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Leiria. Autoridades não têm registo de pilhagens mas alertam para risco de burlas e furtos: PSP ficou sem comunicações durante várias horas

Rede SIRESP falhou, obrigando a PSP a improvisar durante dia e meio. Pessoas são aconselhadas a andar a pé e não sair de carro. Mas o melhor é não sair mesmo. E ter cuidado com falsos técnicos.

Tiago Caeiro
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Acompanhe aqui o nosso liveblog sobre a passagem da depressão Kristin por Portugal

Após a passagem da depressão Kristin, as várias esquadras da PSP de Leiria ficaram sem comunicações para o exterior durante várias horas, e as comunicações internas também pararam durante um dia e meio nalguns casos — período durante o qual o SIRESP, a rede de comunicações de emergência do Estado, não funcionou. Para já, as autoridades negam a existência de pilhagens na região,  mas alertam para o perigo de estas situações poderem vir a ocorrer, bem como para furtos e para as habituais burlas a pessoas mais vulneráveis. Ao Observador, o comandante distrital da PSP de Leiria admite que a população está cada vez mais cansada e com menor tolerância.

O superintendente Domingos Antunes apela às populações “para que se mantenham em casa” e para só que saiam de casa apenas “por motivos críticos”, de preferência a pé. “Não devem sair com veículos, e, se o fizerem, só para o que for estritamente necessário. Existem objetivos frágeis, que podem cair, e circular na via publica aumenta o risco”, refere.

Dois dias e meio depois da tempestade, a eletricidade ainda não se estabilizou em toda a região. “Começamos a sentir o cansaço das pessoas, começa a diminuir a tolerância, as pessoas querem retomar a sua vida normal“, salienta o responsável, falando numa numa “devastação quase coletiva”. “Não há quase nenhum edifício que não tenha sido destelhado”, exemplifica o comandante da PSP de Leiria.

O major João Gaspar, da Divisão de Comunicação e Relações Públicas da GNR, diz estarem a ser tomadas precauções. “Estamos a aumentar a visibilidade nas zonas vulneráveis, por causa de eventuais furtos e burlas que possam surgir. Podem aparecer falsos funcionários, que se podem fazer passar por técnicos de água ou eletricidade, e apelamos às pessoas para tentarem sempre confirmar a identidade dessas pessoas”, afirma, apelando a que qualquer “movimentação suspeita” seja comunicada às autoridades.

A GNR tem realizado ações de “desobstrução de vias, de busca, resgate e salvamento”, enquanto a PSP tem respondido a diversos pedidos de socorro, e ajudado com o contacto das populações com familiares, inundações e árvores caídas.

Dezenas de agentes da PSP foram enviados para Leiria. GNR também reforçou o efetivo

Assim que se começou a perceber a dimensão dos efeitos da depressão Kristin, foi pedido um reforço do efetivo da PSP na região. De forma imediata, foram enviadas duas Equipas de Intervenção Rápida (dos comandos distritais de Lisboa e Aveiro) e 50 elementos da Escola Prática de Polícia que se mantêm no terreno para garantir a segurança de pessoas e bens, salienta o superintendente Domingos Antunes. Também a GNR reforçou o efetivo no Comando Territorial de Leiria, com a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro, garante ao Observador o major João Gaspar.

No entanto, e até ao momento, as situações de criminalidade associadas à destruição causada pela tempestade têm sido residuais. Tanto a PSP como a GNR negam a existência de pilhagens ou saques na região, embora, à Lusa, uma empresária do concelho da Marinha Grande tenha garantido que houve roubos de cablagens em empresas. A PSP refere a existência de um roubo de combustível “sem relevância” em Leiria e de duas situações de furto de tabaco num posto de combustível em Leiria e num estabelecimento na Marinha Grande. Houve ainda outras tentativas de furto de combustível que não foram bem sucedidas.

Ainda assim, e apesar de não se terem registado incidentes ou crimes de monta até ao momento, a GNR alerta as populações para o perigo de furtos ou burlas nos próximos dias, visando sobretudo as pessoas mais vulneráveis, como os idosos.

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Comando de Leiria não conseguiu contactar com esquadras durante horas “porque SIRESP não estava a funcionar”

Ficámos sem comunicações para o exterior durante várias horas. Deixámos de receber chamadas às primeiras horas [de quarta-feira]”, explica o superintendente Domingos Antunes, acrescentando que, numa solução de recurso, as chamadas foram reencaminhadas para as Caldas da Rainha, de onde, através da “rede rádio”, chegavam ao comando de Leiria.

A comunicação entre as diversas esquadras do comando de Leiria foi também afetada. Em situações de falha das comunicações, como aconteceu nos últimos dias devido à passagem da depressão Kristin, a PSP (bem como demais forças de segurança, bombeiros ou INEM) têm acesso ao SIRESP, que, no entanto, voltou a falhar, como, de resto, já tinha acontecido no dia do apagão, em abril de 2025, ou nos grandes incêndios de 2017.

https://observador.pt/2026/01/29/batalha-sem-siresp-ha-mais-de-30-horas-protecao-civil-assegura-que-casos-sao-pontuais-mas-associacoes-alertam-para-problemas-recorrentes/

A rede SIRESP é a rede de comunicações do Estado, usada para o comando, controlo e coordenação de comunicações em todas as situações de emergência e segurança, e que é usado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, pelos serviços municipais de Proteção Civil, pelas autarquias, pelas corporações de bombeiros, bem como pela PSP, pela GNR, e pelo INEM.

“Não conseguíamos contactar com as esquadras de Pombal e Marinha Grande”, refere o comandante distrital da PSP de Leiria, “porque o SIRESP não estava a funcionar”. Este sistema, que deveria servir como redundância em situações de emergência e catástrofe, não funcionou durante as horas mais críticas e só se voltou a restabelecer ao final da tarde desta quinta-feira, um dia e meio depois dos efeitos devastadores da depressão, adianta o superintendente Domingos Antunes.

O responsável salienta que a PSP tem confiança no funcionamento regular do SIRESP (que, neste caso, não se verificou) mas realça que a destruição causada pelo temporal causou danos severos nas infraestruturas. “Queremos acreditar que o sistema responde, mas as infraestruturas ruíram. No apagão, houve um desligar do sistema, desta vez as infraestruturas ruíram”, compara o comandante distrital da PSP, acrescentando que a força de segurança se viu obrigada a acionar uma solução de recurso: a comunicação em rede analógica, que permitiu o contacto com a esquadra da Marinha Grande. Contudo, esta solução não teve sucesso em relação à esquadra de Pombal, que se manteve sem comunicações até há menos de 24 horas.

https://observador.pt/2026/01/29/tempestade-destruiu-cabos-e-infraestruturas-de-telecomunicacoes-condicoes-no-terreno-e-falta-de-energia-dificultam-reposicao-de-servicos/

Na tarde desta sexta-feira, em declarações aos jornalistas, na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, a ministra da Administração Interna admitiu que os modelos de resposta a este tipo de eventos meteorológicos poderão ter de ser repensados. “Como estes fenómenos são muito exigentes e são novos, todos nós (sociedade e Estado) estamos num processo de aprendizagem quanto à melhor maneira de lhes responder e veremos se os modelos institucionais têm ou não de ser repensados“, disse Maria Lúcia Amaral, acrescentando que “para cada situação, há um planeamento de prevenção e de apoio que tem de ser decidido em função das especificidades”.

No entanto, e quando questionada sobre eventuais falhas na gestão da resposta às populações e no abastecimento de água, Maria Lúcia Amaral ‘contornou’ as perguntas dos jornalistas, salientando que a resposta do Estado perante os efeitos da depressão Kristin vai ser analisada. “Será agora altura de avaliar tudo o que aconteceu e de, a partir daí, fixar metas de políticas públicas que devem ser seguidas para que as coisas não se repitam”, realçou a titular da pasta da Administração Interna, garantindo que a população pode ter, da parte do Governo, o “compromisso firme de que tudo” será feito para “minorar o sofrimento das pessoas perante estes fenómenos climatéricos a que não estamos habituados”. Maria Lúcia Amaral classificou mesmo a tempestade — que assolou a região Centro do país na madrugada de quarta-feira — como “uma provação terrível, provocada por um fenómeno meteorológico extremo”.

Para além da falha nas comunicações, as instalações da PSP também sofreram diversos danos. Em Leiria, o edifício do Comando da polícia ficou sem parte do telhado, estando a funcionar com “limitações”, devido às infiltrações de água. O mesmo aconteceu na esquadra da Marinha Grande, que sofreu estragos e infiltrações de água, segundo Domingos Antunes. Em Peniche, algumas janelas da esquadra não suportaram a força do vento e partiram-se. Perante a falta de energia elétrica, a PSP recorreu aos geradores de emergência (fornecidos pela Proteção Civil). No entanto, na Marinha Grande, a esquadra ainda não tem água, o que tem causado constrangimentos aos agentes.

Quanto à GNR, cerca de 60% das infraestruturas do Comando Territorial de Leiria foram afetadas pelo mau tempo, mas estão operacionais, disse à Lusa uma fonte daquela autoridade policial.