Há quatro dias que a mensagem política está arredada das intervenções de António José Seguro. As consequências do temporal de quarta-feira têm centrado as suas declarações e mesmo o apelo ao voto passou para terceiro plano. A situação atual fez o candidato tornar-se mais interventivo com o Governo — e este sábado muito diretamente para que pressione a Comissão Europeia — na procura de respostas para as populações afetadas. Aos poucos a mensagem política vai ressurgindo, até porque domingo há votação antecipada, e este sábado voltou até o tiro a André Ventura.
Na Lixa (distrito do Porto), Seguro tentou novamente que o almoço-comício fosse contido nos festejos, dada a situação na região centro. De manhã tinha admitido aos jornalistas que “não é um equilíbrio fácil” o que tem tentado, entre “manifestar a solidariedade com as pessoas e, simultaneamente, fazer uma campanha onde o apelo ao voto é indispensável.” Ao almoço despachou, mal abriu a intervenção, a questão política: “Quem elege são os votos dos portugueses. Não basta ter o voto no coração e na cabeça”.
A luta contra uma eventual desmobilização provocada pela vantagem que traz nas sondagens resumiu-se a esta frase, a restante intervenção foi a repetição das declarações aos jornalistas de manhã, exclusivamente sobre o mau tempo (já lá vamos). À noite, em Viseu, já foi mais longe e até atingiu Ventura ao dizer que o país precisa “de um Presidente com valores e os princípios certos e precisamos de estabilidade política no país”. Para Seguro, esta estabilidade “não é um fim em si mesmo”, sublinhando antes a “capacidade de dialogar uns com os outros”. E isto para concluir: “Dos candidatos que estão nesta segunda volta, sou o único que pode aliar a capacidade de diálogo e experiência”.

Ao quarto dia de campanha oficial, o combate político lá apareceu. Mas as tacadas maiores foram dadas pelos convidados para intervir em palco, ao almoço: o presidente da Câmara de Felgueiras e o mandatário distrital. Nuno Fonseca, autarca do PS, falou primeiro e atirou-se a André Ventura por lhe fazer “lembrar aqueles livros da Isabel Alçada e da Ana Maria Magalhães, que é ‘Uma aventura’ e que hoje faz uma aventura e ‘sou candidato à câmara de Loures’, amanhã faço uma aventura e sou candidato a São Bento ou hoje faço uma aventura e sou candidato a Belém. Queremos um homem que sabe aquilo que quer”, disse apontando para Seguro. Também falou do candidato como aquele que “não berra” e que “em vez de espalhar o caos, sabe ir para o terreno em silêncio”, sem precisar de nomear o contraponto Ventura.
Seguiu-se Pedro Sobrado, dramaturgista e professor universitário, que foi exatamente ao mesmo alvo, sem o referir. Disse apenas ficar “arrepiado” com alguém que “faz campanha à porta das missas, mas as posições vão ao arrepio da doutrina social da Igreja”.
Já do candidato só entra em despique com Ventura de forma indireta, ainda que tenha dito na sua intervenção no almoço que os participantes tinham juntado cinco toneladas de alimentos para apoiar as populações em risco depois do temporal. Isto depois de ter desdenhado da iniciativa de recolha de bens que foi promovida pelo seu adversário: “Distribuir comida? A proteção civil está a fazer isso”, disse na quinta-feira à tarde quando foi confrontado com essa ideia.

Kristin empurrou candidato para maior pressão sobre Governo
A intervenção pública de Seguro, por estes dias, resume-se à partilha dos contactos que tem feito para dirigentes que estão junto das populações afetadas pela depressão Kristin e das ideias de intervenção que vai tendo. Este sábado, enquanto esperava que o Presidente da República acabasse de falar para prestar declarações, o candidato à sua sucessão ouvia-o com ar preocupado através de um telemóvel. De repente, Marcelo falou na preocupação com os prazos do PRR e Seguro congratulou-se por ter sido ele o primeiro a falar no assunto no dia anterior.
Depois, nas declarações que fez aos jornalistas, indignou-se com a Comissão Europeia sobre o mesmo assunto. Quando respondia a uma pergunta sobre um fonte oficial da Comissão, citada pelo jornal Eco, a dizer que “o Mecanismo de Recuperação e Resiliência não pode e não será prorrogado” — o que tinha proposto. “Se é verdade que a Comissão Europeia tem esta posição, é uma coisa inaceitável e inimaginável”, afirmou. “Há um povo europeu a sofrer com dificuldades. O que se pede é que alarguem o prazo e é a visão administrativa e burocrática que impera sobre a necessidade e a urgência de apoiar humanitariamente as pessoas”, referiu ainda em reação a esta posição, rematando: “Se a Europa não percebe disso, fico por aqui.”

A pressão do candidato presidencial não ficou exclusivamente em cima das instituições europeias. Seguro esquivou-se a responder à parte da pergunta sobre se confiava que existir, neste momento em Bruxelas, um presidente do Conselho Europeu português podia ajudar, mas não deixou de empurrar Luís Montenegro. Disse mesmo esperar que “tome a iniciativa e discuta com a Comissão Europeia para, rapidamente, conseguirmos o alargamento desse prazo. Isto é uma questão nacional”, concluiu. Em causa está o alargamento dos prazos, que terminam este ano, para a execução de obras do PRR , para permitir libertar de imediato a capacidade de construção para acudir às necessidades das populações afetadas.
Se nas primeiras semanas de campanha e quando a difícil situação nas urgências hospitalares estava na linha mediática, Seguro evitava críticas diretas ou qualquer ideia de confronto com o Governo, agora o clima mudou ligeiramente. Sem querer atropelar Marcelo e lembrando que “há um Presidente da República em funções até ao dia 9 de Março”, admitiu que vai começar contactos mesmo antes de tomar posse.
Embora a reunião específica com o primeiro-ministro deva ficar, de acordo com o que disse, apenas para depois desse momento, António José Seguro ainda não parou de enviar recados nessa direção. Nas mesmas declarações que fez aos jornalistas tinha já impelido o Governo a “alargar os prazos para as exigências de cumprimento fiscais e administrativos, designadamente nos concelhos que estão mais afetados e que estão sob calamidade.” Explicou que “não se trata de não pagar, trata-se de ter mais tempo para as pessoas poderem cumprir as suas obrigações. São questões muito concretas que podem ajudar a melhorar a vida das pessoas e sobretudo a que rapidamente se volte à normalidade”, considerou, no que havia de repetir ao almoço.

E na noite anterior, em Viseu, já tinha pedido a “criação de uma linha de apoio à tesouraria das empresas que não podem laborar.” “O pior que podia acontecer é que as pessoas em casa aflitas agora também pudessem ficar privadas do seus salários”, argumentou para pedir que essas “linhas de tesouraria nessas empresas em dificuldade” possam também “apoiar instrumentos de recuperação das empresas”.
E este sábado à noite, em Guimarães acrescentou mais uma medida que pode ser tomada: retirar rapidamente os troncos caídos no pinhal interior enquanto ainda têm algum valor económico para os seus proprietários. Seguro falou sobretudo na “devastação” no pinhal anterior para dizer que “esses troncos estão no meio da floresta. É necessário que haja estímulo para retirar rapidamente esses troncos quando ainda têm um certo valor económico”. Isto a pensar em “quem perdeu tudo e que ainda pode tirar algum rendimento dos seus terrenos”.

A outra pressão ganha expressão depois de o próprio Presidente da República ter vindo admitir que resposta às populações “podia ter sido mais rápida”. Nos últimos dias, o candidato foi buscar ao baú socialista a lição deixada por Jorge Coelho em 2001: “A culpa não pode morrer solteira.” Nessa altura, Coelho usou-a para justificar a sua própria demissão de ministro, na sequência da queda da Ponte de Entre-os-Rios, quando era ele que tinha a pasta do Equipamento.
“Tal como disse o Presidente da República, é importante que se faça uma avaliação quando o processo terminar. Neste momento o que é necessário é encontrar soluções concretas para que as famílias e as empresas possam rapidamente recuperar os seus bens, voltarem a ter uma vida normal”. Alinhou totalmente com Marcelo sobre a necessidade de uma avaliação à ação do Estado na resposta à “catástrofe” e disse que há que “tirar lições e ilações desta situação e saber se de facto os meios que o país tem disponíveis estão organizados da melhor maneira para poder responder a estas situações”. Se repetir a vitória da primeira volta no dia 8, é agora esta agenda que António José Seguro vai levar, à cabeça, para Belém.