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Sexo, poder e dinheiro. As tentações de Gregorian Bivolaru, o guru de “Os Segredos da Seita do Yoga”

Misturava o yoga com juramentos sobre a Bíblia e outras crenças espirituais. A história de Gregorian Bivolaru, o guru acusado de ter “pancadas sexuais” e denunciado por várias mulheres.

Mariana Marques Tiago
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Tânia Pereirinha
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Ana Moreira
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Gregorian Bivolaru sempre gostou de ter conhecimentos sobre várias matérias. A família não tinha muitas posses, por isso o jovem romeno refugiou-se nos livros como fonte de sabedoria e aprendizagem. E foi precisamente através daquilo que lia que, sozinho, se tornou um guru do yoga. Ao longo dos anos juntou milhares de seguidores, mas esteve sempre debaixo do olho atento das autoridades — das quais conseguiu fugir até 2023. É visto por antigos membros do seu movimento como um homem inteligente, mas que se deixou levar por aquilo que um dos seus antigos seguidores chama “as três tentações”: sexo, poder e dinheiro.

Foi na aldeia romena de Tărtășești, a cerca de 30 quilómetros da capital Bucareste, que nasceu o homem que viria a criar e liderar o MISA (Movimento de Integração Espiritual no Absoluto) e a ser acusado de explorar sexualmente centenas de mulheres (entre as quais portuguesas), história contada no novo Podcast Plus do Observador, “Os Segredos da Seita do Yoga”. Estávamos em 1952, num gélido mês de março, e faltavam menos de 10 anos para o início do regime ditatorial de Nicolae Ceausescu.

Gregorian Bivolaru tornou-se num jovem introvertido e curioso. Mas a família tinha poucos recursos financeiros, por isso, sempre que queria matar a curiosidade, recorria à biblioteca da aldeia para ler o máximo de livros possível. Queria impressionar os professores com o seu vasto conhecimento, dizem antigos colegas.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Apesar de não ter avançado para estudos universitários — cumprindo apenas o ensino obrigatório —, a fase final do percurso de Gregorian Bivolaru foi feita na escola secundária Gheorghe Sincai, em Bucareste. E, graças ao facto de a escola estar situada em plena capital da Roménia, conseguiu aceder às maiores e principais bibliotecas, onde se dedicou ao estudo e à leitura sobre os princípios do yoga, parapsicologia, sexologia e esoterismo, conceitos que viriam a acompanhar o resto da sua vida.

Por esta altura, Ceausescu já governava o país e os livros de espiritualidade em romeno eram muito poucos, pelo que Bivolaru se viu obrigado a traduzir livros ingleses e franceses para a sua língua materna. Mal sabia que, anos mais tarde, estas duas línguas seriam parte importante da sua vida.

Aos 15 anos, já praticava yoga com frequência. E cerca de quatro anos depois começou a transmitir os seus ensinamentos. “Em 1971, comecei a ensinar yoga. Havia uns 14 alunos. Fiz um curso daquilo a que chamei Ginástica de Yoga Psicossomática. A dada altura decidimos começar a afixar cartazes para estas aulas. Os serviços secretos [do regime], que na altura eram muito ativos, aperceberam-se. Lembro-me de que eles restringiram os telefones e acabaram por cancelar o número de telefone [que aparecia nos cartazes]”, contava o próprio numa entrevista anos depois.

Desde jovem que Bivolaru coleciona problemas com as autoridades. E foi precisamente a partir do ano de 1971 que passou a estar sob maior vigilância da polícia. Arranjou um trabalho nos correios, mas nem assim conseguiu escapar à Securitate. A polícia política romena vigiava-lhe a correspondência frequentemente e, nesse ano, encontrou uma carta que queria mandar para uma revista da República Democrática alemã. No papel escrito num inglês cheio de erros, Bivolaru dizia ser fã de “artigos eróticos alemães”. Escrevia ainda que, “infelizmente”, no seu país não existiam “artigos sexys” semelhantes, pelo que pedia que lhe enviassem num “envelope discreto” um catálogo de “fotos sexy, slides sexy, filmes sexy e revistas sexy”.

Quando é confrontado pela polícia não nega e alega precisar das fotos para “praticar yoga tantra”. “Olho para as imagens e recanalizo a minha energia sexual no sentido de alcançar um plano superior de consciência. Desta forma, consigo ligar-me à consciência universal da humanidade que é acima de tudo uma fonte inesgotável de amor”, justificou. As polémicas estavam só a começar. Cinco anos depois, em 1976, as autoridades encontram na casa de Bivolaru um álbum com 44 imagens pornográficas. O jovem de 24 anos acaba por ser detido e condenado a um ano de prisão por “posse e disseminação de material obsceno”.

Poucos anos depois, o regime de Ceausescu proíbe a prática de yoga, assim como karaté e outras artes marciais, mas Bivolaru não desistiu. “Apesar de as aulas terem sido oficialmente banidas, continuei a reunir-me em minha casa com cinco pessoas de confiança, que depois se encontravam com mais de 170 pessoas”, contou Gregorian Bivolaru numa entrevista.

Assim nascia a sua rede de confiança, um grupo de pessoas mais próximas nas quais se baseou para, mais tarde, fazer crescer o seu movimento. É assim que Daria (nome fictício) explica o crescimento gradual do movimento MISA: “Bivolaru criou um grupo, inicialmente à volta de umas 20 pessoas. E, através deste grupo, que até hoje está com ele, conseguiu crescer. Se tens 20 pessoas à tua volta que te colocam num pedestal, amanhã tens 40, daí tens mil, daí tens 30 mil. Ele tem força através das pessoas que lhe dão força a ele.”

Desde sempre que Bivolaru “teve pancadas sexuais”

Daria é romena, mas vive em Portugal há vários anos. É uma das várias mulheres que conta a sua história no novo Podcast Plus do Observador e diz que conheceu Bivolaru em 1999, quando ela tinha apenas 14 anos. Acredita que o guru se destacou significativamente na sociedade romena por ter uma mentalidade aberta para a época porque, além de yoga, falava sobre sexualidade.

Da rede próxima de Bivolaru faz parte o casal Adina e Advaita Stoian, que são vistos como os braços direito e esquerdo do guru. Assim como 0 Swami Mahalayananda. O último foi encarregue da missão de abrir a escola de yoga e tantra de Lisboa, a Natha, em abril de 2009. E os primeiros dois eram responsáveis por acompanhar e visitar com frequência todas as escolas que eram abertas Europa fora, pelo que também chegaram a visitar a escola em Portugal. É esta escola que várias portuguesas, que falaram para o Podcast Plus do Observador, denunciam ter sido a porta de entrada para uma seita que terá usado o yoga e o tantra para a exploração sexual de mulheres.

No contexto desta investigação jornalística, o Observador contactou a Natha — Escola Espiritual de Yoga e Tantra. A direção da escola recusou o pedido para uma entrevista. Mais tarde, aceitaria responder a várias perguntas, mas apenas por escrito, através de email. O Observador tentou também falar com Gregorian Bivolaru, através dos seus representantes legais, mas nunca obteve resposta.

Em resposta sobre a relação entre a Natha e Bivolaru, a escola de Lisboa alega que não tem qualquer ligação ao guru, sendo que “o mesmo não desempenha nem nunca desempenhou qualquer função na Natha”. No entanto, a escola admite seguir alguns dos seus ensinamentos. De resto, ainda hoje Bivolaru aparece referido no site da escola como “um ser absolutamente excecional, um verdadeiro mestre espiritual vivo.” A escola ceclara que essa referência deve ser entendida nesse “enquadramento filosófico e espiritual, e não como uma validação pessoal de comportamentos ou acontecimentos externos à prática e aos ensinamentos do Yoga.”

A Natha diz ainda que o casal Stoian não desempenhou qualquer função na escola. E traça uma separação entre a escola e o MISA, o movimento internacional fundado por Bivolaru: alega que a primeira tem personalidade jurídica própria e o segundo é uma organização estrangeira que promove atividades de carácter espiritual a nível internacional. No entanto, é um facto que a escola de Lisboa nasceu na dependência direta do MISA. Uma consulta às versões mais antigas da página da Natha na internet revela que, em 2012 (três anos após a fundação) o site escrevia que “A Natha, Escola Espiritual de Yoga e Tantra tem as suas origens na escola de yoga MISA. Foi fundada por Gregorian Bivolaru que tem ensinado o yoga no seu mais vasto e profundo significado desde o ano de 1971”.

A romena Daria recorda que Gregorian Bivolaru criou o MISA por volta de 1990, poucos meses depois de o regime de Ceauscescu cair. Na altura em que o ditador e a sua mulher foram executados, Bivolaru estava, mais uma vez, preso, desta vez num hospital psiquiátrico, após ser diagnosticado com “desenvolvimento paranóico da personalidade”. Mas pouco tempo depois, fruto da queda do regime, ele e outros milhares de presos políticos voltaram à liberdade.

"Bivolaru era uma pessoa muito inteligente e com muito boa memória... Era uma espécie de autodidata"
Mihai Rapcea, antigo seguidor de Bivolaru

Daria só conheceu o guru do yoga quase 10 anos depois. Agora, no novo Podcast Plus do Observador, explica que o poder do guru surgiu de forma “simples”: “Bivolaru não é nada burro, é inteligente” e sabe rodear-se das pessoas certas. Mas desde sempre que “teve pancadas sexuais”, afirma.

A romena sabe do que fala. Ao atingir a maioridade, Bivolaru decide enviá-la para o Japão, para trabalhar em casas noturnas. Foi obrigada a memorizar palavras em japonês e a aprender a dançar de forma sensual. E foi forçada a jurar sobre a Bíblia que tudo o que fosse dado pelos clientes (dinheiro, jóias ou até aparelhos eletrónicos) seria doado ao movimento. Além disso, jurou também que iria usar preservativo caso tivesse relações sexuais com outros clientes, regra que foi criada “porque muitas mulheres iam voltar para o Grieg depois”, conta. Recorre ao nome pelo qual os seus seguidores carinhosamente tratavam Bivolaru: Grieg (ou simplesmente “G”). Um ano depois, em 2004, o MISA era alvo da maior operação policial até ao momento, com 300 agentes romenos envolvidos. Em virtude desta operação surge, pela primeira vez, uma acusação de sexo com uma menor de idade, na altura com 15 anos. Bivolaru acaba por ser acusado de relações sexuais com uma menor, assim como perversão sexual e corrupção de menor, tráfico de seres humanos e passagem ilegal da fronteira (ao tentar fugir para a Hungria).

https://observador.pt/especiais/sites-eroticos-juramentos-e-iniciacoes-sexuais-com-o-guru-a-historia-de-os-segredos-da-seita-do-yoga/

Hábil a comunicar, inteligente e com muito boa memória

Todos estes acontecimentos, em simultâneo, levam a que o movimento de Bivolaru fique fragilizado. E levam também alguns membros do MISA a afastar-se. Foi o que aconteceu com Mihai Rapcea no momento em que soube que estavam a ser realizados contratos com casas de strip e bares de alterne no Japão.

O romeno começou a fazer yoga aos 16 anos, em 1991. Conta no novo Podcast Plus do Observador que o desejo de conhecer mais foi o que o “puxou” para o movimento de Bivolaru, porque pouco depois de o regime ditatorial cair já o guru tinha um conhecimento aprofundado sobre vários temas, entre os quais o yoga e a sexualidade.

É quando entra na universidade que se junta aos ashrams (as casas onde os membros do movimento viviam em comunidade). Por essa altura, Mihai Rapcea tem 20 anos, está a estudar Direito e precisa de aceder a muitos livros. Quando Bivolaru põe a sua biblioteca à disposição, o jovem nem pensa duas vezes. Conta que era um espaço grande, cheio de livros em várias línguas sobre os mais variados temas.

“Ele ajudou-me a arranjar esses livros [na sua biblioteca]. Ele interessa-se por tudo e está sempre a ler”, diz o romeno. Mihai Rapcea descreve Grieg como “uma pessoa muito inteligente e com muito boa memória” e que aprendia por si próprio: “Era uma espécie de autodidata.” O jovem conta que os membros do movimento confiavam muito nele, porque além de ter fundado o MISA e ser conhecedor de muitos temas, “normalmente dava conselhos bons e até profundos”. Além disso, tinha uma “grande habilidade em comunicar com as pessoas”, porque era bom “a lê-las”.

Uma vez que era estudante de Direito, Mihai Rapcea juntou-se à equipa legal do MISA (composta por outros membros do movimento que eram advogados ou juristas). E esse passo foi o princípio do fim do seu tempo no movimento. Devido à sua responsabilidade no movimento, Mihai Rapcea fica a saber que há contratos a ser celebrados com empresas japonesas, até porque é ele quem ajuda a criar as empresas para que posteriormente sejam assinados esses contratos.

E percebe, a certo ponto, que há empresários japoneses a ir até à Roménia escolher mulheres da escola de Bivolaru para depois trabalharem no Japão durante pelo menos seis meses. Por muito que o nome do movimento de Bivolaru não estivesse nos documentos, o jovem sabia que tudo acontecia “com a sua aprovação”.

Aparência, relacionamentos e aprendizagens: guru é o decisor máximo

Apesar de não agradar a todos, Gregorian Bivolaru e o seu movimento não páram de crescer. Grieg junta cada vez mais apoiantes, publica livros e torna-se ainda mais relevante, passando a ser procurado pelos seguidores com mais frequência. A sua opinião e a sua voz ganham cada vez mais peso e em pouco tempo o guru começa a influenciar todos os aspetos da vida daqueles que o seguem.

Os vários processos judiciais que Bivolaru vai colecionando até 2008 fazem com que o MISA seja expulso da  Federação Internacional de Yoga e da Aliança Europeia de Yoga. Mas Grieg rapidamente encontra uma forma de dar a volta à situação: cria a sua própria federação, a Atman Yoga Federation, à qual todas as escolas do movimento (entre as quais a escola Natha de Lisboa) vão passar a pertencer.

A Federação Atman foi igualmente contatada no contexto desta investigação jornalística. Não respondeu diretamente às perguntas que lhe foram colocadas, optando antes por enviar um comunicado. Nesse texto, refuta “todas as acusações levantadas contra membros afiliados, professores e alunos”. Recorda ainda que a “investigação ainda está em curso e que não há qualquer acusação, muito menos uma condenação.”

A pouco e pouco, a influência de Bivolaru aumenta cada vez mais, assim como o controlo sobre os seguidores. Na escola de yoga e tantra de Lisboa (e nas restantes que estão espalhadas pelo mundo) o guru tem a última palavra sobre tudo.  É ele quem decide se um aluno pode aprender uma nova técnica ou se pode fazer formação para começar a dar aulas na escola. Decide até se um aluno pode namorar ou mesmo a aparência que as alunas devem ter: não podem ser magras (nem demasiado gordas), devem “irradiar felicidade” e devem ser sensuais, pelo que devem usar roupa provocante.

O guru também decide que alunas podem receber certa iniciação (ou seja, aceder a técnicas exclusivas que lhes permitiam evoluir espiritualmente). E Bivolaru era o único a poder transmitir esse conhecimento de forma prática. Vera (nome fictício) foi uma das mulheres portuguesas a quem foi feita a proposta de receber uma iniciação prática por parte do guru. Um iniciação que, de acordo com o testemunho que dá no podcast, nada mais foi do que “fazer sexo nas posições e na sequência que tinha que ser”, algo que a levou a sentir-se “horrível”, conta a própria.

Aos alunos, é dito repetidamente que Bivolaru está sempre a ver tudo e que sabe tudo sobre cada um dos seus seguidores. Na lista de poderes do guru consta ainda mais um: é ele quem decide se um determinado aluno pode ou não participar no evento do ano, o acampamento de verão de Costinesti.

Costinesti: o campo de verão onde os alunos são levados ao extremo

Todos os anos, na estância balnear romena de Costinesti, reúnem-se milhares de seguidores de Gregorian Bivolaru. Para participarem, têm de se inscrever, pagar 500 euros e enviar três tipos de fotografia: de corpo inteiro, de perfil e de frente. As mulheres têm de estar em biquíni e os homens de tanga. Aos alunos é dito que é o guru quem aprova a admissão de cada pessoa, com base nas fotografias que lhe eram reencaminhadas.

Lara e Beatriz (nomes fictícios) participaram neste encontro várias vezes. No momento do check-in no campo recebiam um cartão de identificação, um programa e dois livros, com fotografias de mulheres nuas na capa e na contracapa. As duas mulheres portuguesas, que contam a sua história no novo Podcast Plus do Observador, explicam que o campo de verão é promovido como uma oportunidade de intercâmbio e de evolução espiritual, porque podem aceder a várias iniciações especiais que apenas são concedidas neste local.

Neste evento de verão há ainda um concurso, o principal evento do campo, que serve para eleger a Miss Shakti, a mulher mais especial e sensual do acampamento. Num dos anos em que vai ao acampamento de verão, Beatriz entra no concurso. Tem a duração de duas semanas e meia e é composto por várias fases eliminatórias.

Há etapas que consistem em desfiles em fato de banho, provas de talentos e até provas de cultura geral adaptadas sobre yoga e tantra. Estas são abertas a todos os participantes do campo de verão. Mas depois há algumas etapas que só acontecem em privado — e que são filmadas para Gregorian Bivolaru poder ver mais tarde.

Durante mais de 15 dias, Beatriz acaba por ser levada ao extremo. E o primeiro choque acontece ainda antes de o concurso começar, quando, depois de assinar um contrato, tira fotografias completamente nua. “As primeiras fotos são da tua yoni, ou seja, da tua vagina. Tens de te sentar com as pernas abertas, o fotógrafo está bem assim em cima de ti e a fotografia é: tiras de corpo inteiro e depois também da vagina”, relata a própria.

"Agora muitas pessoas entendem mal o que é a prática espiritual do tantra. As pessoas agora associam a beber urina e fazer sexo em grupo. E tantra não é isso"
Mihai Rapcea, antigo seguidor de Bivolaru

Convence-se de que a participação neste concurso vai fazer com que evolua espiritualmente. Por isso, durante mais de duas semanas refugia-se no mote: “Lá à frente é que vêm mais coisas boas”. Mas até lá, Beatriz vai ter de fazer uma atuação sensual perante uma plateia que vai enfrentar completamente nua, naquela que é a chamada “Noite Secreta”.

E, ainda antes disso, terá de passar uma prova mais desafiante que não consta do programa e não é aberta ao público: acabará por se envolver num encontro que acaba numa orgia sexual.

“Porque queria evoluir e queria chegar mais à frente, estava envolvida numa orgia com pessoas que eu conheço mais ou menos. E aí também entra o estado de dormência, o estado de sugestão do grupo, de já termos feito não sei quantas meditações só a ouvir orgasmos”, explica Beatriz. Todo o processo é filmado por vários homens que pertencem à equipa de media do acampamento, e que são os únicos com permissão para estar ali.

É também neste momento que começa a ser posto em prática um dos ensinamentos mais bizarros de Bivolaru: a urinoterapia. A britânica Miranda Grace, que fez parte do movimento, explica o que está em causa: “A teoria é que quando alguém faz amor desta forma tântrica especial, durante pelo menos uma hora, a água do corpo transforma-se na urina para ter diferentes qualidades. E quando outra pessoa bebe essa água consegue absorver essas qualidades positivas”.

Durante todos este momentos, é dito a Beatriz e às restantes mulheres que Gregorian Bivolaru está a ver todas as prestações, mesmo não estando no local fisicamente. E é também explicado que é o guru quem decide a vencedora do concurso.

Questionada sobre a participação de alunos em eventos do MISA, como o campo de Costinesti, a escola de Lisboa alega que “cada sócio, professor ou aluno, é livre de participar, a título pessoal, em quaisquer atividades externas.” E sublinha que “são livres e independentes” de o fazer, sendo uma “decisão estritamente individual”. A Natha diz ainda repudiar qualquer forma de violência, exploração ou abuso, ou qualquer tipo de atividade criminosa.

Ao longo dos 30 dias de duração do acampamento, nas colunas são reproduzidas gravações antigas com a voz de Bivolaru. É uma das formas de transmitir a presença do guru em Costinesti, uma vez que Bivolaru não pode ir por ser procurado pela polícia. Além disso, na chamada Vila Shakti, uma casa especial onde ficam a viver algumas participantes escolhidas a dedo, todas as meditações, iniciações e práticas são dedicadas ao guru.

Miranda Grace diz que se formavam filas à porta do quarto onde o guru alegadamente dormia no passado. “Disseram-nos que aquele era o quarto do Grieg e que a energia ali era mais intensa, porque ele ficava lá. Certas mulheres eram escolhidas para dormir naquele quarto durante uma noite. As mulheres faziam fila para meditar lá”, conta.

Um guru sem mestre que cede às tentações

Quando Mihai Rapcea percebe que o movimento criado por Bivolaru não está a seguir o caminho espiritual esperado tenta fazer-se ouvir, mas sem sucesso. Tenta explicar ao guru o porquê de não concordar com a forma como o movimento está a ser gerido e a arranjar dinheiro, mas afirma que Grieg não quer mudar a sua abordagem.

Mihai garante que o Bivolaru que conheceu inicialmente mudou e que desenvolveu uma espécie de “ego de mestre espiritual”. Era um praticamente de yoga “brilhante ao início”, mas “caiu na tentação” ao ver que era fácil controlar e influenciar os outros — e ainda mais fácil era ter acesso a mulheres, que o procuravam em busca de orientação espiritual.

O principal problema, vinca Mihai Rapcea, é que Gregorian Bivolaru “não tinha nenhum mestre” acima dele: “Ele não tinha uma linhagem; um mestre. Por isso não havia quem o castigasse ou corrigisse quando cometia erros.” Considera que o guru (e o seu movimento) caiu nas “três tentações”: sexo, poder e dinheiro. E acusa-o de ter feito com que o mundo passasse a ver o tantra com maus olhos: “É responsabilidade dele, porque agora muitas pessoas entendem mal o que é a prática espiritual do tantra. As pessoas agora associam a beber urina e fazer sexo em grupo. E tantra não é isso.”

Mihai Rapcea afasta-se definitivamente de Gregorian Bivolaru por volta de 2006, depois de o guru decidir deixar a Roménia e de não querer mudar a forma de arranjar dinheiro para o movimento. Depois de ser acusado, em 2004, de relações com menor, perversão sexual e tentativa de passagem ilegal da fronteira rumo, Bivolaru é primeiro colocado em prisão preventiva mas depois acaba por fugir. A decisão foi mal vista por Mihai Rapcea, que considera que, se o guru tivesse ficado no país “talvez agisse diferente ou as coisas mudassem”.

Nesse mesmo ano de 2004, surgem duas novas queixas por relações com menores. O Ministério Público romeno remete Bivolaru para um julgamento à revelia, uma vez que continuava desaparecido. É acusado de atividade sexual com menor, perversão sexual, corrupção de menor, trafico de seres humanos e passagem ilegal da fronteira. E uma vez mais, o guru encontra uma forma de escapar: faz um pedido de asilo à Suécia. E o país não só lhe dá um título de residência permanente como refugiado, como também lhe entrega uma nova identidade.

O julgamento à revelia na Roménia inicia-se em 2008 e só em 2013 há uma condenação: Bivolaru é condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça a 6 anos de prisão por ter mantido relações sexuais com uma menor, sendo absolvido das restantes acusações.

A Roménia emite um mandado de detenção europeu e mais tarde o guru é detido em Paris, numa feira do livro. Finalmente parece que a Justiça romena vai fazer o guru cumprir uma pena, mas isso dura pouco tempo. Em vez de 6 anos, Bivolaru apenas cumpre 1 ano e dois meses na prisão, tendo-lhe sido concedida liberdade condicional. A decisão do juíz foi influenciada por um conjunto de cartas enviadas por 12 Organizações Não Governamentais de todo o mundo, lista onde se inclui a escola de yoga e tantra de Lisboa, Natha. Questionada sobre o envolvimento nas cartas a pedir a libertação de Bivolaru, a Natha de Lisboa alega que a atual direção desconhece a carta em questão.

O guru volta à liberdade, mas nesse mesmo ano entra na lista de pessoas mais procuradas pela Interpol após ser emitido um mandado de captura por parte da Finlândia. Desde 2012 que as autoridades finlandesas vinham a investigar Bivolaru por tráfico humano, abuso de autoridade espiritual e abuso sexual de mulheres na escola de yoga daquele país.

Ainda assim, é em França que Gregorian Bivolaru é finalmente detido, em novembro de 2023. Na origem da detenção estão os relatos de 12 ex-membros do MISA, que diziam ter sido vítimas de abusos e exploração por parte de Bivolaru e do seu movimento nos últimos anos. A queixa recebida pela Liga dos Direitos Humanos de França em 2022 foi reencaminhada para a MIVILUDES, o organismo francês que tem a missão de combater desvios sectários, e a partir daí iniciou-se uma investigação por parte da Polícia Judiciária francesa. Desde 2023 que o guru está em prisão preventiva e não se sabe, até ao momento, quando será formalizada uma acusação.

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