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As estações de Lara Moreno

"Antes Que A Luz Se Apague" leva o leitor a traduzir a vida de um casal que, da cidade para o campo, vê destapadas as angústias. Lara Moreno exige-nos tempo e a quietude que dá em troca pode enganar.

Ana Bárbara Pedrosa
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Foi publicado agora pela Alfaguara, treze anos depois da primeira edição no original. A autora, Lara Moreno, já conta entretanto com uma extensa lista de romances publicados. Antes Que A Luz Se Apague surpreende em frentes múltiplas: a narrativa é contida, as psiques das personagens são escrutinadas, a prosa é limada até só lhe restar osso.

A priori voltado para a desistência, o romance tenta encontrar vida no vazio. À cabeça, há um casal que rompe com a vida anterior e se muda para uma aldeia no interior de Espanha. Pouca gente lá vive, ao contrário da cidade, e poucas frases são ditas. E o casal lá se mete a inventar a vida, e os primeiros capítulos exploram o lugar e a sua gente com olhos de quem nunca de lá foi. A mulher insistira em renunciar a tudo, e é essa renúncia que tem o seu quê de abandono, de vida sem amarras – e, por isso, de desistência. O que se podia intuir como descanso e tranquilidade cedo se revela outra coisa: o campo é árido, frio, isolado; a vida social é crua, a economia é frágil; o silêncio assusta; a natureza não convida; e os habitantes sobrevivem a custo, com poucos recursos, num ambiente de desconfiança permanente em relação aos outros. Criando este cenário com poucos elementos humanos, tudo parece intensificado: sem as distrações, os ruídos e as demoras da cidade, a narrativa reduz-se à essência, às relações, aos pequenos actos, a um quotidiano circunscrito.

O enredo é quase esquemático. Através de capítulos curtos e vozes múltiplas, Lara Moreno dá a história de Nadia e Martín, nunca esclarecendo a crise difusa que os levou à guinada. O leitor fica meio perdido no estado emocional de ambos, e a própria leitura transforma-se na busca para colar as peças. O casal muda-se e ei-lo num cenário de escassez. Aqui e ali, há referências a apagões, a falta de recursos é evidente, mas nunca a página desenha um cenário indiscutivelmente distópico. Não há explicações sistémicas nem uma linha narrativa que permita entender um antes e um depois. Assim, a quem lê pouco resta senão ir tentando seguir os fios, não para ver um certo cenário, mas para tentar descobri-lo. A aldeia parece estar num estado de entropia e o texto acompanha-o sem o decifrar, sem oferecer fórmulas ou respostas ao leitor. Com isto, a narrativa não parece querer seguir os passos de um acontecimento, mas os de uma vida, ou seja, ao invés enumerar os passos, deixando-os claros, vai acompanhando os fluxos de consciência.

Ora, esta opção formal pode levantar alguns problemas. Dividido em duas partes, “Inverno” e “Verão”, que, em mais um movimento metafórico, parecem responder mais a estados existenciais do que a estações, o livro é atravessado por uma dimensão quase poética, que obriga o leitor a uma permanente interpretação ao invés de absorção. O seu papel, enquanto receptor, tem de ser participativo: caso contrário, a narrativa parecerá apenas um conjunto de símbolos que não podem ser cosidos. O Inverno implica a suspensão, a adaptação, a tensão; o Verão traz a exposição dos conflitos e a violência mais latente.

Título: “Antes Que A Luz se Apague”
Autora: Lara Moreno
Tradução: Margarida Amado Acosta
Editora: Alfaguara
Páginas: 344

Já a fragmentação da narrativa em múltiplas vozes, aqui alternadas entre a primeira pessoa e uma terceira omnisciente, costuma ser elogiada como se implicasse uma grande versatilidade narrativa ou complexidade na construção do enredo, mas, lido o livro, percebe-se que cada capítulo não implica grande exigência ou manutenção do ritmo nem corre grandes riscos, facilitando até o trabalho de colagem. Ao não haver um eixo narrativo dominante, é mais fácil ir tecendo tentáculos de prosa que toquem aqui e ali, que permitam entrar e sair de uma cabeça, que reduzam o espaço da cogitação, que facilitem a entrada de assuntos ou perspectivas. E, com isso, a autora delineia o romance através de uma ideia de acumulação de elementos e não de desenvolvimento.

Cada fragmento acrescenta informação, e mesmo densidade psicológica, poupando a autora de robustecer a mão e os capítulos, permitindo outro tipo de intimidade com o leitor, que vai saltitando e colando pedaços, numa estratégica que privilegia a consciência sobre a acção, ao invés da acção em si. Nisto, a utilização do presente do indicativo, que é pontuada com a do pretérito perfeito, dá uma sensação de coisa redonda ao romance, quase estática. Nada na narrativa parece apontar para um desenlace, e cedo se adivinha, ou se cogita, que não há que contar com um clímax. Em vez de hierarquia ou de estrutura evidente, parece existir apenas uma espécie de marasmo. Ora, isto pode chegar com um preço. Ao não ser conduzido, o leitor quase tem de patinar dentro de um texto, sendo que o texto cria um romance que se aprofunda ao invés de andar.

Voltando à ideia de polifonia, convém também acrescentar que a opção parece mais formal do que estética. Ou seja, parece mais servir para permitir a construção do romance do que para o ampliar em termos estilísticos. Não temos grande variação de vozes, nem pode dizer-se que a opção formal sirva essa questão estética. A escrita mantém-se, seja qual for o narrador, rigorosa, seca, e muitas vezes voltada para a materialidade dos elementos. Num cenário em que o próprio entorno se volta necessariamente para questões materiais (a comida que escasseia, o trabalho que exige força ao corpo, a sujidade que se entranha), esta opção – agora sim, estética – cria um ambiente um tanto sufocante, em que a própria vida parece arrastar-se num mundo que pesa em cima do corpo e que exige luta a quem o habita.

Ora, isto cria outro problema no romance, que é uma sensação constante de repetição, de prisão. Há demasiado cansaço, o que cria, do outro lado, sufoco e saturação. Ao abster-se de criar linhas narrativas claras, Moreno pôs o texto às voltas de si mesmo, focado em tensões que não transforma nem esclarece, o que acaba por ser coerente com o universo retratado. O esgotamento nunca se resolve e não chega a haver catarse.

Finda a leitura, acaba por ser de maior interesse questionar as opções formais da autora – elogiando-as ou não – do que discutir o conteúdo dos capítulos. Antes Que A Luz Se Apague exige atenção e movimento ao leitor, mesmo que seja para entender a quietude da prosa. E, sobretudo, exige-lhe lentidão – uma que acompanhe o próprio texto.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.