De gravata preta e rosto fechado, Luís Montenegro preparava-se para fazer uma declaração importante ao microfone. Estávamos em agosto de 2025, os incêndios não deixavam o país descansar há 25 dias consecutivos e as críticas ao Governo eram ininterruptas — atingindo desde a alegada demora de Montenegro em assumir os comandos à sua presença na Festa do Pontal. Na mesma declaração em que anunciou apoios para os afetados, Montenegro fez um mea culpa: tinha deixado que se criasse uma “perceção” de ausência, de falta de liderança, e mesmo que a considerasse injusta tinha contribuído para ela. Era preciso correr atrás do prejuízo.
Chegados a janeiro de 2026, o problema é também climatérico e extremo, e o Governo lida agora com os efeitos de uma tempestade que fez seis mortos, deixou centenas de milhares de pessoas sem luz e comunicações e cujos impactos estão muito longe de estar resolvidos. E parte das dificuldades, no que toca à gestão política, repetem-se: com as críticas da oposição sobre a liderança de Montenegro ou a “demora” no acionamento de respostas, importa mostrar serviço e não deixar que essas “perceções” ganhem terreno. Desta vez, é preciso provar rapidez e competência sem margem para dúvidas. Mesmo enquanto é pressionado por vários players — dos partidos aos autarcas que se queixam de falta de apoio e de contactos.
Não por acaso, desta vez Montenegro teve uma abordagem diferente da que adotou nos incêndios do ano passado — quando ainda esteve alguns dias de férias (ainda que falando ao país sobre os fogos), sendo substituído pelo ministro Paulo Rangel, até ter cancelado os dias de descanso (acabaria por gozar apenas quatro). Na quarta-feira, enquanto o país acordava com as notícias dos enormes estragos da noite, o gabinete do primeiro-ministro apressava-se a divulgar um comunicado em que garantia desde logo estar a “acompanhar em permanência o impacto” da tempestade, avisando que “tal como antecipado” se tinha tratado de um “evento climático extremo, que causou danos significativos”.
Ainda assim, e apesar de nos dias seguintes ter admitido que não se esperavam danos tão “brutais”, o gabinete do primeiro-ministro fazia questão de sublinhar — como o Governo tem feito reiteradamente — que a resposta tinha sido adequada: “As consequências foram minimizadas pelos avisos atempados da proteção civil e a postura responsável e prudente da população portuguesa, que é essencial manter até indicação em contrário da ANEPC”, avisava, assegurando que estavam já a ser desenvolvidos “todos os esforços para a reposição da normalidade” (nas vias elétricas, de comunicação e transportes).
Nessa tarde, Montenegro estaria na Autoridade Nacional de Proteção Civil, em Carnaxide, acompanhado da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, para avisar que as condições climatéricas ainda não dariam espaço para respirar de alívio e admitir declarar estado de calamidade, como vários concelhos pediam e insistiam (a caminho de Leiria estavam o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, e o secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território, Silvério Regalado, para avaliar os danos).
À medida que foi ficando evidente que o impacto da tempestade tinha mesmo ultrapassado as expectativas e que milhares de pessoas se encontravam em situações dramáticas, o Governo foi-se mexendo de forma cada vez mais visível. Na quinta-feira, Montenegro decidia decretar a situação de calamidade nas “zonas mais afetadas” até domingo, tendo comunicado também que cancelaria a sua agenda externa (tinha previsto viagens a Andorra e à Croácia). Preferiria, ao contrário do que tem sido prática no pós-Pedrógão Grande (dadas, na altura, as recomendações das autoridades), visitar as zonas mais afetadas pelos incêndios e ver os danos com os próprios olhos.
A agenda chegaria rapidamente às caixas de email dos jornalistas: Montenegro estaria em Leiria pelas 12h30, em Ansião às 13h45 e pelas 15h30 em Coimbra. Mas não era só Montenegro que saía do gabinete para o terreno. O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, passou esta sexta-feira a correr as áreas mais afetadas, acompanhado por outros responsáveis: de manhã esteve com o Comissário Europeu da Energia e Habitação e a Ministra do Ambiente e da Energia na Marinha Grande.
Seguiu para uma visita ao hospital de Leiria, acompanhado pela ministra da Cultura e a secretária de Estado da Saúde; passou pela Figueira da Foz, também para uma visita ao hospital, e à tarde esteve em Pombal, numa visita às áreas afetadas do Parque Industrial. Ao mesmo tempo, a ministra da Administração Interna assistia ao briefing diário na Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. “O Governo tem agido como o órgão colegial que é, com o primeiro-ministro a chefiar“, disse a governante aos jornalistas, questionada sobre quem tem coordenado as operações.
Pelo meio do frenesim em que o Governo mergulhou, mostrando serviço no terreno, um tropeção: o vídeo que mostrava, nas redes sociais, Leitão Amaro empenhado em vários momentos de coordenação, ao telefone ou a roer as unhas. As imagens não foram bem recebidas, com muitos internautas a acusarem o ministro de não mostrar empatia ou de se autopromover com a tragédia. O vídeo foi apagado. Ainda assim, fora esse erro, desta vez a resposta foi organizada com “eficácia, responsabilidade e proximidade“, sublinha um social democrata destacado. Não podem assim existir a críticas à liderança que existiram em catástrofes anteriores? “Não vejo como”.

As críticas e as memórias do apagão e dos incêndios
Para a oposição e alguns dos autarcas afetados, a coordenação que as imagens mostravam não está a correr bem — e teve de beneficiar da influência de Marcelo Rebelo de Sousa para se tornar mais adequada. As críticas têm a ver com alguns pontos principais: a demora do Governo a declarar estado de calamidade nas zonas mais afetadas (fê-lo na quinta-feira) e colocar o sistema de Proteção Civil em estado de prontidão máxima (aqui, as versões divergem), mas também a suposta falta de planeamento para evitar danos de tão grandes dimensões, a falta de contacto com alguns autarcas ou a falta de liderança do Governo.
Esta sexta-feira, José Luís Carneiro não só reforçava algumas dessas críticas, após uma reunião com autarcas do PS por videoconferência, como recordava mesmo os episódios traumáticos anteriores em que considera que o Governo falhou ou “acordou tarde”, colando-lhe essa incapacidade de gerir e comunicar crises — “A sensação com que se fica é que o Governo mostrou novamente insensibilidade e impreparação para antever e gerir atempadamente esta crise”, apontou, lembrando que “tinha acontecido no apagão, aconteceu nos incêndios e voltou a acontecer agora”. Carneiro aproveitava até para usar a sua experiência em lidar com momentos de crise, como secretário de Estado da Administração Interna, como contraste.
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Do lado do PS e de outros partidos da oposição, o argumentário é oposto ao do Governo: o IPMA “informou a tempo e horas” sobre as características da tempestade e onde é que se faria sentir com mais severidade, frisou Carneiro, para defender que tudo deveria ter estado preparado para evitar impactos tão severos enquanto o Governo vai garantindo que as reais dimensões da tempestade eram imprevisíveis.
Para Carneiro, é preciso perceber porque é que a Autoridade Nacional de Proteção Civil só decretou e comunicou o nível máximo do estado de prontidão especial nível 4 às 16h de dia 27, ou seja, a menos de 12 horas da passagem” da depressão — “foi tarde” — e o porquê da “declaração tardia” da situação de calamidade — “devia ter sido decretada a meio de dia 28, assim que se soube da extensão dos danos”. Aqui, o Governo argumenta que em termos práticos nada teria mudado: a resposta seria, em termos de recursos disponíveis e alocados, a mesma.
O raciocínio que se faz no PSD é, de resto, exatamente o contrário da oposição: o mecanismo de prevenção funcionou; o impacto da tempestade é que foi particularmente devastador — e seria ainda pior se a resposta não tivesse funcionado. “Perante uma calamidade destas, imagine-se se não tivesse funcionado. Visto o número de prejuízos e estragos, se não tivesse existido a prevenção junto das pessoas, como teria sido…”, argumenta um alto responsável.
Há um argumento técnico que pode ajudar à tese do Executivo: esta sexta-feira, o IPMA, através do responsável Nuno Lopes, sentenciava mesmo que a tempestade será a mais forte de que há registo. Ou seja, reforçava a ideia de um evento excecional, cujos impactos não seriam totalmente previsíveis. Na mesma tarde, Marcelo Rebelo de Sousa deslocava-se a Leiria elogiando a prevenção e parecia absolver o Governo num aspeto: o problema é das “estruturas”, muitas desatualizadas, mas esse é um problema que também existe “noutros países europeus”.
A oposição tem apontado outros problemas: o Chega lembrou a repetição das falhas do SIRESP, recusando também que neste cenário possa haver “políticos desaparecidos” que não estejam “ao lado das pessoas” — segundo Carneiro, Marcelo Rebelo de Sousa foi “muito importante para que tivesse existido uma resposta do Governo que, embora tardia, fosse adequada aos alertas e às vozes dos autarcas que se fizeram ouvir durante a manhã do dia 28″. O Presidente da República terá ajudado a corrigir a rota do Governo com a sua “sensibilidade” para a dimensão do problema.
A Iniciativa Liberal também falou numa demora das decisões relevantes: “É importante não olharmos para o país como se fosse um simulacro ou um centro de estágios. Matérias tão relevantes como as reações a uma qualquer catástrofe são situações que têm de estar devidamente planeadas, devidamente acauteladas, com planos essenciais criados para lidar com estas situações”. Mais à esquerda, multiplicaram-se as críticas por falta de antecipação do impacto da tempestade e perguntas sobre os apoios devidos aos mais afetados.
Governo no terreno a avaliar danos “brutais”
Ora o Governo tem andado pelo terreno a constatar os estragos e a deixar, desde logo, uma garantia: a tempestade foi muito mais forte do que conseguira antecipar. A dimensão foi “brutal”, disse Leitão Amaro. Os prejuízos são maiores do que se tinha previsto, admitiu Montenegro. Os danos são maiores do que os causados por qualquer ocorrência com mau tempo em 2024 ou 2025, explicou o ministro da Economia, Castro Almeida, numa reunião com autarcas.
Esta sexta-feira, a ministra da Administração Interna, acusada pelo PS de ser “uma inexistência”, aparecia para resumir: o que se passou é uma “provação terrível” — e está longe de poder ser dada por terminada. Muitas das explicações fizeram eco das declarações em que o Governo explicava, há meses, a dificuldade em antecipar a dimensão dos incêndios de agosto e do clima cada vez mais extremo: “A força do inimigo foi enorme”, admitia então Montenegro. “Foram mais de 25 dias ininterruptos de severidade extrema”.
As críticas também chegaram pela voz de vários autarcas. Pedro Santana Lopes, autarca da Figueira da Foz, disse não ter sido contactado por ninguém “de atuais órgãos de soberania” (“mas não faz falta”), destacando um outro contacto: “Por telefonema e mensagem, António José Seguro. De atuais órgãos de soberania, ninguém. Mas não faz falta.” Na Marinha Grande, o autarca Paulo Vicente contou à CNN que a autarquia é que contactou o Executivo, esta quinta-feira, e que decidiu por iniciativa própria deslocar-se a uma reunião em Leiria com membros do Governo (descobriu que aconteceria pela comunicação social e quis ir pedir reforço de meios).
Em Castelo Branco, o presidente da Câmara, Leopoldo Rodrigues, disse não ter sido contactado nem pelo Governo nem por outra entidade do Estado central. “Ontem de manhã [quarta-feira] falei com um membro do Governo, alertei para a situação de Castelo Branco e para os graves prejuízos, bem como para o momento muito difícil que a Câmara e o município estavam a atravessar. Disseram-me que depois me contactariam, porque estariam a equacionar estas situações, mas não me disseram mais nada”, contou à CNN na quinta-feira. Também a autarca de Alcácer do Sal, Clarisse Campos, disse ter tomado a iniciativa de telefonar ao secretário de Estado da Proteção Civil.
Luís Montenegro respondeu a estas críticas: a ajuda “chegou antes da hora do evento”, com o nível de prontidão a ser elevado nas horas anteriores à tempestade, mas o primeiro-ministro compreende “o grito de alerta” de quem esteve e está sem comunicações, luz ou água. E disse ter estado em contacto com os autarcas “desde a primeira hora” — o que entra em contradição com os relatos já citados –, mas admitindo que pode ter havido situações em que o Governo não conseguiu dar resposta.
“À medida que o evento ocorreu, os meios foram sendo mobilizados e na medida das necessidades identificadas foram sendo ajustados”, explicou Leitão Amaro, esta quinta-feira, aos jornalistas. E admitiu algumas dificuldades: “Claro que o evento foi brutal e nessa medida causou, além de muita destruição e perda de vidas, dificuldades de mobilidade, que atrasaram reparações e socorro a populações”.
Esta resposta já acontece no pós-apagão, do qual o Governo assegurou ter retirado algumas lições e ter criado assim uma nova estrutura (CorGov) para coordenação política e de comunicação em situações de crise; o manual de procedimentos que “foi seguido e aplicado, sob a coordenação do primeiro-ministro”, coadjuvado por Leitão Amaro e com os ministros da Economia, Administração Interna, Saúde, Ambiente e Energia, Infraestruturas. Assim, o ministro defendeu que correram bem ações antecipadas como o envio atempado das mensagens de aviso à população, a não abertura de escolas e restrições de circulação e, na manhã de quarta-feira, o primeiro comunicado do Governo para estar dar informações à população.
Ajuda europeia ainda pode vir, numa “prova de superação” que não acabou
O Governo está agora, em peso, a avaliar estragos e contactar com os responsáveis no terreno, até porque falta perceber quais são os próximos passos — nomeadamente no que toca aos apoios que as pessoas e empresas afetadas receberão. Para já, não se avança qualquer número: já há formulários disponíveis para os agricultores pedirem ajuda, mas o primeiro-ministro não arriscou estimar os prejuízos, sendo que o Governo já ordenou a recolha e o levantamento de danos imediato, num trabalho que será coordenado pelas comissões de desenvolvimento regional das regiões em colaboração com municípios, proteção civil e eventualmente o INE.
Até porque este levantamento é importante em várias dimensões: até ver a Comissão Europeia confirma que o Governo não pediu ajuda, mas, como explicava esta quinta-feira Leitão Amaro, “a dimensão dos danos pode alcançar os limiares de ativação do fundo europeu de solidariedade [1,5% do PIB da região afetada] e pode haver necessidade de reforço e de certificação adicional do processo de levantamento de danos”. As várias instituições europeias já vieram garantir a sua solidariedade e disponibilidade para ajudar Portugal a recuperar.
Passados os primeiros impactos e a primeira onda de críticas, o Governo esforça-se para passar uma mensagem: o problema ainda não está resolvido e os próximos dias serão de condições climatéricas difíceis. “Se o fenómeno mais extremo passou, os efeitos desta tempestade não passaram. Prevê-se perturbações nos próximos dias, nomeadamente precipitação e riscos de cheias”, avisou Leitão Amaro, com Montenegro a falar num “aumento significativo dos níveis de chuva”.
Até ver, diz Montenegro, os impactos são “mais do que era expectável” e os portugueses continuam a ter pela frente uma “prova de superação“. Mas a prova será também para o Governo, que volta a enfrentar um fenómeno extremo e com a oposição a pedir explicações — ou, na versão do Executivo, a “aproveitar a desgraça de todos para chicana política” e a relevar “falta de maturidade” ao correr para criticar o Governo. No final se verá que versão prevalece.