Foi pelos canais de notícias franceses que Arminda soube da tempestade que tinha causado muitos prejuízos em Portugal. Não percebeu logo que tinha afetado Leiria, mas ligou para a mãe, Ermelinda, de 92 anos, que vive sozinha numa aldeia de Pombal para saber se estava tudo bem. Não havia sinal. “Depois disso liguei para toda a gente que conhecia aqui da zona e nunca consegui falar com ninguém, porque ninguém tinha rede”, conta ao Observador.
“Passei noites sem dormir e depois é que percebi que tinha de pegar e vir”. Na sexta-feira de manhã, depois de 48 horas sem conseguir falar com a mãe, a mulher, que é emigrante em Lyon, França, fez-se à estrada com o marido para uma viagem de 17 horas de carro.
A ideia, para chegar mais rápido, era fazerem a viagem de avião, mas os bilhetes estavam a cerca de 500 euros cada. “O preço subiu muito por causa disto e quase já não havia lugares”, relata, dando conta do disparo da procura. Nos cerca de 1.600 quilómetros de caminho de estrada até ao concelho no centro de Portugal, viu muitos carros com matrícula do Luxemburgo, França e Suíça, quase como se fosse altura das férias de verão, quando é habitual a romaria a Portugal de quem vive no estrangeiro.

Arminda chegou às 6h30 da manhã deste sábado à aldeia de São Simão de Litém, sem que a própria mãe soubesse que tinha estado a caminho e que ia chegar nesse dia. Por não ter conseguido avisar e de não querer assustar a mãe de madrugada, acabou por esperar com o marido no carro até que a mãe acordasse e viesse à rua e visse o veículo com matrícula francesa.
Encontrou a casa da família com danos no telhado e muita água a entrar no andar superior da casa. Ermelinda chama à tempestade da madrugada de quarta-feira um “terramoto” e garante que, em mais de 90 anos de vida, nunca viu nada assim. Antes da filha chegar, tratou do que foi conseguido, com a ajuda de vizinhos.
Nas aldeias do concelho de Pombal e Leiria, a maioria das casas tem danos nos telhados e em outras estruturas. Muitas delas são casas de férias de emigrantes e lusodescendentes, e outras tantas são primeira habitação para emigrantes de primeira geração que agora gozam a reforma em Portugal e recebem filhos, netos e bisnetos, principalmente em agosto, para passar as férias de verão.

“Hoje andámos todo o dia a limpar e a secar as coisas e algumas pessoas vieram ajudar a tratar do telhado. Para já não conseguimos arranjar, levantou tudo aqui na zona”, afirma Arminda Guerra, preocupada com a falta de telhas na região e ainda mais com o facto de ainda não haver eletricidade e água, e nem sequer uma previsão próxima para a sua reposição.
Ainda conseguiu trazer um gerador que lhe emprestaram em França, antevendo que não fosse fácil encontrá-los por cá, mas o aparelho não está a funcionar.
Arminda vai ficar mais alguns dias com a mãe. Quer tratar de tudo com as seguradoras antes de regressar a França e tentar arranjar alguém que faça os trabalhos de arranjo lá em casa. Tem a expectativa, sobretudo, que luz e água voltem para poder deixar a mãe com condições de habitabilidade.
Frédéric e Virginie acabaram a casa de “sonho” há um ano. Vieram encontrá-la quase sem telhado
Frédéric Rodrigues e Virginie Santos vivem em Livry-Gargan, uma localidade a cerca de 15 quilómetros de Paris, e souberam do que se passou com a casa que têm na localidade de Ruge Água, também em Pombal, por um familiar que, na manhã de quarta-feira, quando as comunicações ainda não tinham ido totalmente abaixo, conseguiu “avisar do desastre”.
“Decidimos vir logo de carro na quarta-feira e chegámos na quinta-feira de manhã”, conta Virginie ao Observador. Quando chegaram, encontraram quase todo o telhado da casa no chão. A casa acabou de ser construída há apenas um ano e os danos provocados pela intempérie são muitos. Na sala da casa, iluminada apenas por uma lareira ao final da tarde deste sábado, vê-se um buraco no teto tapado provisoriamente.

“No telhado, os estragos são de 90%, vai ter de ser feito tudo novamente”, diz Frédéric, que estima um prejuízo de centenas de milhares de euros – um muro cedeu no exterior, quase todos os vidros das varandas partiram e há danos em quase todos os estores.
Como quase todo o telhado voou, o casal também tem parte do recheio da casa, que ainda não tinha acabado de ser mobilada, estragado pela água que entrou com a chuva que caiu imediatamente após o temporal.
A habitação, que agora soma danos avultados, era um sonho de anos e muita poupança. “Tínhamos cá a família, os nossos filhos também sempre gostaram de vir cá e sempre quisemos poder ter aqui a nossa casa”.
Frédéric é consultor de sistemas informáticos e Virginie trabalha no Crédito Agrícola francês. O casal via a casa como mais do que um local para passar férias. Começaram a vir muito mais vezes a Portugal, tanto pela possibilidade de fazer teletrabalho na aldeia, aproveitando o “bom tempo” português, mas também por terem uma filha a estudar na Universidade do Porto, que visitam com frequência.

Foi por ela que souberam dos alertas emitidos pela Proteção Civil para a passagem da tempestade Kristin em território nacional, mas nunca imaginaram que os danos pudessem ter a dimensão que agora se vê. “Ainda vimos à distância pela videovigilância que havia vento e tempestade, mas depois a emissão cortou por causa da rede”, conta Frédéric.
“O estrago é material, não houve dano pessoal e isso é o principal, não haver pessoas aleijadas”, considera Virginia. Os próximos passos são tratar do seguro da casa e do que se estragou dentro dela.
Planeiam ficar “pelo menos até domingo da semana que vem” e regressar depois disso a Pombal à medida do que for preciso, dentro de algumas semanas. Provavelmente vão gastar parte das férias do ano nestas deslocações.

“Estamos a tratar dos documentos e a dificuldade é a de encontrar vaga com o empreiteiro para ele poder vir cá e resolver os problemas que fazem entrar água para não piorar mais a situação”, relatam, dando conta das dificuldades em chegar às empresas que lhes poderiam vender telhas ou repor os vidros, já que muitas delas ficaram também elas danificadas pela passagem da tempestade.