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Em Roterdão com João Nicolau e um filme galhardo e pícaro: “A Providência e a Guitarra”

Trata-se de “um mergulho lúdico nas agruras e deleites da vida artística” e adapta um conto de Stevenson, entre um passado indefinido e a Lisboa do presente. Teve honras de abertura nos Países Baixos.

Francisco Ferreira
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“A vida de saltimbancos nunca foi fácil e Léon e Elvira sabem-no bem”, escreve o Festival de Roterdão sobre o casal protagonista de A Providência e a Guitarra, novo filme de João Nicolau, fiel a um espírito aventureiro que tem deixado lastro na obra deste cineasta. A dupla em causa, Léon e Elvira Berthelini, são artistas ambulantes que andam de terra em terra num passado indefinido. Numa taberna da imaginária Covarronca, tentam montar um espectáculo que o comissário da polícia acabará por interromper, depois são forçados a passar a noite ao relento. É então que encontram Stubbs, um jovem estudante de Cambridge a querer seguir vocação artística.

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Léon e Elvira são Pedro Inês e Clara Riedenstein. Pedro foi um inesquecível João da Ega em Os Maias: Cenas da Vida Romântica (2014), de João Botelho; Clara protagonizou com brilho A Portuguesa (2018), de Rita Azevedo Gomes. Já o papel de Stubbs cabe a Salvador Sobral, que dispensa apresentações. Num filme que também é musical — com seis canções originais escritas por João Nicolau e João Lobo, e interpretadas pelos actores — Salvador Sobral, curiosamente, é dos poucos que não canta. Estas personagens também saltam no tempo, para uma Lisboa actual e resignada, em que Léon tem uma banda punk-rock chamada Desgraça e Elvira milita por causas sociais. O passado folião é bem mais excitante que este presente acinzentado em que os Desgraça acabam de lançar um novo disco apresentado por um radialista com cara de desconfiado — óptimo papel de Rui Reininho.

Filme bem humorado sobre as dificuldades e a relevância da vida artística, A Providência e a Guitarra partiu do conto homónimo de Robert Louis Stevenson mas essa fonte “foi apenas ponto de partida, até porque o conto só tem 20 páginas”, contou-nos Nicolau em terras neerlandesas. “A primeira cena que o texto descreve só aparece à meia-hora de filme, por exemplo. Tudo o que está antes foi inventado e muito do que vem depois são frases de duas ou três linhas. O que me deu prazer, apesar do texto original ser inglês, foi trabalhar a partir da tradução de José Domingos Morais [As Novas Mil e Uma Noites (vol.II), ed. Assírio & Alvim, 2013]. O português que o tradutor encontrou levou-me a correr o risco de cavalgar o gozo da linguagem.” De facto, A Providência e a Guitarra evolui para esses terrenos, com especial dedicação aos encantos da língua portuguesa, das falas e da métrica ao sabor das interjeições. É muito valioso neste aspecto.

Em Roterdão, Nicolau também podia ter exclamado: “Por 600 mil demónios!” O cinema português até já tinha tido honras de abertura neste festival (foi em 2020 por Mosquito, de João Nuno Pinto, pouco antes da pandemia), mas esta estreia causou grande alvoroço ao autor de Technoboss, nada habituado a cerimónias de protocolo e copiosa plateia atingida num estalar de dedos. Só na noite de abertura, A Providência e a Guitarra foi exibido quatro vezes na cidade neerlandesa, uma delas no Grande Anfiteatro do Centro Cultural De Doelen, sala com 1600 lugares, quase cheia em noite de gala. Duas outras projecções estão ainda agendadas antes do termo do festival, que corre até 8 de fevereiro. Em noite inaugural de especiais circunstâncias, nem todos os filmes têm a fortuna de arrecadar em solo estrangeiro tantos espectadores.

A Providência e a Guitarra traz frescura ao trabalho de João Nicolau e é, em simultâneo, o seu filme mais exposto e aberto ao teatro, aquele que mais foi ensaiado e trabalhado por actores profissionais, nesta obra que, por tantas vezes, preferiu apelar a intérpretes amadores. “Tal como eu disse na apresentação do filme, tentei, desta vez, dar mais valor aos actores e aos personagens, aproveitei daqueles a experiência e os recursos e, ao mesmo tempo, procurei diminuir, a nível formal, o papel do realizador. Também levei mais a fundo uma coisa que cada vez mais me dá muito gozo na preparação de um filme: os ensaios. Este texto barroco e histriónico precisava deles. Ao mesmo tempo, os ensaios serviram para apresentar aquela que, no fundo, é a temática do filme: a representação.”

Nicolau não esconde que esta rodagem foi “a mais prazenteira até agora” e, curiosamente, aquela em que teve menos condições porque, “desta vez, não conseguimos qualquer ajuda estrangeira em co-produção para adicionar ao financiamento português. Mas foi fundamental o apoio do Município de Castanheira de Pera, que nos acolheu. A nossa Covarronca imaginária é uma montagem de décors de várias aldeias daquele concelho.” E ali se rodou um filme de duas horas em apenas 31 dias, “o que é bastante pouco, o mínimo dos mínimos para que continue a haver dignidade no trabalho. Bato-me por esta diversidade, a geográfica e a dos modos de fazer. Preocupa-me seriamente que este modelo de cinema esteja a ser atacado na Europa e trocado por outro em que cada vez se atribui mais dinheiro a menos filmes.”

Terminou a conversa pela música que, tal como teatro, são disciplinas que despertam há muito o interesse de João Nicolau. “Neste filme, é a primeira vez que os meus personagens são artistas a sério, por inteiro, completos. E os actores tocam e cantam no filme, em directo. O Pedro Inês, que tem um longo passado em dança contemporânea antes de se ter tornado actor, toca comigo há mais de 30 anos. Conhecemo-nos desde a adolescência, éramos vizinhos. Nos tempos de faculdade em que estudei antropologia, também fiz teatro. E sempre gostei de escrever canções. Nessa altura, o cinema não era um programa na minha vida. Foi acontecendo.” A Providência e a Guitarra fica agora à espera de regressar a casa. A estreia em Portugal é a 14 de Maio.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico