Já passavam dois minutos do horário marcado para a primeira exibição de Melania no cinema do Cascaishopping, mas na sala havia apenas um casal e uma senhora. Os trailers corriam quando um homem de cabelos brancos entrou, com um gelado numa mão e um jornal dobrado na outra, seguido de duas mulheres que traziam um balde de pipocas. Eram sete pessoas a ocupar um espaço onde cabem pelo menos 100. “Toda gente que saber. Então aqui está. 20 dias na minha vida”, diz a primeira-dama dos Estados Unidos da América, a dar uma introdução das próximas uma hora e 45 minutos. Na longa-metragem realizada por Brett Ratner — afastado de Hollywood desde que foi alvo de acusações no meio do movimento #MeToo — descobre-se pouco de novo sobre Melania. Para além do seu gosto por Michael Jackson, o que se vê são reuniões, que às vezes parecem encenadas, com membros da organização da cerimónia de tomada de posse de Donald Trump, a movimentação frenética de Mar-a-Lago para Nova Iorque em jatos privados e cercada por seguranças, e a participação de nomes como Brigitte Macron e Rânia da Jordânia, que fortalecem a imagem que a administração norte-americana quer formar da mulher do Presidente. Nos créditos finais, a intenção fica bem clara. “Melania Trump está a reinventar a posição de primeira-dama“, lê-se, antes de aparecer uma lista de “feitos” da mulher de Trump.
“Alguns chamaram-no documentário. Não é. É uma experiência criativa que oferece perspetivas, ideias e momentos”, disse Melania na estreia em Washington D.C., de acordo com a CNN. Apesar da primeira-dama rejeitar o género, a narrativa que se vê é idêntica à de um documentário, com narração na primeira pessoa e bastidores de reuniões reais, mas talvez um pouco ensaiadas. No regresso ao grande ecrã, Brett Ratner está mesmo por trás da câmara em todos os momentos, às vezes a operar uma Super 8 — uma alusão as gravações que o pai de Melania costumava fazer na infância (e Viktor aparece a filmar com uma câmara antiga numa das cenas). Podemos dizer que o telespetador é transportado para a posição de um dos membros do staff de Melania, vendo muitas vezes a primeira-dama a caminhar de costas, com os ombros dos dois seguranças que a acompanham como moldura.
Melania gosta de Michael Jackson e vê CNN
Com livre trânsito nos bastidores da cerimónia, Brett Ratner aproveitou para apanhar alguns momentos pouco comuns. Num ensaio do discurso de tomada de posse, Melania corrige Trump, ao que o Presidente diz a rir-se: “por favor, não grave isso”. Já no jantar à luz de velas, a câmara apanha de relance Elon Musk com uma mulher ao colo. E afinal, Melania vê televisão. A primeira-dama aparece a ver as notícias sobre os incêndios na Califórnia, e antes de entrar no Capitólio para o juramento do marido como Presidente, acompanhava a entrada das autoridades pela televisão — nomeadamente, pela CNN.
Noutros momentos, Ratner faz perguntas, numa tentativa de deixar o Presidente e a sua mulher mais à vontade. Foi num destes momentos, a andar de carro por Manhattan, que acontece provavelmente o momento mais descontraído do filme. Questionada sobre qual é o seu artista favorito, Melania diz que é Michael Jackson, e depois atira que Billie Jean é a sua canção preferida. “Conheci-o em Nova Iorque com o Donald. Ele foi muito querido”. Em alguns segundos a primeira-dama já está a cantar, apesar de parecer um pouco constrangida. A música, de resto, é a forma de Ratner fazer momentos muito rígidos ganharem emoção. É, por exemplo, ao som de Gimme Shelter, dos Rolling Stones, que o filme abre, com os passos de Melania nuns Louboutin a caminhar pelos corredores da mansão em Mar-a-Lago. Mais tarde ouvimos Elvis Presley, James Brown, e Michael Jackson. Sim, duas vezes.

Donald Trump só aparece passados pelo menos 10 minutos do início do filme, numa chamada telefónica, provavelmente a 6 de janeiro, quando a sua vitória foi confirmada pelo Congresso. Da Trump Tower, em Nova Iorque, Melania liga para dar os parabéns, e chama-o “Senhor Presidente”. A partir daí o casal é filmado junto em muitas ocasiões. Uma das mais marcantes é uma reunião que antecede a cerimónia de tomada de posse. Quando, por exemplo, foi informado de que iria para o Capitólio no carro com o seu antecessor, o ex-Presidente Joe Biden, Trump disse que seria “uma viagem interessante”. Depois, o Presidente questionou o motivo de um jogo do campeonato de futebol universitário ter sido marcado para o dia da posse, e deixa a sua impressão: “provavelmente fizeram de propósito”. O momento em que Melania é mais interventiva na reunião tem a ver com a segurança durante o percurso da família até a Casa Branca. A primeira-dama questiona sobre se é seguro sair do carro, quando é informada que a equipa de segurança vai preparar locais onde o Presidente e a sua mulher poderiam cumprimentar as pessoas nas ruas. “Sei que Barron não vai sair do carro. Respeito isso. Temos que falar sobre isso”, disse Melania. Mais tarde, vê-se o momento em que o casal entra na Capital One Arena, para onde o desfile foi deslocado devido ao mau tempo no dia da posse. “Estou aliviada”, afirma Melania, que considera a arena um espaço mais seguro e que dá “paz para a alma”.
“Tens um bom vestido?”
Noutro momento da mesma reunião que precedeu a tomada de posse, Trump questiona a mulher: “Tens um bom vestido?” A primeira-dama usou boa parte destes 20 dias que antecederam a cerimónia para pensar nos looks. E revela, por exemplo, uma das provas do vestido estilo casaco azul marinho, com a presença do seu stylist Hervé Pierre, e do designer, o norte-americano Adam Lippes, que se deslocou com a sua equipa até à Trump Tower. Na prova, pede um ajuste mais direito no corpo e uma lapela maior, além de eliminar uma gola alta que o visual anterior previa. “A minha visão criativa é sempre muito clara”, afirma Melania. Já para o polémico chapéu Eric Javit que cobre parte do rosto, e que quase não foi usado, a primeira-dama pediu uma fita mais fina e o topo mais reto. No dia da posse a peça foi presa de forma bastante firme à cabeça, provavelmente o motivo pelo qual Melania não chegou a tirar o chapéu nem mesmo em ambientes interiores.


O filme também mostra Hervé Pierre a desenhar o vestido do baile de inauguração da presidência, em preto e branco. “É muito eu, são as minhas cores“, comenta a mulher de Trump. Durante as provas, Melania desce as escadas do apartamento na Trump Tower, como se estivesse a exibir uma criação no atelier de Coco Chanel. “A minha visão criativa chegou à sua versão final exatamente como eu imaginei”, diz, sobre o visual. O filme também mostra reuniões com o decorador do jantar à luz de velas que antecedeu a tomada de posse, que disse estar a usar sempre “branco e dourado, que é o seu estilo”; e com a designer de interiores responsável por organizar a Casa Branca para os Trump, um trabalho de mudança de mobiliário e limpeza que precisa ser feito em cinco horas, entre a saída dos antecessores e a chegada dos novos moradores. Há também um momento em que Melania aparece a ver currículos e fazer entrevistas para compor a equipa do seu gabinete.
Brigitte, Rânia e o luto pela mãe
Melania também aproveita para falar dos seus projetos sociais, o Be Best e o Fostering the Future, focado em crianças e na educação de jovens. É o tema que aborda numa reunião por videochamada com Brigitte Macron, que falou em francês com a primeira-dama norte-americana, e fez elogios à mulher de Trump. “Vou a qualquer lado contigo porque temos a mesma visão em muitos temas“, disse Macron, afirmando que Melania é “muito forte”. Dias antes da posse, Melania reuniu-se também com a Rainha Rânia da Jordânia, em Mar-a-Lago. O encontro pareceu mais pessoal — ao cumprimentarem-se, Rânia perguntou logo sobre o filho de Melania, que depois também quis saber como vão os filhos da Rainha. Além dos dois projetos em nome próprio, o filme mostra uma reunião da primeira-dama com uma antiga refém israelita do Hamas. Aviva Siegel encontrou-se com Melania em Nova Iorque. Foi revistada, passou por um detetor de metais e esteve sempre na presença de vários seguranças. Entretanto, a meio da conversa, quando Aviva foi às lágrimas ao falar do marido que na altura continuava preso, a mulher de Trump levantou-se do sofá para abraçar a mulher. “Vou rezar para ele não sofrer. Quando o meu marido assumir isso será a sua prioridade”, prometeu à israelita. “Sempre usarei a minha influência e poder para ajudar os outros”, diz.
O documentário também dedica uma parte considerável ao luto que Melania sente pela mãe, Amalija Knavs, que morreu em janeiro de 2024. A costureira eslovena que se naturalizou americana em 2018 juntamente com o marido, Viktor, estava doente desde o final de 2023. “Sentimos falta dela todos os dias mas vamos sentir ainda mais na Casa Branca, porque ela era parte do dia a dia”, diz a primeira-dama, que se mostra particularmente triste nas cerimónias fúnebres de James Carter, o dia em que se assinalava um ano da morte da mãe. Donald Trump chega a falar um pouco sobre a sogra para o filme, mas logo conclui: “não quero falar muito alto porque esta aqui passou um mal bocado“, diz, apontando para a mulher. No filme descobrimos que depois do funeral em Washington, Melania foi recebida pelos párocos na Basílica de São Pedro, em Nova Iorque, onde acendeu uma vela. Do lado de fora, uma pequena multidão esperava-a com os telemóveis a postos.
Curiosamente, enquanto os Estados Unidos vivem momentos de tensão com a política de repressão a imigração ilegal, o filme de Melania passa a mensagem que a primeira-dama está cercada por imigrantes. O seu stylist é francês, assim como a fotógrafa responsável pelo segundo retrato como primeira-dama, a designer de interiores veio com a família do Laos. A mulher de Trump destaca que em casa quer ter “taças do meu país” gravadas com o brasão da presidência. E quase no final do documentário, enquanto caminha em direção ao Capitólio, Melania fala no seu “caminho como imigrante”. “Não importa de onde viemos estamos ligados pela mesma humanidade”. O filme termina com a primeira-dama a destacar como pretende mudar os padrões do cargo. “Alcançarei com propósito e, é claro, com estilo”.
“Alguns chamaram-no documentário. Não é”
A estreia oficial foi esta sexta-feira, à meia-noite em Washington D.C., quando o prestigiado Trump Kennedy Center recebeu membros da administração, influencers conservadores e algumas celebridades — os jornalistas não foram convidados para a exibição. Acompanhada do marido, Melania Trump pisou a passadeira preta, parte da visão criativa da primeira-dama para o evento, num look Dolce & Gabbana, composto por uma saia midi e um casaco ajustado à cintura com botões.
“Estou muito orgulhosa do filme, as pessoas podem gostar, podem não gostar, e essa é a sua escolha”, afirmou ainda. “Conquistámos o que queremos alcançar. Para mim, já é bem sucedido. Estou muito orgulhosa do que fizemos”, disse, ao ser questionada sobre as estratégias para alavancar a produção nos cinemas, depois das notícias de que o filme foi retirado das salas sul-africanas, e que a procura por bilhetes estava baixa — no Reino Unido, até o início da semana, apenas três bilhetes haviam sido vendidos, segundo o The Guardian. Nos EUA o filme fez um milhão de euros em vendas prévias, o que se calcula poder chegar a 5 milhões de dólares no fim de semana de estreia. A sessão de estreia em Vero Beach, a uma hora de Mar-a-Lago, esgotou, assim como num cinema no estado do Missouri, avança a Wired, enquanto foram canceladas as sessões num shopping no estado do Minesota, onde dois cidadãos norte-americanos foram mortos por agentes federais durante protestos contra as ações anti-imigração.
A produção, um acordo com a Amazon MGM Studios, custou 40 milhões de dólares (35,4 milhões de euros), um valor avultado para um formato do género. Em comparação, o filme Anora, que venceu o Óscar de Melhor Filme em 2025, teve um orçamento de 6 milhões de dólares. Há ainda um orçamento de marketing de 35 milhões de dólares, de acordo com a CNN. O filme é realizado por Brett Ratner, o mesmo da saga Hora de Ponta (1998 – 2007), Hércules (2014) e produtor de O Renascido (2015). Desde 2017, quando foi acusado de assédio sexual por seis mulheres, no meio do movimento #MeToo, que o realizador não assina novos trabalhos. Melania Trump assina como produtora executiva do projeto.

Foi durante o discurso de aceitação do prémio Patriot of The Year, da Fox Nation Patriot Awards, em novembro, que a primeira-dama norte-americana falou pela primeira vez sobre a produção. “O que o mundo quer saber sobre tornar-se a primeira-dama norte-americana? Tive a ideia logo depois das eleições presidenciais. Um formato inédito no seu género, a capturar os 20 dias da minha vida antes da tomada de posse. 20 dias intensos, de transformação, de cidadã privada a primeira-dama. A equilibrar os meus negócios, a minha filantropia que olha pelo futuro, a montar a minha equipa na Casa Branca e, é claro, a cuidar da minha família”, explicou Melania. Anteriormente a Amazon já havia divulgado uma breve sinopse, revelando que a produção trazia os bastidores do planeamento da tomada de posse e a transição na Casa Branca. “Com imagens exclusivas de reuniões críticas, conversas privadas, e ambientes nunca antes vistos, Melania mostra o regresso de Trump a um dos papéis mais poderosos do mundo”.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]