Sobreviver ao cancro é, para muitos, o resultado de uma longa caminhada marcada pela coragem, pela ciência e pela esperança. Mas o fim dos tratamentos não é necessariamente o fim do caminho. A vida depois do cancro traz novos desafios – físicos, emocionais e sociais – que exigem um acompanhamento atento e diferenciado. O termo “sobrevivente” abrange cada pessoa que recebeu um diagnóstico de cancro e concluiu ou vive com o tratamento, muitas vezes com uma nova perspetiva sobre o valor da vida.
Com os avanços da medicina, cada vez mais pessoas ultrapassam a doença. Em Portugal, estima-se que mais de 450 mil pessoas vivam após um diagnóstico de cancro. Essa boa notícia trouxe também uma nova realidade na saúde: a necessidade de cuidar do sobrevivente e não apenas de tratar o doente.
Depois do cancro, o corpo pode carregar marcas: fadiga persistente, alterações hormonais, disfunções cardíacas, problemas de fertilidade, entre outros efeitos tardios. Mas as feridas invisíveis – ansiedade, medo da chamada recidiva, com o regresso da doença, alterações na imagem e o regresso à rotina – também pedem atenção. É aqui que o acompanhamento diferenciado se torna essencial, através de equipas multidisciplinares que integram oncologistas, médicos de família, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes sociais, bem como outras especialidades médicas consoante as necessidades específicas de cada caso.
Um exemplo comum é o de uma mulher que superou um cancro da mama. Quando termina o tratamento, sente-se grata, mas insegura. O cabelo cresce, a energia regressa aos poucos, mas o receio de um reaparecimento da doença permanece. Se o acompanhamento incluir apoio psicológico, orientação alimentar, exercício adaptado e consultas de vigilância com objetivos claros, o “viver depois do cancro” transforma-se em viver com qualidade e confiança.
Estudos mostram que sobreviventes com seguimento estruturado têm menor ansiedade e melhor adesão a hábitos saudáveis. Programas de reabilitação oncológica, hoje já disponíveis em vários centros, ajudam na recuperação física, previnem complicações e promovem o bem-estar global.
Além disso, o envolvimento do médico de família é fundamental. Ele é o elo que integra o histórico oncológico no percurso global do doente, ajustando exames de diagnóstico, vacinas e acompanhamento de doenças crónicas. Esta coordenação promove uma vigilância segura e reduz o sentimento de “abandono” que muitos sobreviventes descrevem após o fim do tratamento ativo.
“Sobreviver” ao cancro é uma conquista, mas “viver bem” depois dele exige atenção contínua, empatia e redes de apoio. Cada sobrevivente traz uma história de superação que merece ser acompanhada com respeito e cuidado, porque a vida depois do cancro continua a merecer ser plenamente vivida.
É neste espírito de escuta, partilha e reflexão que se enquadram iniciativas como o encontro que a Unidade do Sobrevivente de Cancro da CUF Oncologia promove no próximo dia 11 de fevereiro, no Hospital CUF Porto, com o tema “Conversas inspiradoras: Cuidar da mente no percurso oncológico”. Este momento de partilha reunirá doentes, sobreviventes e profissionais de saúde de diferentes áreas, promovendo um diálogo aberto e humanizado que reforça a importância do cuidado contínuo ao sobrevivente, para além do fim dos tratamentos.