Ao terceiro dia, André Ventura carregou nas críticas ao Governo. Apesar da visita ao terreno (onde vai regressar) e da recolha de bens para entregar às vítimas da tempestade Kristin, o candidato a Presidente da República não deixou de apontar o dedo à falta de prevenção e acusou os responsáveis de terem cometido erros. Contudo, aumentou a intensidade das críticas quando sugeriu que o Governo fez “muito pouco” para evitar as mortes.
Com a devastação deixada pela intempérie e a atualidade noticiosa focada no assunto, Ventura não perdeu tempo. Cancelou arruadas e trocou-as por recolhas de bens. Organizou uma sessão de esclarecimento onde praticamente só atacou a gestão de situações de calamidade e anunciou que vai regressar a Leiria, desta vez não ao centro da cidade, mas a zonas rurais.
Água, leite, atum, salsichas, conservas, comida para animais. Quando André Ventura chegou à entrada da biblioteca de Espinho já se acumulavam alguns sacos cheios de bens essenciais para distribuir às vítimas da tempestade Kristin. Com a carrinha posicionada, o líder do Chega, praticamente sozinho, carregou tudo para uma das carrinhas da comitiva de campanha, com câmaras e máquinas fotográficas a captar o momento de perto. O que não coube foi colocado no carro que anda sempre atrás do candidato com elementos da equipa de segurança.
Num pequeno discurso após o momento, reconheceu que é preciso uma pausa na “campanha política tradicional” e trocar isso por “ajudar quem está a passar mal”. “O nosso trabalho é mostrar às pessoas que somos mesmo diferentes dos outros”, alertou, pedindo às pessoas que ali estavam que continuem a ajudar. O mesmo fez à tarde, numa nova recolha de bens na Póvoa de Varzim, onde havia mais quantidade e diversidade de alimentos.
“Face ao cenário que temos e hoje temos também de condições muito adversas, em grandes dificuldades em muitos distritos do país, acho que temos de ajudar e não faz sentido fazer uma campanha normal, com arruadas, comícios, quando as pessoas estão a sofrer”, argumentou, acrescentando que se há “alguma coisa útil” a fazer é aproveitar a “visibilidade” para ajudar às pessoas. E, ao contrário do que tem feito António José Seguro — que tem estado nas regiões afetadas sem jornalistas —, André Ventura deu a entender que o fará com a comunicação social, sugerindo que também tem de fazer “o seu papel” de passar a mensagem.




Governo fez “muito pouco” para evitar mortes
Já na Póvoa de Varzim, recebido de baixo de vento e chuva fortíssima, sentou-se para responder a perguntas dos apoiantes que marcaram presença e, apesar de sublinhar que “haverá tempo de voltar à política pura e dura, ao combate ideológico e político”, regressou ao discurso das falhas do Estado. E do Governo. Já tinha dito que os assuntos são para ser falados e que não deve haver silêncio quando foram cometidos “erros”, mas desta vez foi mais longe ao sugerir que o Executivo tinha feito “muito pouco” para evitar mortes — um assunto que ainda não tinha abordado desta forma.
“O Governo sabia há dias que estava numa situação de risco elevado e fez muito pouco para evitar. Não estou a dizer que as vítimas mortais que houve, e que temos que lamentar, pudéssemos evitá-las todas. Não sei, não conheço todas as situações em detalhe. Mas, se calhar, se tivéssemos usado os instrumentos que temos, legais, técnicos, etc., para prevenir numa situação que se sabia que ia ser de altíssimo risco, tínhamos evitado vítimas mortais”, começou.
E não mais parou. Ventura disparou que em Portugal há uma “cultura um bocado de impunidade“, em que “não acontece nada” e vai buscar exemplos antigos para dar força à teoria, dizendo que “morreram pessoas nos incêndios e nas cheias” e questionando: “O que é que acontece? Nada. Não há responsabilidade nenhuma.”
https://observador.pt/programas/reportagem-observador/ventura-atira-ao-governo-tinhamos-evitado-vitimas-mortais/
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Aos olhos de Ventura, Portugal “deve ser dos países da União Europeia mais impreparados para lidar com catástrofes” e defendeu que não é assim por “total falta de recursos”. “Com o que pagamos e com o que gastamos noutras coisas, se fizéssemos isto em termos de prevenção de catástrofes e de calamidades, tínhamos um país que, pelo menos, [se] podia preparar. Mas se nem com os avisos vermelhos que recebemos o fazemos, quando é que faremos?”, questionou. Já no dia antes tinha trazido ao debate público o facto de as portagens terem geradores para continuarem a cobrar quando havia pessoas sem luz.
No dia em que visitou Leiria insistiu na mesma ideia: “Devemos ter capacidade de dizer às pessoas onde é que falhámos e o que é que vamos fazer diferente. E isso tem que acontecer já, não devemos estar sempre a falhar, crise após crise, momento após momento, e a dizer que está tudo bem. Não está, falhámos, o país falhou outra vez a estas pessoas e não devemos amenizar isso. E um político deve estar onde é exigível, que é ao lado das pessoas, mesmo quando estas pessoas estão a fazer críticas, quando estão descontentes. É assim que um político deve fazer, não se deve esconder”, argumentou.
No fundo, depois de ter perdido a luta pela crítica a Luís Montenegro — que usou praticamente os mesmos timings do que o candidato presidencial —, André Ventura optou por utilizar o Governo como um alvo direto, sempre com os olhos postos numa “prevenção que não aconteceu”.




A sugestão de auditoria à Proteção Civil
Perante os apoiantes, e depois de uma pergunta sobre auditoria à Proteção Civil, André Ventura não fugiu, não se desviou e deu força ao tema defendendo que faz sentido. “Se tudo falha a cada momento, exigir-se uma auditoria [à Proteção Civil] começa a ser, de facto, uma coisa fundamental”, atirou, justificando que “os serviços de Proteção Civil têm um serviço de auditoria, porém nunca fizeram nada, nem nunca chegaram a conclusão nenhuma”. Além disso, notou, já foram gastos “milhões de euros a procurar explicá-las”.
“Nos incêndios, cheias, na Covid-19 e agora nas tempestades, há uma coisa que é sempre certa: no dia a seguir, anunciam-se mais não sei quantos milhões de euros para estudos sobre o que é que falhou. Não inquéritos, porque isso não querem, querem é estudos para perceber onde é que falharam, para meter mais não sei quantas pessoas a trabalhar lá e a serem pagas e não chegarem a conclusão nenhuma”, acusou Ventura, “convencido” de que é preciso “mesmo uma auditoria, sobretudo na Proteção Civil”.
Criticou ainda a Proteção Civil por se ter tornado nos últimos anos “um reduto de boys and girls do PSD e do PS” — em mais uma tentativa de colar os dois partidos e se colocar como a alternativa — e um “conjunto de instituições, de organismos dentro da instituição em que as pessoas são lá postas pelo cartão partidário e em que não têm que apresentar resultados nenhuns”.
Sem fazer campanha contra António José Seguro, que não tem criticado desde que a tempestade tomou conta da atualidade noticiosa, André Ventura está praticamente despido do fato de candidato presidencial. Nos últimos dias, não fez nem disse nada que não pudesse fazer ou dizer com o fato de líder da oposição. E tem, cada vez mais, puxado a si esse fato de responsável político que tem de estar no terreno, ao lado das populações, perante uma desgraça. Mais do que como candidato, como líder do segundo maior partido do Parlamento. Mais do que isso, o presidente do Chega vai aproveitando o momento para atirar ao Executivo, a Montenegro e às “falhas na prevenção”. Está nas ruas como Ventura, o candidato presidencial. Podia estar nas ruas como Ventura, o líder da oposição. As diferenças seriam difíceis de notar.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]