“Que se lixem as eleições.” André Ventura está de regresso a Leiria para ver a devastação deixada pela tempestade Kristin. Está ao lado de Fábio Franco, o agricultor que o abordou no centro da cidade, há dois dias, para dizer que estava tudo muito pior nos territórios à volta. Depois de um dia a Norte marcado por mudanças na agenda, com foco em recolhas de bens essenciais para as vítimas, o candidato presidencial regressa.
O cenário é arrasador. Resta pouco teto no armazém, caminha-se sobre lama, as estufas estão irreconhecíveis. Os ferros estão dobrados como se fossem de borracha, embrulham-se uns nos outros como tecido. Do plástico que cobria a estrutura só há restos. As centenas e centenas de alfaces que ainda ali estão não dão para aproveitar. O vento levou as estufas que as protegiam e queimou as folhas verdes. “Uma perda total”, resume Fábio.
Aos 37 anos, agricultor desde os 19, Fábio Franco é dono da Sociedade Agrícola do Vale do Lis e conta com 15 funcionários entre sazonais e fixos, alguns deles familiares. Já passou por três tempestades de grandes dimensões — nenhuma delas se compara com a Kristin. De tal forma que não sabe se agora é possível recuperar o negócio. “O barco agora é elevado”, confidencia. Lembra-se bem do impacto do furacão Leslie, em 2018, e dos apoios “à base dos 50%”, mas também das notícias que falavam em 100%, que, sublinha, são “apenas até 10 mil euros”. “Não chega nem para pôr os vidros nos tratores nem dos carros. Não me chega um milhão de euros.”
Desolado, e ainda sem uma decisão quanto ao futuro mais próximo, vai concordando com André Ventura quando apela a “rapidez” e à necessidade de juntar “recursos políticos administrativos e financeiros” para que “as pessoas não percam a oportunidade de se levantar”. Seja como for, Fábio Franco está longe de ter uma decisão fechada sobre o futuro e assumiu mesmo que pode desistir.

A incógnita sobre o negócio e esperança a desaparecer
Sem água, luz e comunicações, a aldeia de Ortigosa é apenas uma das muitas que estão a ter dificuldades em levantar-se após a passagem da tempestade. Ao lado de Fábio, Fausto e Isabel contam que perderam toda a produção de framboesas, mirtilos e morangos, a grande maioria para exportar. Não sobra nada. Há também quem não consiga chegar aos animais para os alimentar — “Há vizinhos com pecuárias que não conseguem chegar lá para pôr energia e os porcos estão a morrer à fome e sede”, conta Fábio. E há ainda chuvas intensas previstas para os próximos dias, o que aumenta a preocupação por antecipação, não só pelas cheias, mas também pelos muitos telhados destruídos.
“Fala-se muito na cidade [Leiria], mas tem rede, tem luz, tem não sei o quê, tem jardins. Por favor, nós não temos psicológico para ir passear para os jardins. Deixem agora os jardins, cuidem das pessoas e da saúde delas, que está muito afetada”, suplica o jovem agricultor, que a caminho da propriedade tem de se desviar de centenas de árvores tombadas e de postes de eletricidade caídos na estrada.
A mãe de Fábio Franco está por perto, amparada por Isabel. Está num pranto, repete que o filho “sempre trabalhou com gosto”, que lutou muito depois de ir para a Escola Superior Agrária de Santarém e com dúvidas sobre se conseguirá levantar o negócio. “Não queria estar a chorar”, exterioriza, sem conseguir travar as lágrimas e suplicando por ajuda. Fábio, que foi travando os sentimentos mais profundos, mesmo que por uma ou outra vez os olhos tenham ficado marejados, tem encargos com vários trabalhadores e não pode falhar.
Todos são da região e um deles, na casa dos 30 anos, com casa acabada de comprar, viu-a ser destruída por uma estufa que voou de terrenos por perto. “Não posso deixar de pagar”, diz, naquele que parece mais um pensamento com que tem de lidar nos próximos dias. Também no caso de Fábio Franco podia ter sido ainda pior. No Leslie, as estufas não só foram destruídas como voaram para um local onde agora há uma casa. Quando as construiu novamente, “já escaldado”, apostou numa estrutura “mais robusta” e acredita que isso pode ter ajudado.
Contudo, não contribui em nada para recuperar as estufas porque são “montadas no sítio” e “basta uma peça estar danificada e já não dá para montar o puzzle”. Até haver uma solução, Fábio Franco está preocupado com os vizinhos pelo “medo” causado pelos plásticos a esvoaçar.




De olhos postos nas alfaces que nunca chegarão aos pratos dos portugueses, o agricultor, que tinha produtos por supermercados e lojas de todo o país, desabafa: “Talvez ainda estejam a comer alfaces produzidas em Leiria. Para a semana de certeza que não vão comer alfaces produzidas em Leiria.”
E como a tragédia puxa a nostalgia, Fábio Franco recorda o último dia em que viu as estufas antes de a tempestade por ali passar e destruir tudo. “Temos alguns canais que nos vão informando da meteorologia. No dia antes, antes de ir para casa, cheguei aqui e pensei ‘vou tirar uma fotografia que está tão bonito’, e depois pensei ‘não, vou tirá-la amanhã, porque isto amanhã vai estar igual, se Deus quiser vai estar igual’. E não estava igual.”
Com um futuro profissional ameaçado, Fábio Franco (que fez questão de referir a frase “foi a vida que escolhi”) segue com pouca esperança. Falou no passado sobre os funcionários — disse que “tinham os seus sonhos, tinham as suas ambições e neste momento…” — e a pausa foi de tal forma dramática que Ventura interrompeu para dizer que “não os podemos deixar desistir”. E, cabisbaixo, assumiu que é difícil olhar para o futuro, mesmo a nível pessoal:
Tem filhos?
Não, era um sonho.
É com vidas em modo de pausa, à procura de um regresso à normalidade e de soluções a curto prazo que se continua a caminhar nas terras agora muito atribuladas de Ortigosa. E de uma parte grande do território nacional.
“Que se lixem as eleições”
Perante a tragédia, a política passa para segundo lugar. André Ventura recusou continuar uma campanha tradicional e na visita à propriedade de Fábio Franco rejeitou “entrar em picardias” e responder a críticas do presidente da Câmara Municipal de Leiria — que considerou “ridículo” quando “alguém quer oferecer meia dúzia de garrafas e depois se filma a trazê-las numa carrinha” e notou que é “aproveitar [tragédia] para fazer campanha é uma ofensa”.
Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador
E, apesar das críticas de Gonçalo Lopes, o candidato a Presidente da República ficou-se por curtas palavras: “Compreendo que alguns critiquem, eu vou continuar a mobilizar as pessoas para recolher bens.”
Foi apenas buscar uma das frases mais icónicas de um homem que elogia em distintas ocasiões, Pedro Passos Coelho, para resumir o que se está a passar nesta campanha eleitoral: “Que se lixem as eleições”, atirou, realçando que apesar de a campanha estar marcada, é preciso “foco em ajudar” e “fazer o possível para contornar isto”.
Ao lado de Fábio Franco, Ventura sublinhou que “alguns” apoios devem ser a fundo perdido ao argumentar que se mobiliza “dinheiro para tanta coisa” e não se consegue “mobilizar para ajudar” as vítimas da intempérie. Além disso, o candidato presidencial entendeu que este é o tempo para “o resto do país mobilizar recursos” para apoiar diretamente a zona mais afetada.

“Há momentos em que parece um país de terceiro mundo. O Estado não pode dar telhas?”, questionou, sugerindo que se vá às fábricas porque a chuva vai continuar e as casas das pessoas estão sem telhados. “Parece um país de terceiro mundo onde nós não conseguimos mobilizar recursos de distribuição de coisas tão simples como telhas, de outras zonas do país para aqui. Isso pode ser feito pelas Forças Armadas”, defendeu novamente, depois de já ter reforçado que estas deveriam estar no terreno a dar apoio às populações.
O líder do Chega fez um “apelo às entidades do país” para que as explorações agrícolas não sejam tratadas como na Covid ou em tempestades anteriores. Para Ventura, “todos os recursos, sejam eles políticos, administrativos, financeiros, para ajudar de forma rápida, para que estas pessoas não percam a oportunidade de se levantarem novamente”.
Numa das poucas referências políticas que aceitou fazer — depois de fugir a várias — voltou a apontar ao Governo, desta vez a Maria Lúcia Amaral: “Parece que não vê o que está a acontecer, não sabe o que está a acontecer. Diz que temos agora tempo para uma aprendizagem coletiva. Estas pessoas não precisam de aprendizagens, estas pessoas precisam de apoio rápido, de ação. É isso que temos de fazer agora, ajudar, agir, fazer”, reiterou.
Durante a tarde, a equipa de comunicação de André Ventura anunciou o cancelamento da ação de campanha prevista para Viana do Castelo, referindo que o candidato a Belém passaria “a tarde em contacto com autarcas para coordenar a entrega de bens e donativos que [têm] recebido de vários pontos do país”. Ventura deu a entender que manteria a campanha num modelo mais ligado às vítimas da tempestade e aguardam-se novidades para os próximos dias.