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"The Beauty": entre "A Substância" e a mente torcida de Ryan Murphy

A nova série do criador de "American Horror Story" junta pessoas impossivelmente bonitas e inesperadamente fatais. Será o regresso do génio macabro de Murphy, depois do "acidente" que é "All's Fair"?

Susana Verde
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Para quem tem lido as minhas resenhas, deve-se ter tornado óbvio que sou algo assimétrica. Tanto rejubilo com uma maratona de Kubrick, como passo temporadas obcecada pelo Big Brother Brasil. Está nessa altura do ano, já agora. Se houver aí fãs, mandem mensagem que não tenho uma alminha com quem falar deste lado do Atlântico. E foi nessa assimetria que Ryan Murphy me apanhou. Fiquei meio pelo beicinho por ele com Glee, um “coming of age” musical, carregadinho de referências pop recheado de miúdos multi-talentosos, o que é que há para não amar?

Vai daí, Murphy atira-me à cara com American Horror Story, uma antologia de terror como nunca tinha visto em televisão. Eu, que consumi terror péssimo durante a minha juventude, uma vez que os bons filmes do género estavam em clara desvantagem na prateleira do videoclube (sim, sou assim tão velha), rejubilei com American Horror Story. Horror tão pavoroso quanto bonito (a fotografia, os cenários, o guarda-roupa…), com boas histórias, ótimos personagens bastante prejudicados da cabeça e atores do caraças.

Foi esta antologia que resgatou Jessica Lange (se nunca viram O carteiro toca sempre duas vezes, vão ver) e Angela Basset (a Tina Turner no biopic What’s Love Got to Do with It), catapultou Evan Peters (e Murphy deu-lhe mais um empurrãozinho com o protagonista de Dhamer), Sarah Paulson (odiosa em 12 Anos Escravo, perfeita em tudo o que faz) e Lily Rabe (a filha de Harrison Ford em Shrinking, uma obsessão atual). Foi onde Lady Gaga se estreou como atriz (e esse mérito ninguém lhe tira) e onde todos os atores gatos de cabelo negro e olhos azuis têm um lugar. Claramente, Murphy tem um tipo e ninguém aqui o vai julgar por isso.

https://www.youtube.com/watch?v=5bDmmK15CNY

E porque é que estou a falar de American Horror Story? Não saiu nenhuma temporada nova, certo? Mais ou menos. The Beauty, disponível na Disney+, estreou-se dia 21 de janeiro. Tendo visto os primeiros 4 de 11 episódios, diria que a nova série do criador podia bem fazer parte da antologia. Já explico porquê.

The Beauty começa com uma sequência ao som de Fire Starter dos Prodigy, o que apela instantaneamente ao meu eu adolescente caótica, e é perfeito para o que se segue. Um desfile, em Paris, protagonizado pela belíssima Bella Hadid que começa a limpar o sarampo à assistência e avança para os papparazi sem dó nem piedade, o que lhe deve ter dado especial prazer, mediática como é. Segue-se uma perseguição de mota, em que ela enverga um conjunto em cabedal vermelho, mantendo-se cheia de pinta, apesar do surto homicida. Semeia o caos e cadáveres num restaurant trés “Oh là là” e quando sai tem a polícia toda da cidade à espera dela de arma em riste e… a modelo rebenta, qual granada com pernas esguias, espalhando tripas e sangue por todo o perímetro.

Não foi uma bomba, um disparo ou qualquer engenho, foi um “eu qualquer dia expludo” nada metafórico. Que raio é que se passou, perguntam vocês? É aqui que entra a dupla de investigadores da trama. Cooper Madsen (Evan Peters, ator-fétiche de Murphy) é americano e  tem uma parceira inglesa, Jordan Bennet (Rebecca Hall, a morena de Vicky Cristina Barcelona e que entrou recentemente num dos meus episódios preferidos de The Studio). E não só fazem parelha no trabalho, como  se emparelham um no outro nas horas vagas, se é que me faço entender.

Rapidamente, descobrem que a pequena da sequência inicial não foi a única modelo a transformar-se em fogo de artificio de vísceras, havendo grande possibilidade de estarmos na presença de uma epidemia em que os afetados vão de lindos de morrer a mortos apenas. Percebe-se desde logo que o contágio não é só feito pelo sangue, como pela prática do coito. E dado que os portadores estão no topo da pirâmide do padrão de beleza, a probabilidade de contágio por intermedio de safadeza aumenta exponencialmente. E depois, sem fazer grandes spoilers, temos um multi-milionário (Ahston Kutcher a voltar do cemitérios dos cancelados, depois de ter defendido um violador) que há-de estar metido nisto até à testa congelada por botox, até porque tem um assassino a soldo no rol de colaboradores, o que nunca é grande referência de carácter.

O Assassino é interpretado por Anthony Ramos, que curiosamente conheço dos musicais In the Heights e Hamilton. Trata-se de um melómano muito particular. Um psicopata com uma pala metálica na vista que adora Phill Collins, numa clara piscadela de olho (pun intended) a American Psycho. Até agora, é para mim a melhor personagem da série. Temos também Jeremy (interpretado por Jeremy Pope, também ele vindo da Broadway), um belo de um incel que vive com a mãe, passa a vida a masturbar-se para o ecrã do computador e a cultivar ressentimento por mulheres. Resumindo, um partidaço. Passa pelo processo de embelezamento/transformação num barril de pólvora humano e serve um pouco de alívio cómico ao longo da série. Há uma conversa com um cirurgião que lhe diz que ele é apenas “um homem forte e incompreendido” ao que Jeremy responde: “Estou perdido. Preciso de um propósito. Achas que devia fazer stand-up?”. Ri-me bem.

The Beauty é uma clara alegoria às loucuras que as pessoas estão dispostas a fazer para atingirem o padrão de beleza do momento, ideia já explorada em A Substância. Não estou a dizer que é plágio ou se quiser ser mais fofinha “homenagem”, mas que é impossível não ter flashes do filme protagonizado por Demi Moore, é. Filme que me perdeu no último trecho. Eu sou pela fritaria audiovisual, que sou, mas acho que precisava de estar sob o efeito das mesmas substâncias, que a realizadora Coralie Fargeat certamente tomou durante o processo criativo, para ter apreciado aquela última parte. Quem viu, sabe do que estou a falar.

Até agora Murphy não me perdeu e conto ver a série até ao fim, até porque está a usar alguns dos seus truques habituais que mais me agradam. Serve-se do star system e dá-lhe umas ferroadas, diversas vezes. Por exemplo, quando faz uma referência a Ariana Grande, que tão escrutinada tem sido pelo seu peso. E ainda tem Meghan Trainor a fazer um pequeno papel, o que tem uma segunda leitura que pode escapar aos mais desatentos ou mais ocupados. Provavelmente, é a hipótese B e ainda bem para vocês.

Trainor começou por ser um símbolo da body positivity, com o seu êxito All About that Bass, onde  cantava “You know I won’t be no stick-figure, silicone Barbie doll”. Ultimamente, tem levado porrada a torto e a direito por ter aderido ao Mounjaro e ter ficado parecida com uma certa boneca da Mattel. É certo que curvilínea ou escanzelada, o julgamento ao corpo da mulher é um dado adquirido. A pobre da Meghan é só um exemplo disso. É por isso que me cheira que há para aí muito boa gente se ia pôr na fila para este “filtro de instagram injetável” que transforma as pessoas em posts de “Antes e Depois” instantâneos, apesar dos efeitos secundários. E se isso não põe os valores da nossa sociedade em perspetiva, devia. É um exagero? É. Mas há gente a injetar remédios para diabéticos para perder os 3 quilos que ganhou na viagem às Maldivas, o que não é muito menos distópico que isto.

Não sei se The Beauty tem tudo o que American Horror Story tinha, especialmente nas temporadas premium (Murder House, Asylum, Freakshow e Hotel têm o meu coração), mas parece-me que se está a compor. Uma boa premissa, terror extremamente gráfico, mas ao mesmo tempo profundamente estético e uma enorme dose de personagens com claros problemas. Veremos se este elenco tem unhas para tocar esta guitarra hardcore.

O que é que também temos? Cenários lindos e uma produção onde se nota que há dinheiro a rodos: Roma, Veneza, Paris, Nova Iorque, um iate sabe-se lá de onde, mas com um sol luminoso que torna ainda mais deprimente esta chuva que dura há tanto, que parece uma praga bíblica. Esperemos que o pé não fuja para o chinelo a Murphy, como aconteceu no desastroso All’s Fair. As sequelas ainda estão cá, mas este The Beauty trouxe-me à memória os momentos felizes da nossa relação. Estou a estender-te um ramo de oliveira, Ryan. Não deixes que isto fique feio.