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(A) :: A "campanha paralela" que Seguro garante não estar a fazer

A "campanha paralela" que Seguro garante não estar a fazer

Seguro foi três vezes a locais afetados por temporal e vai continuar. Fala com autarcas, faz propostas, agenda reuniões e envia recados. Faz campanha a dizer onde não faz campanha, sempre em campanha.

Rita Tavares
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João Porfírio
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Sem comunicação social, mas com nota do que fez em cada visita aos locais afetados pelo temporal da madrugada de quarta-feira. É assim que António José Seguro tem feito os últimos três dias de campanha, entre cancelamentos de agenda e três idas discretas à região centro do país, o candidato presidencial tem estado em contacto com autarcas e empresários dos concelhos mais atingidos. Recolhe queixas, admite falar com o primeiro-ministro para ser emissário de mensagens e agendou, para depois de eventual eleição, uma reunião com autarcas para “avaliar situações futuras”. Foi a primeira figura política a visitar Leiria — distrito onde vive — sozinho para evitar acusação de “aproveitamento político”, mas já admite levar a comunicação social. A verdadeira campanha presidencial do socialista corre noutro trilho.

O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa só visitou o local esta quarta-feira, aguardando que passasse “a fase em curso de intervenção da Proteção Civil”, segundo nota da Presidência. Quando chegou a Leiria já ambos os candidatos à sua sucessão lá tinham pisado. Seguro esteve não só em Leira (quarta-feira), mas também na Marinha Grande (na quinta-feira) e em Ourém (esta sexta). E vai continuar, segundo garantiu em declarações aos jornalistas. Vai fazendo campanha a dizer onde não faz campanha.

A agenda prevista para esta volta já era bem menos intensa do que a da campanha para a primeira, mas ainda desacelerou mais depois de quarta-feira. Nos dois últimos dias, o candidato cancelou ações por causa do mau tempo e esta sexta-feira tinha um jantar-comício marcado para Viseu. O problema é que as 650 pessoas convocadas para um comício com que o candidato tencionava, inicialmente, arrancar para um fim-de-semana mais intenso já tinham confirmado presença e a tenda gigante da Quinta dos Compadres estava lotada.

Não houve alternativa se não dar indicação aos organizadores (diretores de campanha e dirigentes do PS locais) de que a sala devia ser contida na receção do candidato que, por sua vez, não ficaria para jantar. Diria umas palavras e ia embora, por respeito às vítimas do temporal. Antes de entrar na sala, Seguro certificou-se: “Não há música, pois não?”. Entrou com palmas num volume muito baixo para o que é normal nestas situações, e sem a música que normalmente o anuncia.

Depois da entrada atípica, foi até ao palco e explicou-se: “Estava para ser um momento de grande festa de confraternização, mas uma catástrofe assolou o nosso país”.  Disse que não faria uma “intervenção política ou eleitoral” devido à “situação muito, muito grave” na zona centro, “os danos incalculáveis” e os “muitos concidadãos sem luz, água e telecomunicações”. Explicou que tem ido sozinho para ser “uma ajuda e não um estorvo” neste momento do país, mas ainda deixou uma proposta para o Governo.

A ideia de ir passando um perfil cada vez mais presidencial já estava presente na candidatura para esta segunda volta e o propósito acabou por se ajustar com naturalidade à situação do país. Ainda esta sexta-feira um dirigente socialista notava, em conversa com o Observador, que para um candidato vencedor (na primeira volta) que já não precisa (nem quer) de grande mediatização, uma semana com menos holofotes não é um problema, antes pelo contrário.

A Seguro bastou passar da salas de hotéis, faculdades ou outros espaços, onde se reunia com peritos em temas concretos — a “preparar-se” para o cargo que pretende assumir — para uma bateria de telefonemas para o maior número de autarcas atingidos pela tragédia que conseguir. Outro dirigente socialista próximo de Seguro comentou com o Observador que o candidato “foi esperto, sabe bem como é e já falou com quase todos os presidentes de câmara envolvidos” — isto em oposição à ausência Luís Montenegro, criticada por alguns autarcas como Pedro Santana Lopes que, na mesma mensagem nas redes sociais em que o revela, elogia o contacto de Seguro.

Nas visitas privadas que tem feito, Seguro vai acompanhado do seu motorista e, antes de se dirigir aos concelhos, fala com os respetivos presidentes. Já garantiu mais do que uma vez aos jornalistas que tem falado com “vários autarcas” e com “vários empresários” da região e, no local, também com os comandos da proteção civil e população: “Uma coisa é olharmos para relatórios e fotografias. outra e vermos pelos próprios olhos e sentirmos a angustia e dificuldades que as pessoas estão a passar.”

Quando questionado pelos jornalistas sobre a ida mais tardia de representantes de órgãos de soberania, aproveita logo para puxar pela sua postura: “Cada um fala por si e eu falo por mim e ajo da maneira que eu sinto. Na madrugada de terça para quarta houve uma catástrofe e eu nessa quarta-feira estava em Leiria”. Ventura também e no dia seguinte esteve a recolher alimentos. Seguro também pretende fazer o mesmo? “Distribuir comida? A proteção civil está a fazer isso”, desdenhou numa indireta ao adversário.

“Não há campanha paralela absolutamente nenhuma”, garantiu em resposta aos jornalistas durante a tarde desta sexta quando foi questionado sobre isso. “Que fique claro que não há nenhum aproveitamento político e eleitoral”, acrescentou ainda em declarações feitas depois de uma ação de campanha em Oliveira de Azeméis.

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Propostas para o Governo e um recado ao estilo Jorge Coelho

Foi também nessa altura, depois de uma visita à empresa Simoldes, que falou também dirigindo-se aos interesses dos empresários da região centro — forte precisamente na indústria de moldes. “Neste momento é necessário libertar a capacidade da construção civil, para acudir às pessoas que tiveram danos nas suas casas e também nas infraestruturas e arruamentos”, disse sugerindo ao Governo que “no âmbito da negociação do PRR, pudesse haver da parte da UE o alargamento do prazo para a concretização de algumas obras que exigem construção civil”.

À noite, em Viseu, afunilou mesmo nas empresas da região, com uma proposta que o candidato fez, durante o não-comício, para a “criação de uma linha de apoio à tesouraria das empresas que não podem laborar.” “O pior que podia acontecer é que as pessoas em casa aflitas agora também pudessem ficar privadas do seus salários”, argumentou para pedir que essas “linhas de tesouraria nessas empresas em dificuldade” possam também “apoiar instrumentos de recuperação das empresas”.

A dada altura, durante a tarde, admitiu mesmo que possa vir a falar diretamente com Luís Montenegro sobre estas ideias. Mas não é só isto que parece ter para dizer ao primeiro-ministro, sobretudo quando a dada altura das declarações aos jornalistas atira em jeito de recado que não lhe “passa pela cabeça” que o Presidente da República e o primeiro-ministro não tenham conversado, reunido, e “articulado posições” durante estes dias.

Sobretudo quando começa a evidenciar alguma inquietação com o tempo das respostas à população. Logo depois do recado, Seguro afirmou que “é importante que haja uma resposta concreta às pessoas” afetadas pelo temporal e apelou “a que se juntem todos os elementos públicos e privados para acudir às pessoas”. E também já tinha dito que depois de tudo passar, deve haver um tempo para apurar responsabilidade.” Recorreu mesmo à antológica frase de Jorge Coelho, quando se demitiu do Governo na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios (2001), para declarar que “a culpa não pode morrer solteira”.

Aliás, a primeira coisa que pretende fazer se chegar a Belém, mesmo antes da data da posse (que costuma ser a 9 de março), é reunir-se com as pessoas afetadas, a começar pelos autarcas, para estudar forma de prevenir situações como as que ocorreram esta semana. Agenda já tem, mas ainda falta a eleição.