manter os limites legais. Há certas regras que, enquanto empresa, somos obrigados a cumprir. Mas estas são as questões de senso comum.”

“Podem falar sobre tudo, não vamos censurar nada. Queremos que seja uma plataforma onde se sintam seguros”, explicou. Após mais uma insistência por parte do jornalista Gregg Carlstrom, da revista The Economist, sobre a eventualidade de a empresa ter de fazer escolhas em termos de moderação, o empreendedor explica que há uma “grande equipa que está a desenhar as regras comunitárias” da UpScrolled. “Queremos ter especialistas mas também falar com os utilizadores sobre esta experiência.”

“A nossa prioridade é criar um produto que traga valor às pessoas. E acho que isso é uma diferença em relação a todas as startups de Silicon Valley”, disse Issam Hijazi. “Estamos a lutar contra gigantes, como o TikTok, mas acho que temos uma hipótese. As pessoas querem ver mudanças.”

O Observador está no Qatar a convite da Startup Portugal