Desde a sua criação, em 1971, que a Met Gala é provavelmente o evento mais esperado e exclusivo do universo fashion. Nesta noite o Metropolitan Museum, em Nova Iorque, recebe entre 400 e 600 convidados. E desde meados dos anos 1990 que todos são estritamente aprovados pela diretora da revista Vogue, Anna Wintour. O seu grau de exigência é lendário — que o diga Miranda Priesley, a protagonista fictícia de O Diabo Veste Prada, cuja inspiração não é segredo — e inclui requisitos como beleza, fama e conquistas de elevado nível de sucesso. E apesar de um bilhete poder custar 70 mil dólares, costuma-se dizer que “não se pode comprar um espaço na blue carpet“. Antes de conhecer Jeff Bezos, Lauren Sánchez trabalhou como jornalista desportiva e pivô de telejornais, principalmente na Fox, sendo também a apresentadora da competição So You Think You Can Dance — na qual a própria também dançou em algumas ocasiões. Apesar de ser uma figura pública nos Estados Unidos e ser convidada para eventos no geral, Sánchez não era definitivamente alguém com chances de aparecer no evento, muito menos na passadeira azul. Por isso, foi com alguma surpresa que o mundo recebeu a notícia, em novembro passado, que os Bezos seriam os principais patrocinadores do baile — apesar deste caminho ter sido construído aos poucos, ao longo dos últimos seis anos.


Jeff Bezos e Lauren Sánchez conheceram-se em 2016 e os primeiros rumores de romance começaram a circular em 2019. A partir de 2020, a antiga jornalista, que também é piloto de helicóptero e criou uma empresa especializada em voos para filmes, passou a ser fotografada ao lado do dono da Amazon em red carpets. E também foi a partir daí que o casal começou a ser mais assíduo em eventos de moda. Neste mesmo ano foram fotografados ao lado de Anna Wintour num desfile da Tom Ford, por exemplo. A diretora da Vogue já era uma velha conhecida de Bezos na altura — o multimilionário estava envolvido no financiamento de exposições de moda no Metropolitan Museum pelo menos desde 2012.

Com o pedido de casamento em maio de 2023, o casal parece ter ganhado uma proporção maior nos media. Neste ano estiveram num desfile da Versace na Califórnia em março, e da Staud em Nova Iorque em setembro, além de irem à festa pós Óscares da Vanity Fair — anteriormente Lauren foi à festa em 2006, grávida, e em 2011, e nas duas usou vestidos pretos. Em novembro a Vogue publicou uma grande entrevista à Sra. Bezos, curiosamente um artigo assinado pela futura editora-chefe da revista nos EUA, Chloe Malle, que assumiu o cargo depois de Anna Wintour ter anunciado a sua saída, em junho de 2025. Na conversa, Sánchez também falou de moda, e nomeou Christian Dior, Dolce & Gabbana e Valentino como as suas etiquetas favoritas.
Entretanto, até então Sánchez não parecia totalmente “dentro” do fechado círculo da moda. Até pisar a blue carpet da Met Gala, em maio de 2024. Num vestido Oscar de la Renta, que se diz ter sido escolhido pela própria Anna Wintour, Lauren Sánchez dava os primeiros passos num novo mundo.

Trump, casamento e capa da Vogue
O ano de 2025 parece ter sido a concretização daquilo que a Lauren Sánchez já vinha trabalhando desde a sua primeira red carpet com Bezos. Em janeiro de 2025, na cerimónia de posse de Donald Trump, Lauren Sánchez levou um dos looks mais comentados: um coordenado branco Alexander McQueen com um corset de renda que ficava à mostra no decote do blazer. O visual não era inédito — Sánchez usou a mesma combinação em duas outras ocasiões em 2024, incluindo uma gala de prémios da Forbes — mas dessa vez não passou despercebido, e até a Vogue destacou em manchete: “Lauren Sánchez ignora os códigos de estilo da tomada de posse presidencial com um ousado conjunto branco de calça e blazer e sutiã de renda.”




Quando em abril Lauren Sánchez levou celebridades como Katy Perry e Gayle King ao espaço num foguetão da Blue Origin, a tripulação totalmente feminina vestia uma farda especial. Cinco meses antes da missão, a agora mulher de Bezos entrou em contacto com Fernando Garcia e Laura Kim, os na altura diretores criativos da Oscar de la Renta, e fundadores da marca Monse, e pediu-lhes para desenhar fatos especialmente para esta ocasião. Ao The New York Times os designers falaram num jumpsuit “lisonjeiro e sexy”. A criação final é um fato com uma camada de compressão, um fecho que abre até a cintura, um cinto ajustado, fechos de lado nas pernas, para aumentar o efeito flare ao gosto de cada tripulante, e tons de azul mais escuros nas laterais para dar um efeito visual mais alongado ao corpo: todos pedidos de Sánchez.
Por essa altura já se especulava sobre o gigantesco casamento que aconteceria no verão em Veneza, e os possíveis looks da noiva, de Oscar de la Renta a Dolce & Gabbana. Quando em junho um batalhão de celebridades de Hollywood desembarcou nos canais da cidade italiana, a noiva fez o seu maior statement fashion até então. Foi de um vestido vintage Alexander McQueen de 2003 a um modelo de alta-costura Schiaparelli, e ainda se mostrou num conjunto clássico de saia e blazer Dior e um lenço de seda Hermès na cabeça, num estilo Audrey Hepburn. Mas para o casamento em si, Sánchez apostou num vestido sob medida Dolce & Gabbana com um design que tinha como referência o look de Sophia Loren no filme de 1958 Houseboat. Foi com esta peça que fez a sua primeira — e até agora única — capa da Vogue, na versão digital.
Durante o verão também circulou o boato de que Jeff Bezos tinha a intenção de comprar a Condé Nast, a empresa que é dona da Vogue e de outros títulos como a Vanity Fair e a The New Yorker, e que pertence à família Newhouse desde 1959. Em setembro, em entrevista a um podcast da The New Yorker, Anna Wintour comentou os rumores com o jornalista David Remnick. “Ouvi dizer que ele te ligou para falar disso”, riu-se a diretora-editora global da Vogue e diretora de conteúdo da Condé Nast. Entretanto, a biógrafa de Anna Wintour, Amy Odell, considera os rumores da compra infundados, e acredita que só cresceram dessa forma porque “as pessoas querem encontrar um motivo para esta capa da Vogue”, explicou nas suas redes sociais. Para a jornalista e escritora, “Anna e a sua equipa acreditam mesmo que Lauren Sánchez representa a nova alta sociedade”.
Odell compara ainda o que agora acontece com Lauren Sánchez com a forma como Kim Kardashian entrou no seleto círculo de moda através da Vogue, há pouco mais de dez anos. Foi Anna Wintour que colocou a socialite, que ascendeu à fama graças a um reality show, na capa da revista em 2014, ao lado de Kanye West na ocasião do casamento dos dois. Num artigo de opinião no New York Times, Odell recorda que houve quem ameaçasse cancelar a sua assinatura depois do lançamento desta capa. “Disseram-me que era vulgar, que estava abaixo de nós, a que estado estava a chegar a Vogue?”, terá dito a então diretora da revista. “Estávamos a tentar responder ao que víamos — um casal que era uma força inegável na nossa cultura e que fazia parte da conversa da altura.”
Meses depois da capa de Sánchez, em novembro, os Bezos foram anunciados como os principais sponsors da próxima Met Gala, ao lado da marca francesa Saint Laurent e da própria Condé Nast. Semanas depois Anna Wintour reagiu em entrevista à CNN, descrevendo Lauren Sánchez como “uma grande apreciadora de roupas e, obviamente, de moda”. Wintour ainda classificou a entrada do casal na organização do baile como “uma contribuição maravilhosa para o museu e para o evento”. “Somos muito gratos pela sua incrível generosidade, por isso estamos muito felizes por ela fazer parte desta noite.”
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Neste tema, a biógrafa de Wintour acredita que algumas das antigas regras da antiga diretora da Vogue têm vindo a ser quebradas, nomeadamente a de que “dinheiro nenhum compra o acesso à Met Gala”. Diz-se nos bastidores que Sánchez estará bastante envolvida na organização do evento, e para tal tem estado cada vez mais próxima de Wintour. A imagem das duas a sair do carro juntas para assistirem ao desfile da Schiaparelli, na Semana da Alta-Costura de Paris, traduz um pouco da relação entre ambas. Horas depois, no mesmo dia, juntou-se ao marido para assistir da primeira fila a estreia de Jonathan Anderson na alta-costura da Dior — num look vintage da maison francesa. Já na terça-feira, usou um coordenado de tweed Versace de 2004 para visitar o atelier da Schiaparelli na companhia de outro “novo” amigo do mundo fashion, o stylist Law Roach, considerado o “arquiteto” da imagem de figuras fortes nas red carpets, como Zendaya e Ariana Grande, o que revela uma preocupação real nos bastidores em causar impacto nas próximas aparições. Se na Met Gala de 2024 Sánchez chegou como uma espécie de infiltrada, em maio, pretende pisar a blue carpet como “a dona disto tudo”.



