“Lisboa é o coração, o resto do país são os intestinos”. Só esta mentalidade, acredita Filipe Plácido, pode justificar a falta de apoio do Governo central que se sente em dezenas de pequenas aldeias e povoações afetadas pela depressão Kristin. O designer, de 50 anos, já está por esta altura habituado à sensação de abandono. Foi assim quando, em 2017, o fogo que arrasou Pedrógão Grande ficou contido a meros 800 metros da sua casa, em Câneve, uma pequena localidade do distrito de Coimbra, e quando no ano seguinte o furacão Leslie atingiu com toda a força a região Centro do país. “Tivemos sinais de trânsito que passados quatro anos ainda estavam no chão. Como é que se admite? Não me admirava passarem oito anos e ainda vermos a calamidade do que isto foi porque não é em Lisboa. Se fosse em Lisboa estava resolvido no próprio dia”, sentencia. “Aqui é o caos, é sempre o caos”.
Passaram quatro dias desde que o termo ciclógenese explosiva entrou no vocabulário dos portugueses, tornando-se sinónimo de devastação. Em Vale do Barco, em Pedrógão Grande, a família de Arlinda Nunes sabe-o bem. O telhado da casa da irmã foi arrancado pela força do vento e arrastado para os terrenos em frente à moradia. Só com a ajuda de vizinhos e conhecidos, Arlinda e os familiares improvisaram um telhado com lonas de anúncios publicitários presas por grampos, uma solução também implementada para colmatar as mais de 60 telhas que voaram do telhado de Arlinda. Mas as lonas não impedem totalmente a entrada da chuva. “Chove pela casa toda”, lamenta a assistente social, de 58 anos, enquanto avança por entre baldes estrategicamente colocados para recolher a água que cai do tecto.




Entre sexta-feira e sábado o Observador percorreu uma dezena de aldeias e localidades entre Coimbra e Leiria. Na maior parte a população continua a não ter acesso a eletricidade — com a expectativa de que ainda possa demorar duas a três semanas a ser reposta –, nem rede ou internet e ainda há várias onde a rede de abastecimento de água ainda não foi restabelecida. Enquanto os trabalhos de reparação estão a decorrer, há já quem tema a próxima intempérie. “Os especialistas alertam que isto vai acontecer mais vezes. O Governo, seja ele qual for, está a perceber que tem de tomar as medidas necessárias para prevenção?”, questiona um morador.
“O vento era tão forte que nem ouvíamos as árvores a cair”
Parecia um “sismo”, uma “catástrofe”, ou, nas palavras de Filipe, que uma “entidade suprema tinha descido à terra e que estava a devastar a humanidade”. A família Plácido acordou às 5h30 e já não voltou a dormir, tal era a intensidade do vento: “Era tão forte que nem ouvíamos as árvores a cair”. “Só percebíamos que estava uma calamidade cá fora, mas não percebíamos a intensidade do que estava a acontecer”, relata o designer sobre a madrugada de quarta-feira. Apesar de rapidamente ter percebido que a tempestade já estava a deixar estragos na casa, a família não se atreveu a averiguar a extensão dos danos — só descobririam ao amanhecer o sobreiro tombado sobre a varanda e o poste de eletricidade caído junto ao muro da casa.
Nélia não estava no conforto de casa quando a tempestade se abateu na aldeia de Alqueidão, no município de Ansião. Seguia para Pombal, onde trabalha numa empresa da indústria de automóveis, mas não chegou ao destino. Tinha acabado de entrar no IC8 quando recebeu uma chamada da filha: parte do telhado tinha desabado. Já não conseguiu fazer o percurso inverso: “Estava tudo a voar, num espaço de dez minutos as estradas começaram a ficar intransitáveis, muitos pinheiros logo a cair.” Um caminho que, tipicamente faria em cinco minutos, acabou por levar mais de 40.
A 28 quilómetros de Alqueidão, Arlinda teve de se esforçar por conter o marido em Vale do Barco. “Queria vir para a rua, que ele é uma pessoa sem grandes medos, e eu pedi-lhe: ‘Vítor, não saias, não saias’. Tinha medo que ele levasse com alguma coisa”.




Mais de três dias depois, ainda é preciso muita cautela a circular. As estradas, particularmente as mais afastadas dos centros das cidades e municípios, continuam obstruídas. Não só por os sobreiros e pinheiros caídos nas bermas, sobre vedações e muros — alguns, dizem os moradores, com quase cem anos –, mas também todos os outros que ficaram de pé e cujos troncos dobrados ameaçam ceder a qualquer instante. Uma casa de arrumos com um trator tombado no interior ou um bungalow e barco virados do avesso podem obrigar um condutor mais distraído a carregar com mais vigor no travão. A cada poucos quilómetros veem-se também placas e sinais caídos, cabos de eletricidade pelo chão ou rotundas despidas dos seus ornamentos — o pote gigante numa das entradas de Ansião voou para os terrenos junto a uma das saídas.
Os trabalhos de limpeza e de reparação decorrem por toda a parte. E há locais onde elementos das corporações de bombeiros estão no terreno para ajudar no que podem. Em Degracias, no concelho de Soure, onde terá sido sentida com 208,8 km/hora uma das maiores rajadas de sempre em Portugal (ainda carece de validação oficial), uma equipa tenta retirar um cedro que caiu no telhado de uma casa que está há gerações na família de Maria Isabel e já serviu de casa ao visconde local. “Então, porque é que não cortaste aqueles ramos que estão ali?”, atira a idosa de 84 anos ao grupo. Com paciência e um sorriso, o bombeiro estende-lhe a motosserra em jeito de convite, antes de se voltar ao trabalho de cortar os ramos antes de puxar a árvore. Em menos de meia hora a operação está concluída, mas não sem percalços: a árvore começa a inclinar na direção de uma carrinha de caixa aberta e acaba mesmo por lhe cair em cima, sem contudo deixar feridos.
Os trabalhos de reparações já têm provocado vários feridos e, este sábado, foi noticiado que pelo menos duas pessoas morreram ao caírem de telhados. Ainda assim, muitos arriscam. “Não temos escolha“, comentam os moradores. Sérgio já vai na terceira reparação de telhados. De martelo na mão, o morador de Sobreiras, em Ferreira do Zêzere, sobe com à vontade por um escadote — que resulta, na verdade, da junção de duas escadas mais pequenas presas — para ajudar a partir a chaminé da casa de um vizinho, cujo nome nem sequer conhece. No final, o vizinho pergunta-lhe como pode ajudar de volta. “Não é preciso. Temos de ser uns para os outros”, resume, seguindo caminho rua cima e substituindo o martelo pela motosserra para continuar a cortar troncos caídos junto à casa.




A corrida aos geradores, jantares à luz das velas e a reposição gradual da água e rede
Ao longo das aldeias de Coimbra e de Leiria o cheiro a gasolina e a vibração dos geradores é uma constante. Tem sido uma corrida para os arranjar. Filipe já não conseguiu nenhum em Coimbra: “Tinha uma lista de mais de 70 pessoas e estamos a falar do de Coimbra. Mas eu precisava dele agora”. Teve de ser o irmão a ir comprá-lo na sexta-feira ao Seixal, no distrito de Setúbal. Era o último, custou 430 euros e tem 3000 watts, o que significa que não dá para grandes luxos.
“Dá para manter a comida na arca e frigorífico e é só. Não há aquecimento”, diz, acrescentando que o jantar dessa noite ainda terá de ser à luz de velas. “É uma despesa enorme. Um gerador de 3000 watts para ligar o básico, uma arca e um frigorífico são 2,50 L de gasolina só para estar a trabalhar duas horas a abastecer estas duas coisas. Quem é que consegue pagar isto?”. A falta de eletricidade, a somar à ausência de rede e internet, traz outros problemas, principalmente para quem trabalha em casa, como é o caso de Filipe. O designer, que trabalha para uma empresa holandesa, ainda tentou ir fazê-lo a partir de uma biblioteca municipal, mas não foi o único a ter a ideia, o que sobrecarregou a rede e o impediu de trabalhar a 100%.
Noutras aldeias o principal problema é a falta de água. Em Sobreiras, Ferreira do Zêzere, a rede de abastecimento só foi resposta na sexta-feira ao final do dia, depois de muita insistência da população junto das autoridades locais. “Vou poder finalmente tomar banho”, congratulou-se Sérgio depois de mais um dia dedicado a reparações nas vizinhanças. Já em Degracias este sábado a água continuava a faltar, obrigando muitos dos moradores a recorrer às casas de familiares e amigos para a higiene básica.
Apesar das dificuldades, o apoio das autoridades locais, seja de bombeiros ou elementos das Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais, tem sido essencial, vão descrevendo os moradores das várias localidades onde o Observador passou. Mas não é suficiente, é preciso apoio das autoridades centrais, sublinha Filipe. “O Governo não percebeu nadinha do que se está aqui a passar”, lamenta o morador de Câneve, criticando as palavras da Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, que disse esta sexta-feira que “há muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade, no gabinete”.
“A ministra vem dizer que estão a fazer trabalho de gabinete, venham é ao terreno. Não é num gabinete a olhar para as letras de um relatório que vão perceber a realidade do que se está a passar”, denuncia. O designer critica também a falta de atenção que os estragos provocados pela tempestade Kristin receberam da comunicação social em comparação com o apagão do ano passado. “O ano passado afetou toda a gente e estavam sempre a passar o problema. Este ano não, foi o Benfica que ganhou, foi o Trubin. E o resto do país?”, questiona.