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(A) :: O vento levou quase tudo às empresas da Marinha Grande. O que ficou de pé continua em risco: “Temos de safar esta casa"

O vento levou quase tudo às empresas da Marinha Grande. O que ficou de pé continua em risco: “Temos de safar esta casa"

A força da tempestade "partiu ferro", destruiu paredes e deixou uma marca sem precedentes na indústria marinhense. Entre turnos de vigia e limpeza de destroços, há quem tente "safar" a casa de anos.

Marina Ferreira
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Francisco Romão Pereira
photography

O letreiro que anuncia a chegada à zona industrial da Marinha Grande está no chão. É um cartão de visita do cenário dos quilómetros que se seguem: não há um único edifício do polo empresarial que tenha escapado ileso à violência da tempestade Kristin. Telhados inteiros voaram e estão espalhados em pedaços, há estruturas que cederam por completo à força do vento e que desabaram para cima de máquinas industriais e, por todo o lado, há árvores caídas e postes de eletricidade que bloqueiam a estrada.

“Ninguém tem noção do que se passou aqui, fora quem cá está”, afirma ao Observador Tiago Coutinho, diretor da EIB, uma empresa de fabrico de borracha que tem um pavilhão inteiro, onde se fazia a mistura da matéria-prima daquela indústria, completamente a descoberto. A chuva cai em cima das máquinas e ouve-se o ranger da estrutura em metal inclinada na direção em que o vento soprou na madrugada de quarta-feira. “Há probabilidade de ainda parte daquela estrutura cair”, admite o empresário.

E os danos nem se ficam só pelo edifício. No parque de estacionamento há dois carros de funcionários que estavam no turno da noite quando a intempérie explodiu e que ficaram com os vidros partidos. Foi uma noite de pânico para quem estava dentro do edifício, relata o diretor. Na EIB trabalham 110 pessoas que nos últimos dias ajudaram a limpar e a tirar entulho de dentro da empresa.

A missão desta sexta-feira foi diferente. “Neste momento estamos aqui todos reunidos com um objetivo, que é o de fazer o processamento salarial para se pagar até ao final do mês aos trabalhadores“, afirma Sónia Neves, funcionária da empresa.

É um gerador que a Câmara Municipal da Marinha Grande cedeu que torna a tarefa administrativa exequível, já que ali não há eletricidade desde quarta-feira. Não é possível retomar a produção, não só por não haver luz, mas porque toda a linha está dependente da “misturação”, precisamente na zona a descoberto e que não é possível isolar para já pela instabilidade da estrutura.

“Não vamos conseguir trabalhar enquanto aquela parte não for arranjada”, diz Tiago Coutinho, que pediu aos trabalhadores que descansassem este fim de semana, sendo que a maioria tem arranjos para fazer nas próprias casas. Os que puderem regressarão na segunda-feira às 8h00, sem haver certezas do que vão poder executar se ainda não houver rede elétrica.

Um passo importante para o regresso da eletricidade é dado precisamente enquanto o responsável da empresa relata a incerteza no futuro próximo para os mais de 100 trabalhadores. Um piquete da E-Redes chega para remover um pedaço de chapa que voou e ficou preso numa das linhas de média tensão. “Estamos a trabalhar em contra relógio, porque só conseguimos fazer este tipo de trabalhos enquanto houver luz“, relata um dos técnicos da rede de distribuição elétrica que tem estado a “bater a linha” na zona para identificar e resolver os danos visíveis.

Enquanto explica ao Observador que é preciso retirar a chapa presa para conseguir alimentar a zona industrial em segurança, os trabalhadores que subiram ao nível da linha numa grua conseguem finalmente serrar o metal, que cai em vários pedaços no exterior da EIB. Graças ao piquete, a última tarefa da semana para a empresa de fabrico de borracha está concluída.

Os despojos guardados 24 horas pelos trabalhadores

Numa empresa de moldes de plástico, noutra zona da Marinha Grande, a tarefa principal dos últimos dias só começa quando a noite cai. “Desde o primeiro dia e da primeira noite que estamos aqui”, diz com orgulho Paula Barreira, sentada na entrada da TJ Moldes em plena escuridão. A funcionária administrativa, que em março completa 35 anos de casa, tem revezado a “vigia” com vários colegas para evitarem a pilhagem de materiais e máquinas de valor elevado. Fica até às 22h00, mas regressa de manhã cedo. “Vamos safar isto, temos de safar esta casa”, diz emocionada ao Observador.

“Eu fui a segunda pessoa a chegar aqui naquela manhã e para mim foi desolador. Gritei…foi o pior dia da minha vida. O meu pai faleceu e não foi tão difícil como ver esta casa como está, porque isto é que faz parte da nossa vida. Tudo o que nós temos, eu e os meus colegas, agradecemos a esta casa”, acrescenta em lágrimas.

No edifício de entrada, na escuridão da noite e sem eletricidade, a dimensão dos danos pode ser antecipada pelo entulho que obstruiu a quase totalidade da estrada, a monte com fios elétricos caídos e árvores. Tudo fica ainda mais claro quando se avança até um de quatro pavilhões da empresa que produz moldes para carros e vários eletrodomésticos. Ali já se percebe a real dimensão dos danos. “Isto partiu ferro”, diz um dos 111 trabalhadores da TJ Moldes. A maquinaria pesada está praticamente a céu aberto, apenas coberta por plásticos improvisados.

E este não é sequer o local com mais danos. Nério Jesus, um dos sócios-fundadores da empresa, mostra com pormenor o pavilhão onde antes se fazia a injeção do plástico e agora não é preciso entrar porque não há portas, paredes ou cobertura. Várias paredes de tijolo já não existem. “Nestes dois edifícios penso que será quase perda total com a maquinaria que está lá dentro. É maquinaria muito cara e muito sensível. Só quando formos tentar arrancar com as máquinas é que vamos ver o que acontece e o que vem a seguir”, relata.

Nesse local da linha de produção, um molde da Porsche está preso numa máquina. Iria servir de modelo para uma peça de um capô. “Segunda-feira vêm cá representantes [da marca] ver, mas isto pode mexer com a produção na Alemanha, porque o cliente não consegue produzir sem aquele molde”, explica Nério Jesus.

Na manhã de sexta-feira a peritagem da seguradora da empresa já visitou as instalações. “Fomos a Lisboa falar com a companhia e hoje estavam aqui. Disseram que estavam aqui para ajudar e não para complicar”, conta o sócio-fundador, que admite que o prejuízo causado pela intempérie anda “na casa dos milhões de euros”.

Para já, o plano é nos dois edifícios onde houve menos danos “remendar o teto para quando voltar a haver eletricidade colocar logo essa parte a funcionar”, explica Nério, que não exclui vir a recorrer a indústrias concorrentes da zona para realizar a injeção de plástico, um dos passos da linha de produção que não ficará operacional tão depressa. O problema, antevê, será mesmo o de encontrar quem não tenha sofrido danos idênticos na zona e tenha condições de fazer o trabalho.

Na terra dos moldes, os prejuízos são contados aos milhões e os materiais para resolver estragos faltam

O polo industrial da Marinha Grande é um “ecossistema de moldes” e “há muitas empresas que estão afetadas e que dependem ou fazem depender outras“, afirma ao Observador Hugo Simões, proprietário da Ardavia, empresa que faz a maquinação de peças para moldes.

“Estamos a tentar reagir o mais rápido possível e a ter uma capacidade de fazer o inimaginável”, nota ainda. Este volume de negócio é mais reduzido. Hugo tem 12 pessoas a trabalhar com ele, mas mesmo assim calcula que o prejuízo que a tempestade lhe causou ascenda aos “muitos milhões de euros”.

“O telhado foi arrancado completamente, a cobertura quase toda foi ter às casas aqui à frente. Protegemos as máquinas, o que conseguimos com plásticos, mas mesmo assim é complicado por causa das partes elétricas e eletrónicas, se já ficariam afetadas com humidade quanto mais com a chuva”, diz.

Foi através da mobilização popular que naquela rua foi possível desobstruir com a ajuda de uma “máquina retroescavadora emprestada”. Ali não chegaram nem os bombeiros nem a Proteção Civil. Hugo viu uma máquina do exército passar durante esta sexta-feira, mas a essa hora já tinha conseguido mover as estruturas metálicas da via pública.

O empresário recorda as horas que antecederam a tempestade que lhe destruiu o negócio. Recebeu uma mensagem da Proteção Civil sobre a velocidade dos ventos e acautelou internamente o que podia. “Deixámos todos os disjuntores gerais das máquinas desligados, mas nunca pensei que chegava aqui no dia a seguir e tinha o telhado no meio da estrada. É impensável”, relata.

Para já, a prioridade é tapar o edifício e evitar mais danos, que não param de aumentar à medida que chove sem parar. “Estamos a tentar repor algumas coisas, mas há falta de telha e estrutura. As pessoas estão a procurar muito e não há resposta. Estamos com dois municípios muito próximos afetados por isto [Marinha Grande e Leiria], com muitas habitações, empresas e serviços com necessidades”.

Depois da tempestade, “há o perigo de muitas empresas não voltarem a abrir”

Dentro e fora do polo industrial o rasto de destruição prolonga-se. Numa zona residencial da Marinha Grande, uma carrinha dos bombeiros voluntários desloca-se em marcha de urgência. Ali já há iluminação pública e um pinheiro de grandes dimensões é o motivo da ocorrência. Está a bloquear o acesso por estrada de moradores a uma zona da cidade.

“Temos trabalhado até cerca da uma da manhã todos os dias, depois paramos os trabalhos para não haver risco por causa da visibilidade e retomamos logo às primeiras horas da manhã”, descreve ao Observador André Granja, um dos bombeiros voluntários no local para serrar e tirar a árvore da estrada.

Tem sido esta a prioridade dos bombeiros. “Temos de priorizar o que é mais urgente. Abrir vias para as pessoas terem todas acesso é uma prioridade em relação a tirar uma estrutura de uma empresa onde não há ninguém em perigo ou isolado”, responde quando questionado sobre as queixas de empresários em relação à falta de auxílio das autoridades. E garante, ainda que por ordem de prioridade: “Não vai ficar ninguém sem resposta.”

Enquanto os bombeiros trabalham, vários populares ajudam a arredar os ramos serrados do pinheiro para a beira da estrada. Um deles é Francisco Duarte, que tal como muitos dos marinhenses é trabalhador de uma empresa de moldes para plástico — uma das que teve mais sorte e que registou danos de menor dimensão.

“Estão a cuidar daquilo e a criar condições mínimas, mas a questão é que não há luz, e sem eletricidade a empresa não pode laborar. Temos ordens para ficar em casa até voltar a eletricidade”, afirma.

Do seu lado julga ter o posto de trabalho garantido, mas olha com apreensão para outras empresas do setor pelas quais foi passando nos últimos três dias. Não se lembra de ver nada parecido.

“Isto vai ter dimensões um bocado acima do que se espera, há várias empresas que já não estão muito bem, porque este setor dos moldes tem sido afetado pela concorrência da China“, aponta, referindo os casos de lay-off, como aquele que vigorava há meses na TJ Moldes.

“Com uma destruição desta dimensão há o perigo de muitas empresas não voltarem a abrir”, refere. E não tem dúvidas de que na terra dos moldes e da cerâmica “isso equivale a uma taxa de desemprego altamente preocupante” num futuro próximo.