(c) 2023 am|dev

(A) :: Depressão Kristin. Exército e Marinha estão no terreno, mas Força Aérea ainda só tem meios em prontidão

Depressão Kristin. Exército e Marinha estão no terreno, mas Força Aérea ainda só tem meios em prontidão

Alguns militares já estão espalhados pelo centro do país após a tempestade. Pedido de colaboração tem de ser feito pela Proteção Civil e aprovado pelo Governo antes de os meios chegarem ao terreno.

Martim Andrade
text

Cada destacamento de Engenharia do Exército é composto por três viaturas diferentes: um trator, uma plataforma de transporte e ainda um carro de apoio, a que se juntam pelo menos um Sargento e um operador para cada uma das máquinas. No final do terceiro dia após a passagem da depressão Kristin por Portugal, foram mobilizados três destes destacamentos para apoiar a população nas regiões mais afetadas. O primeiro chegou na tarde de quarta-feira, mas só terá começado a operar na manhã seguinte, confirmou ao Observador fonte oficial do Exército.

Dois dos destacamentos foram para Ferreira do Zêzere, onde a obstrução de vias, fruto das várias ocorrências participadas pela queda de árvores nas estradas, continua a ser um fator que impede a circulação dentro do concelho. O outro foi para a Marinha Grande, onde a tempestade acabou mesmo por causar uma vítima mortal. Caso estas três missões de apoio não sejam suficientes para aliviar a população dos estragos provocados pela “maior tempestade que já tivemos”, de acordo com o IPMA, então o Exército tem outros cinco destacamentos de Engenharia em estado de prontidão, para serem enviados para o terreno assim que forem solicitados.

“O Exército informa que, no âmbito do apoio às autoridades civis e em coordenação com as entidades competentes, mantém empenhados e disponibilizados meios para resposta no terreno, assegurando ações de limpeza e desobstrução de itinerários, apoio às comunicações, reforço de energia e capacidade de acolhimento”, afirmou o braço das Forças Armadas através de um comunicado divulgado às redações.

Com uma parte da população da região Centro do país ainda sem eletricidade e comunicações, o Exército também mobilizou cinco módulos de satélite Starlink para as áreas mais sensíveis, com capacidade de fornecimento de internet, bem como “um módulo de rear link”, para reforço das ligações de comunicações.

Adicionalmente, três geradores do Exército foram transferidos para o município de Alvaiázere. Uma destas unidades foi colocada num lar, de modo a assegurar o fornecimento de energia do estabelecimento, outra foi colocada para permitir o funcionamento de uma bomba de captação de água — para evitar a escassez hídrica na região — e ainda para apoiar as operações dos bombeiros locais.

Como milhares de telhas acabaram por voar naquela madrugada de quarta-feira e, como consequência, algumas casas tornaram-se inabitáveis, tanto a Força Aérea como o Exército disponibilizaram opções para acolher provisoriamente os desalojados. Sem revelar números, a Força Aérea forneceu “kits de mobilidade” com tendas e alimentação para quem os solicitar, enquanto o Exército disponibilizou, dentro de dez unidades militares na Sub-região do Médio Tejo/Lisboa, a capacidade para alojar mais de mil pessoas. O Observador questionou a Força Aérea sobre que unidades eram, mas não recebeu resposta em tempo útil.

A chamada, o carimbo e o destacamento. Como as Forças Armadas chegam às missões de proteção civil

No terceiro dia após a tempestade Kristin ter “arrasado” o centro de Portugal, o antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, Henrique Gouveia e Melo, criticou a falta de presença militar nas missões de apoio à população. “Pelo menos nas televisões, não tenho visto nenhuma ação dos militares. Há uma certa ausência, parece-me, de resposta”, afirmou o candidato presidencial à Rádio Renascença esta sexta-feira.

“Uma das missões das Forças Armadas é auxiliar as populações em caso de emergência e esse apoio já foi prestado em situações anteriores, quer nos fogos, quer na pandemia. As Forças Armadas têm uma elevada capacidade, estão distribuídas pelo território nacional e têm essencialmente uma coisa que tem falhado agora, que é a capacidade de comando e controlo… que pode ajudar bastante para atender aos estragos que aconteceram no fruto dos intempéries”, justificou o Almirante, admitindo que “não consegue compreender” a decisão do primeiro-ministro e do ministro da Defesa de não colocar um contingente visível de Forças Armadas.

Este sábado, as críticas vieram diretamente de Leiria. “Não é preciso alguém pedir ao Exército para ir para o terreno, não é necessário à Proteção Civil pedir ao ministro da Defesa para pôr pessoas no terreno porque quem está atento, quem está solidário não precisa de ordens de ninguém, é para estar na linha da frente”, salientou o presidente da câmara, Gonçalo Lopes.

Mas como é que funciona este processo? A decisão não cabe unicamente ao ministro da Defesa nem ao chefe do Governo. De acordo com o artigo 53.º da Lei de Bases de Proteção Civil, “compete ao presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil [ANEPC], a pedido do comandante operacional nacional, solicitar ao Estado-Maior-General das Forças Armadas a participação das Forças Armadas em missões de proteção civil”. Algo que o próprio ministro Nuno Melo assinalou, em visita a Figueiró dos Vinhos na sexta-feira, onde ouviu alguns apupos.

Ou seja, num cenário de emergência, cabe ao responsável pela ANEPC contactar o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas e pedir a participação de contingentes militares em missões de apoio à população. Neste caso, os três destacamentos de engenharia do Exército foram decididos pelo Estado-Maior General das Forças Armadas, mas apenas após a Autoridade Nacional de Proteção Civil ter efetuado o pedido de participação na missão. E, a partir daí, a gestão é feita através da colaboração entre estas duas entidades, explica ao Observador o antigo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas Valença Pinto.

Mas para o pedido seguir em frente, é preciso uma decisão política. Quando a ANEPC solicita a cooperação das Forças Armadas nestas operações, o carimbo do Governo e mais concretamente do ministro da Defesa — neste caso Nuno Melo — é essencial para poder mobilizar meios militares para o terreno.

O Observador tentou contactar o Estado-Maior-General das Forças Armadas para obter mais informações sobre a gestão dos meios militares nesta missão de apoio à população após a passagem da tempestade Kristin, mas não obteve qualquer resposta até à publicação deste artigo.

A limpeza de uma base da Força Aérea e os meios ainda em “estado de prontidão”

A Força Aérea também foi afetada pela tempestade. A Base Aérea 5, em Monte Real, no distrito de Leiria, sofreu danos significativos e foi, também, nestas instalações onde se registou uma das rajada de vento mais fortes que passou pelo país (178 km/h). Com estragos por recuperar, nomeadamente em cinco F16, a Força Aérea está a utilizar, de momento, as suas máquinas de engenharia para os trabalhos de limpeza dentro da Unidade. Mas quando estas operações terminarem, estes meios serão disponibilizados para as autarquias que mais necessitarem deste apoio, garantiu ao Observador fonte oficial da Força Aérea.

A este número não esclarecido de máquinas de arrasto que estão em Monte Real podem juntar-se outros cinco destacamentos de engenharia do Exército — que se somam aos três que já estão no terreno. Adicionalmente, o Exército afirma que se encontram “prontos a empenhar” outras 20 equipas de limpeza e desobstrução, “das quais 12 equipadas com motosserristas”.

https://twitter.com/Exercito_pt/status/2017214287631073753

https://twitter.com/Exercito_pt/status/2016949796884320333

Gouveia e Melo, nas suas declarações à Rádio Renascença, garantiu que para além das capacidades do Batalhão de Engenharia do Exército e das capacidades materiais da Força Aérea, a Marinha também tinha recursos que “podem ser úteis neste momento de perigo”.

Ao Observador, fonte oficial da Marinha tinha garantido inicialmente que não existem meios da Armada a participar neste apoio à população, mas que a pedido do Estado-Maior-General das Forças Armadas, existe um pelotão da Marinha em estado de prontidão, prontos para serem destacados caso sejam requisitados pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.

Este sábado, a Marinha clarificou essa informação, anunciando uma série de apoios que está a prestar na região. Na Batalha há agora militares a trabalhar na desobstrução de estradas e outros estão com botes a ser colocados ao longo das margens do Mondego. Para além disso, foram distribuídos cinco geradores pelos municípios da Batalha, Figueira da Foz, Marinha Grande e Ourém.

Nas próximas horas, deverão partir para Leiria um grupo de técnicos de eletricidade e dois pelotões de Fuzileiros. Ao todo, estão envolvidos mais de 50 militares na operação.

O Observador tentou contactar o Ministério da Defesa e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil para obter mais informações sobre o processo de mobilização de militares para a prestação de apoio à população, mas não obteve resposta até à publicação deste artigo.

Marcelo e secretário de Estado apontam apoio para as cheias

Marcelo Rebelo de Sousa disse este sábado que as Forças Armadas vão reforçar meios no terreno devido à eventualidade da ocorrência de cheias n. “[A intervenção das Forças Armadas] ampliou-se, está a ampliar-se e agora a prioridade passa a ser as inundações. É fundamental essa intervenção logística nas inundações”, disse o ainda Presidente, na Figueira da Foz, durante a visita a diversos locais afetados pela depressão Kristin.

Lembrando que sempre foi defensor da intervenção das Forças Armadas enquanto agente de Proteção Civil, “até pela sua capacidade de mobilização”, o chefe de Estado precisou que após a deslocação para o terreno de meios militares, na sequência da depressão Kristin, em Ferreira do Zêzere e Tomar (Santarém) e Marinha Grande (Leiria), essa capacidade vai ter mais meios para prevenir consequências de inundações.

Marcelo lembrou ainda que nos incêndios de Pedrogão Grande, em 2017, os militares intervieram “e tiveram um papel importante de apoio logístico”.

“Mas, de facto, [esse apoio] arrancou alguns dias depois do momento inicial dos fogos. Estamos a tentar encurtar essa distância e antecipar a intervenção militar quando necessário”, argumentou Marcelo Rebelo de Sousa.

Já o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, frisou que o Governo está “a empenhar todos os meios da Proteção Civil, já no planeamento, na próxima semana, das cheias e inundações”, revelando “um forte empenhamento das Forças Armadas” nessas operações, em articulação com a Proteção Civil, já a partir deste sábado, com botes, dispositivos de desobstrução e outros meios para a eventual retirada de pessoas.

Questionado pela agência Lusa sobre o que significa “um forte empenhamento” das Forças Armadas em termos numéricos, Rui Rocha não respondeu. Adiantou, depois, que o Governo já sinalizou, junto das Forças Armadas, “as necessidades e os posicionamentos” necessários durante os próximos dias, estando “tudo a ser tratado em coordenação com a Proteção Civil”, designadamente na bacia dos rios Mondego e Tejo, onde, garantiu, irão estar meios dos Fuzileiros da Marinha.

  • com Lusa

*Artigo atualizado às 20h de sábado com a informação da Marinha dos destacamentos e meios que foram enviados para a região