O seu álbum premiado chama-se DeBÍ TIRAR MáS FOToS (Devia ter tirado mais fotos), mas esta noite todas as objetivas estiveram apontadas para Benito Antonio Martínez Ocasio na Crypto.com Arena em Los Angeles. Corolário de uma carreira meteórica, Bad Bunny arrecadou o maior prémio dos Grammys numa noite particularmente marcada pelos discursos de oposição ao ICE e à política migratória imposta pela administração Trump — e com um português (Nuno Bettencourt) entre os vencedores.
Mesmo que não levasse estatuetas para casa, 2026 já estaria garantido como um ano de charneira para o cantor e rapper porto-riquenho de 31 anos: dentro de uma semana atua no espetáculo de intervalo do Super Bowl, razão pela qual não pode cantar nesta 68ª cerimónia que premeia a indústria musical. Segue-se depois a continuação da sua digressão mundial para promover DeBÍ TIRAR MáS FOToS, com passagem garantida por Portugal, mas não nos EUA, preteridos por receio de ocorrerem rusgas dos serviços de imigração nos seus concertos.
https://observador.pt/especiais/o-inescapavel-triunfo-de-bad-bunny/
Deu-se, portanto, uma forma de justiça poética ao ser coroado com a jóia da coroa dos Grammys, o prémio de Álbum do Ano, por um disco totalmente cantado em espanhol e que celebra as suas raízes latino-americanas e reivindica o espaço de Porto Rico no mundo e, mais agudamente, como estado não-oficial dos EUA. “Acreditem quando digo que somos muito maiores do que 100 por 35”, afirmou no seu discurso bilíngue, referindo-se em milhas quadradas à dimensão do seu país natal. “Quero dedicar este prémio a todas as pessoas que tiveram de deixar a sua terra natal – o seu país – para seguir os seus sonhos”, rematou.
Este foi o seu sexto Grammy da carreira, sendo que para engrossar o palmarés juntaram-se outras duas estatuetas obtidas nesta cerimónia: Melhor Performance Musical Global, por EoO, e Melhor Álbum de Música Urbana, pelo mesmo lançamento acima mencionado. Foi ao subir ao palco para receber este prémio que dedicou as palavras mais duras da noite. “Fora o ICE”, afirmou, referindo-se ao Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos que tem sido a face mais visível da política de perseguição e deportação a imigrantes levada a cabo pela administração do presidente Donald Trump.“Não somos selvagens, não somos animais, não somos estrangeiros, somos humanos e somos americanos. O ódio torna-se mais poderoso com mais ódio. A única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor. Por isso, por favor, precisamos de ser diferentes”, apelou.
Bad Bunny says "ICE OUT" at the #Grammys and receives a massive standing ovation:
"We are not savage, we are not animals, we are not aliens, we are humans and we are Americans. The hate gets more powerful with more hate. The only thing that is more powerful than hate is love.… pic.twitter.com/IFzvguqdCR
— Variety (@Variety) February 2, 2026
As palavras de Bad Bunny encontraram eco nos vários pins vistos na lapela de muitos artistas presentes e, mais importante, nos seus discursos, contrastando com a muito mais comedida edição de 2025. “Não sinto que precise dizer nada além de que ninguém é ilegal em terras roubadas”. É muito difícil saber o que dizer e o que fazer neste momento. Sinto-me muito esperançosa nesta sala e sinto que precisamos de continuar a lutar, a falar e a protestar. As nossas vozes importam, as pessoas importam”, afirmou Billie Eilish, antes de soltar um “que se f**a o ICE” censurado pela transmissão. Kehlani, que levou dois prémios nas categorias R&B, proferiu a mesma frase, não sendo alvo do mesmo corte por fazê-lo durante a pré-cerimónia.
Kehlani accepts her first GRAMMY, winning Best R&B Performance for “Folded.” pic.twitter.com/JK1mWAF73J
— RNB RADAR (@rnbradar) February 1, 2026
“Estou aqui como neta de um imigrante. Sou fruto da coragem, e acho que essas pessoas merecem ser celebradas. Não somos nada sem os outros”, optou antes por dizer a britânica Olivia Dean, ao suceder a Chappel Roan como Artista Revelação. Da parte de Trevor Noah, aproveitando que esta foi a sexta e derradeira vez a apresentar a cerimónia, o comediante sul-africano apontou baterias a Trump, inclusive ao alegar que o presidente está obcecado com a Gronelândia porque “a ilha de Epstein desapareceu e ele precisa de uma nova para se divertir com Bill Clinton”.
Trevor Noah takes another jab at Donald Trump #Grammys: “Song of the Year — that is a Grammy that every artist wants almost as much as Trump wants Greenland, which makes sense because Epstein’s island is gone, he needs a new one to hang out with Bill Clinton” pic.twitter.com/quUWEpX4NL
— Deadline (@DEADLINE) February 2, 2026
Kendrick reina sobre a dispersão
Tal como aconteceu na edição transata, os votantes da Recording Academy parecem ter seguido a máxima de dividir o mal pelas aldeias, evitando concentrar os prémios todos nos mesmos artistas. Foi assim que a já mencionada Olivia Dean singrou como Artista Revelação dado o sucesso do seu segundo disco, The Art of Loving. Já a sua conterrânea Lola Young, a disputar o mesmo troféu, foi antes premiada com Melhor Performance Pop a Solo por Messy, uma das surpresas da noite. Billie Eilish, por seu lado, cimentou o seu estatuto de estrela ao arrecadar o décimo Grammy da carreira a meias com o irmão, Finneas, vencendo Canção do Ano por Wildflower. Ignoradas este ano pela Academia, Ariana Grande e Cynthia Erivo tiveram a consolação de vencer Melhor Performance Pop de Duo ou Grupo com Defying Gravity.
Continuando no universo pop, Sabrina Carpenter não conseguiu dar seguimento ao sucesso que logrou em 2025, surgindo em seu lugar Lady Gaga, que protagonizou um dos regressos retumbantes da temporada. O retorno à pop maximalista de Mayhem rendeu-lhe mais dois Grammys — por Melhor Álbum Pop e Melhor Gravação Dance/Pop para Abracadabra, interpretada na cerimónia com um arranjo rock —, igualando Adele com 16 estatuetas.
No entanto, além de Bad Bunny, só podemos considerar Kendrick Lamar como o verdadeiro vencedor da noite, já que foi quem ganhou mais prémios — um feito notável, visto que fez exatamente o mesmo no ano anterior. Nessa ocasião, obteve cinco Grammys todos eles conseguidos à custa de Not Like Us, a venenosa invectiva que lançou contra Drake (que, refira-se, voltou a não comparecer na cerimónia). Desta vez, repetiu a dose, mas repartindo os ganhos em diferentes projetos e canções.
https://observador.pt/2024/11/25/ainda-nao-e-desta-que-apanhamos-kendrick-lamar-em-falso/
A sua participação em Chains and Whips, dos Clipse, saldou-se em Melhor Performance Rap, sendo esta a vitória solitária dos irmãos Pusha T e Malice. No entanto, para Lamar, a mina de ouro estava em GNX, o álbum lançado de surpresa no final de 2025: não só foi o Melhor Álbum Rap, como TV Off foi Melhor Canção Rap e Luther, cantada com SZA, foi Melhor Performance de Rap Melódico e Gravação do Ano — é importante recordar que “Canção do Ano” destina-se aos compositores de um tema e “Gravação do Ano” aos seus intérpretes e produtores.
Com esta prestação, Kendrick Lamar fez também história ao ultrapassar Jay-Z como o rapper com mais Grammys de sempre, 26. Para celebrá-lo, Kendrick não foi explicitamente político como outros participantes, sublinhando antes o papel de representatividade que o seu género musical carrega. “O hip hop continuará sempre aqui. Estaremos com estes fatos, estaremos bem vestidos, teremos os nossos amigos connosco, teremos a nossa cultura connosco”, prometeu.
A consagração do rapper de 38 anos deu ainda azo ao momento mais insólito e engraçado da noite. Após receber o prémio de carreira, Cher ficou encarregue de anunciar os vencedores da categoria Gravação do Ano. Após uma pausa atabalhoada por estar à espera que os nomes aparecessem no teleponto, a cantora e atriz disse que o premiado era Luther Vandross, o falecido cantor R&B homenageado em Luther e cuja versão de If This World Were Mine, dueto com Cheryl Lynn, foi samplada. Cher corrigiu logo de seguida, mas não sem provocar uma onda de riso, inclusive dos premiados.
Cher mistakenly says Kendrick Lamar and SZA's song title as ‘Luther Vandross’ at the #Grammys for Record of the Year.
— Screen Rant (@screenrant) February 2, 2026
Um dos destaques foi também para os The Cure, que vão atuar no North Festival este verão com dois Grammys no bolso, os primeiros desde que iniciaram atividade há 50 anos: Melhor Álbum de Música Alternativa por Songs of a Lost World e Melhor Performance da mesma categoria por Alone, canção do mesmo disco, o 14º da sua carreira. O conjunto liderado por Robert Smith, todavia, não compareceu à cerimónia por estar presente no funeral do ex-membro Perry Bamonte.
https://observador.pt/especiais/the-cure-quantas-vezes-se-pode-escrever-uma-carta-de-despedida/
Outro foi a conquista de dois troféus por parte dos Turnstile, sendo a primeira vez que uma banda punk o consegue desde 1995 —, quando os Green Day foram premiados com Melhor Álbum de Música Alternativa por Dookie — apesar de conseguirem em categorias algo díspares: Melhor Álbum Rock por Never Enough e Melhor Performance Metal pela canção Birds.
Entre os dados mais curiosos desta edição está o facto do Dalai Lama ter vencido um Grammy de Melhor Audiolivro por Meditations: Reflections of His Holiness the Dalai Lama e de ter sido batido o recorde de pessoa mais nova a ser premiada: com oito anos e sete meses, Aura V — metade da dupla que assume com o pai, Fyütch — passou a anterior detentora desta distinção, Leah Peasall, ao vencer Melhor Álbum de Música para Crianças. Outra novidade foi a inclusão do prémio de Melhor Capa de Álbum, vencida por Chromakopia, de Tyler, the Creator. O rapper não venceu mais nada esta noite, mas ao menos fez história.
Português Nuno Bettencourt vence Grammy por atuação em “Changes”
Houve um português entre os vencedores da noite. Trata-se do guitarrista Nuno Bettencourt, que foi distinguido na categoria de Melhor Atuação Rock pela participação em “Changes (ges (Live From Villa Park / Back to the Beginning)”. Nascido na Ilha Terceira, Açores, Bettencourt participou na gravação premiada da canção dos Black Sabbath, em julho do último ano, no Reino Unido, durante o concerto de despedida do cantor britânico Ozzy Osbourne, que morreu pouco depois.

Os vencedores (Bettencourt tocou com o cantor Yungblud, o baixista Frank Bello, o teclista Adam Wakeman e o baterista II) subiram ao palco com Sharon Osbourne, viúva de Ozzy Osbourne, visivelmente emocionada com a vitória. Nuno Bettencourt, guitarrista da banda Extreme, era um de dois portugueses nomeados para esta edição dos Grammy. O outro era Bráulio Amado, designer e ilustrador, nomeado na categoria de Melhor Recording Package” pelo trabalho gráfico do álbum Balloonerism, de Mac Miller, com o artista norte-americano Alim Smith. No entanto, acabaria por perder para Meghan Foley e Michelle Holme, diretores de arte de Tracks II: The Lost Albums, de Bruce Springsteen.
Veja aqui a lista completa de vencedores:
Álbum do Ano
- Bad Bunny — Debí Tirar Más Fotos
- Clipse (Pusha T e Malice) — Let God Sort Em Out
- Justin Bieber — Swag
- Kendrick Lamar — GNX
- Lady Gaga — Mayhem
- Leon Thomas — Mutt
- Sabrina Carpenter — Man’s Best Friend
- Tyler, the Creator — Chromakopia
Gravação do Ano
- Bad Bunny — DTMF
- Billie Eilish — Wildflower
- Chappell Roan — The Subway
- Doechii — Anxiety
- Kendrick Lamar e SZA — Luther
- Lady Gaga — Abracadabra
- Rosé e Bruno Mars — Apt.
- Sabrina Carpenter — Manchild
Canção do Ano
- Bad Bunny — DTMF
- Billie Eilish — Wildflower
- Doechii — Anxiety
- Huntr/x — Golden
- Kendrick Lamar e SZA — Luther
- Lady Gaga — Abracadabra
- Rosé & Bruno Mars — Apt.
- Sabrina Carpenter — Manchild
Artista Revelação
- Addison Rae
- Alex Warren
- Katseye
- Leon Thomas
- Lola Young
- The Marías
- Olivia Dean
- Sombr
Melhor Performance Pop a Solo
- Chappell Roan — The Subway
- Justin Bieber — Daisies
- Lady Gaga — Disease
- Lola Young — Messy
- Sabrina Carpenter — Manchild
Melhor Performance Pop de Duo ou Grupo
- Cynthia Erivo e Ariana Grande — Defying Gravity
- Huntr/x — Golden
- Katseye — Gabriela
- Rosé e Bruno Mars — Apt.
- SZA e Kendrick Lamar — 30 for 30
Melhor Álbum Pop
- Justin Bieber — Swag
- Lady Gaga — Mayhem
- Miley Cyrus — Something Beautiful
- Sabrina Carpenter — Man’s Best Friend
- Teddy Swims — I’ve Tried Everything but Therapy (Part 2)
Melhor Performance Rock
- Amyl and the Sniffers — U Should Not Be Doing That
- Hayley Williams — Mirtazapine
- Linkin Park — The Emptiness Machine
- Turnstile — Never Enough
- Yungblud, Nuno Bettencourt e Frank Bello ft. Adam Wakeman & II — Changes (Live From Villa Park / Back to the Beginning)
Melhor Álbum Rock
- Deftones — Private Music
- Haim — I Quit
- Linkin Park — From Zero
- Turnstile — Never Enough
- Yungblud — Idols
Melhor Canção Rock
- Hayley Williams — Glum
- Nine Inch Nails — As Alive as You Need Me to Be
- Sleep Token — Caramel
- Turnstile — Never Enough
- Yungblud — Zombie
Melhor Performance Metal
- Dream Theater — Night Terror
- Ghost — Lachryma
- Sleep Token — Emergence
- Spiritbox — Soft Spine
- Turnstile — Birds
Melhor Gravação Eletrónica / Dance
- Disclosure e Anderson .Paak — No Cap
- Fred Again.., Skepta e PlaqueBoyMax — Victory Lap
- Kaytranada — Space Invader
- Skrillex — Voltage
- Tame Impala — End of Summer
Melhor Gravação Dance / Pop
- Lady Gaga — Abracadabra
- PinkPantheress — Illegal
- Selena Gomez e Benny Blanco — Bluest Flame
- Tate McRae — Just Keep Watching (De F1: O Filme)
- Zara Larsson — Midnight Sun
Melhor Álbum Eletrónica / Dança
- FKA twigs — Eusexua
- Fred Again.. — Ten Days
- PinkPantheress — Fancy That
- Rüfüs Du Sol — Inhale / Exhale
- Skrillex — F*ck U Skrillex You Think Ur Andy Warhol but Ur Not!! <3
Melhor Performance Música Alternativa
- Bon Iver — Everything Is Peaceful Love
- The Cure — Alone
- Hayley Williams — Parachute
- Turnstile — Seein’ Stars
- Wet Leg — Mangetout
Melhor Álbum Música Alternativa
- Bon Iver — SABLE, fABLE
- The Cure — Songs of a Lost World
- Hayley Williams — Ego Death at a Bachelorette Party
- Tyler, the Creator — Don’t Tap the Glass
- Wet Leg — Moisturizer
Melhor Performance R&B
- Chris Brown ft. Bryson Tiller — It Depends
- Justin Bieber — Yukon
- Kehlani — Folded
- Leon Thomas — Mutt (Live from NPR’s Tiny Desk)
- Summer Walker — Heart of a Woman
Melhor Canção R&B
- Chris Brown ft. Bryson Tiller — It Depends
- Durand Bernarr — Overqualified
- Kehlani — Folded
- Leon Thomas — Yes It Is
- Summer Walker — Heart of a Woman
Melhor Álbum R&B
- Coco Jones — Why Not More?
- Giveon — Beloved
- Ledisi — The Crown
- Leon Thomas — Mutt
- Teyana Taylor — Escape Room
Melhor Performance Rap
- Cardi B — Outside
- Clipse (Pusha T e Malice) e Kendrick Lamar — Chains & Whips
- Doechii — Anxiety
- Kendrick Lamar ft. Lefty Gunplay — TV Off
- Tyler, the Creator ft. Teezo Touchdown — Darling, I
Melhor Canção Rap
- Clipse (Pusha T e Malice), John Legend, Voices of Fire — The Birds Don’t Sing
- Doechii — Anxiety
- Glorilla — TGIF
- Kendrick Lamar ft. Lefty Gunplay — TV Off
- Tyler, the Creator ft. Glorilla, Sexyy Red e Lil Wayne — Sticky
Melhor Álbum Rap
- Clipse (Pusha T e Malice) — Let God Sort Em Out
- Glorilla — Glorious
- JID — God Does Like Ugly
- Kendick Lamar — GNX
- Tyler, the Creator — Chromakopia
Melhor Videoclip
- Clipse — So Be It
- Doechii — Anxiety
- OK Go — Love
- Sabrina Carpenter — Manchild
- Sade — Young Lion
Melhor Capa de Álbum
- Bad Bunny — Debí Tirar Más Fotos
- Djo — The Crux
- Perfume Genius — Glory
- Tyler, the Creator — Chromakopia
- Wet Leg — Moisturizer
Com Joana Moreira