Numa tarde inteira acompanhado por uma equipa do Observador, o presidente da Câmara de Leiria solta apenas dois palavrões. Não é quando vê a Igreja da Senhora da Encarnação, no cimo de uma colina, sem teto nem telhado; nem quando passa pelo estádio da cidade esventrado pela tempestade; e também não é quando se cruza com as fábricas e casas estraçalhadas, ou com as árvores e postes tombados. Já nada disso o espanta, nem pela frequência, nem pela intensidade, nem pela dimensão apocalíptica. Tudo isso já está incorporado na imagem que tem da “cidade arrasada” que compara com um “cenário de guerra”.
Os dois palavrões de Gonçalo Lopes, num misto de estupefação e desabafo, ouvem-se quando se aproxima do pavilhão dos Pousos, onde a Câmara começou esta quinta-feira a distribuir comida para quem já não tem mais mantimentos e lonas para quem já não tem parte do telhado. Já estão 60 pessoas à espera, mesmo antes de começar a distribuição, um número que o deixa em choque, face às dificuldades de comunicação e divulgação desta iniciativa. “Isto não é normal, tanta gente. E ainda agora começou… A fila que se formou ali”. A fila vai crescer ao longo de toda a tarde até atingir uma centena de moradores. Se toda a gente tivesse acesso à internet e soubesse, quantas mais pessoas viriam pedir ajuda?
A quantidade de telhados destruídos é uma das principais preocupações de toda a gente em Leiria. À dificuldade em encontrar estabelecimentos abertos a vender telhas, junta-se o problema de arranjar quem faça tantas reparações.


À medida que vai avançando entre as casas de um lado e do outro da estrada, o autarca aponta para as pessoas que estão a reparar os seus próprios telhados, em condições de segurança periclitantes, sujeitos a cair de alturas elevadas ou a ferirem-se com cortes pelo contacto com vidros partidos: “Olha aquele senhor ali… É isto, vamos ver pessoas a arriscar a vida para repor as telhas. Mas pronto, é o património deles, não é?”
Uma solução alternativa é esta disponibilização de lonas para atenuar a entrada de água nas casas, antes de dias que se preveem outra vez muito chuvosos. Desamparados e ansiosos, os residentes afetados entram no pavilhão por ordem de chegada, dizem o nome, o número de telefone e uma estimativa da área do telhado que voou. A lona é cortada ali mesmo em cima de uma mesa até ficar com a dimensão necessária. Quem usa a tesoura é o vereador do Desporto.
Os novos pelouros dos vereadores: geradores e limpeza das ruas
Foi este vereador que foi bater à porta de casa do presidente da câmara na manhã de quarta-feira, depois de a tempestade ter cortado as comunicações. Acordou-o e avisou que “a cidade estava virada de pantanas”. Gonçalo Lopes começou por achar que era mais um exagero do seu vereador. Assim que saiu de casa, dobrou a esquina e viu a montra da Caixa Geral de Depósitos rebentada, percebeu que afinal ia ser muito pior: “Isto foi mau, foi mesmo à bruta.”
Seguiu direto para o quartel dos Sapadores Bombeiros, o ponto de encontro da equipa em caso de catástrofe e perda de comunicações: “Pedi um café, fiz contas de cabeça, e escrevi num papel a distribuição de tarefas”. Mais do que isso, começou a redesenhar o resto do seu mandato até 2029. Acredita que a recuperação da cidade vai demorar tanto tempo e custar tanto dinheiro que praticamente deitou fora o programa e as promessas com que venceu as eleições para se concentrar naquilo a que já chamou “Operação Reerguer Leiria”.
Iniciou logo também uma espécie de redistribuição de pelouros informal: “O vereador do desporto vai virar vereador da limpeza da cidade. O vereador das obras particulares vai virar vereador da energia para a procura de geradores”.
Ao mesmo tempo, tentava contornar dificuldades práticas: sem comunicações, como é que ia marcar uma reunião com os 20 presidentes de junta do concelho? Dividiu-os pelos vereadores e pediu a cada elemento da sua equipa que fosse pessoalmente de carro buscar 5 presidentes de junta às suas casas.
“Agora fiquei sem telemóvel”, queixa-se o autarca à saída do quartel assim que perde o wi-fi, sentado à direita do motorista no Mercedes da câmara. Como ninguém tem rede, vai ele próprio a caminho de uma fábrica para negociar a compra de lonas, algo que em condições normais resolveria num telefonema de 3 minutos. O mesmo acontece para quase todas as operações: os geradores têm de ser alugados pessoalmente, porque não há outra forma de entrar em contacto com a empresa que é fornecedora habitual da autarquia. Uma forma de negociação tão arcaica e limitadora que leva Gonçalo Lopes a fazer comparações com o tempo dos “sinais de fumo”.
31 chamadas não atendidas em duas horas e 1200 mensagens por responder
De repente, 36 horas depois do início da catástrofe, aparece finalmente alguma rede no telemóvel do presidente da Câmara de Leiria. Está junto ao estádio, antes de subir a um helicóptero com o comandante nacional da proteção civil para sobrevoar os estragos e confirmar nesta vista aérea a quantidade chocante de edifícios com danos nos telhados.
O momento anterior em que tinha tido rede foi duas horas antes, à saída do quartel dos bombeiros, transformado no novo gabinete do autarca (o edifício da Câmara também ficou danificado no telhado). Até esta quinta-feira à noite o quartel era um dos raros sítios com rede wi-fi num raio de 70 km.
Neste intervalo de duas horas aparecem 31 chamadas não atendidas e 1200 mensagens por responder. Muita gente importante que quer falar com o presidente da câmara da capital de distrito mais destruída pela tempestade Kristin. Entre estes, muita gente com quem o autarca também precisa mesmo de falar. Mas nunca consegue, por desencontros de agenda, por falta de tempo ou pela fatalidade da ausência de rede.
Marcelo Rebelo de Sousa falou com ele duas vezes no dia da tempestade e está a avaliar o momento de se deslocar à cidade. “Atende-me sempre o telefone. É extraordinário”, elogia o autarca. Com o candidato presidencial António José Seguro falou várias vezes — conhecem-se do PS, partido de que ambos são militantes desde pequeninos. Seguro fez questão de visitar Leiria mas pediu para não se encontrar com o autarca, para não atrapalhar.




Do lado de André Ventura, que esteve na cidade esta quinta-feira à tarde, também houve um pedido de encontro, mas o presidente da câmara só o leu em cima da hora e quando já nem podia, por ter combinado para a mesma hora a viagem de helicóptero com a Proteção Civil. O líder do PS, José Luís Carneiro, deslocou-se ao quartel dos bombeiros de Leiria na noite desta quinta-feira e foi recebido pelo presidente da câmara, que a essa hora já estava livre.
Também há tentativas de contacto de parte a parte com Miguel Pinto Luz, ministro das Infra-estruturas, que pode ajudar a recuperar os sistemas de comunicações e assim voltar a colocar Leiria em contacto com o resto do mundo. Há deputados, presidentes de câmara, vereadores. Há ofertas de ajuda de autarcas estrangeiros. E há o presidente da União de Leiria, preocupado por ter perdido o estádio onde a equipa joga.
“Há secretários de Estado que são mais valiosos do que ministros, não é?
Com Luís Montenegro é diferente. Houve um primeiro telefonema na manhã de quarta-feira para ponto de situação, mas à tarde desencontraram-se. Na quinta, o primeiro-ministro deslocou-se a Leiria, para percorrer os destroços do jardim Luís de Camões, cheio de árvores de grande porte caídas a atravessar todo o recinto, como que a exibir a magnitude da destruição na zona mais nobre da cidade.
Foi também ao terminal de autocarros, que ficou com a cobertura desfeita, danificando 16 viaturas, e obrigando à instalação de um terminal provisório junto ao estádio a partir de segunda-feira. Gonçalo Lopes agradeceu a presença do primeiro-ministro, mas terá sentido que demorou a aprovar o estado de calamidade e a deslocar-se à cidade. No início da visita, tentou que ele fosse ver mais locais afetados pela destruição, mas esbarrou na agenda apertada do chefe do Governo, que ainda tinha de ir a Ansião e Coimbra.


“Hoje os governos, em geral, estão muito distantes dos reais problemas da população. E é por isso que há o crescimento das ondas populistas e do populismo, porque eles interpretam a linguagem das pessoas…”, acentua o presidente da câmara. Os primeiros governantes a serem enviados para Leiria na quarta-feira foram dois secretários de Estado. Gonçalo Lopes não desvaloriza o facto de não terem ido logo ministros: “Há secretários de Estado que são mais valiosos do que ministros, não é? A resposta dos secretários de Estado foi fantástica”.
Eletricidade. “O dano deve ser fatal e radical. O nível de transparência tem de ser maior”
A pergunta que mais vezes lhe é feita, seja em empresas que ficaram sem telhado, seja na rua quando os residentes o procuram, é: quando é que volta a eletricidade? É também a pergunta mais difícil de responder. “Eles vão plantar geradores”, diz o autarca a um empresário. Mas reconhece que isso será inútil, se houver avarias difíceis de reparar nas subestações de fornecimento de energia.
Numa nova reunião agendada com o presidente da E-Redes esta sexta-feira de manhã, o presidente da Câmara espera conseguir finalmente uma ideia mais clara sobre o ponto de situação e prazos previstos para a resolução do problema. “O dano deve ser fatal e radical”, teme. E admite que não está a ser bem explicado à população: “O nível de transparência tem de ser maior, tem.”
Apesar das promessas de empenho, nenhum responsável se compromete com prazos para o restabelecimento integral da energia. Num primeiro momento apontou-se um horizonte de 48 horas, mas a situação aparenta ser mais complexa. Luís Montenegro disse mesmo que não ia adiantar nenhum prazo para não frustrar expectativas, caso não seja cumprido.
“O limite está a esgotar-se”, admitia Gonçalo Lopes esta quinta-feira à tarde. “Depois da primeira noite sem luz e sem água, amanhã [hoje] não tomam banho outra vez, não sabem onde comer, há muita gente que utiliza eletricidade em vez de gás, e portanto tem o sistema completamente parado. Vamos entrar num modo em que a cada dia que passa cresce a tensão.”

Uma decisão importante a ser tomada esta sexta-feira é se há condições para reabrir as escolas no início da próxima semana. Vários estabelecimentos de ensino ficaram danificados e precisam de reparação. “A decisão vai depender da reposição da eletricidade. Se não houver eletricidade, não há escola. Mesmo que haja eletricidade, há escolas que não vão abrir, porque estão estragadas.”
Já há empresas em que os funcionários se organizam para ficarem a tomar conta dos filhos dos colegas, mas enquanto não houver escola muitos pais não conseguirão ir trabalhar, o que se junta à necessidade de reparar os edifícios. “Vamos ter a economia parada, mas não é a nossa, é a do país, porque é daqui que saem estruturas metálicas para fábricas, empresas de construção, tudo o que está a ser afetado”.

Apesar de tudo há finalmente anúncios que dão alguma esperança à capital de distrito. Está previsto que nas próximas horas várias freguesias consigam restabelecer o fornecimento de água, com a ajuda de geradores. E ao início da noite desta quinta-feira, a luz e a rede móvel começaram a chegar a algumas zonas de Leiria, embora ainda com alguma instabilidade nas ligações.
Gonçalo Lopes diz que dormiu “uma horita, talvez” na primeira noite a seguir à tempestade. Ficou no quartel dos bombeiros a tentar reencaminhar alguns pedidos de ajuda que lhe chegaram pelas redes sociais, de pessoas que estão fora do país e não conseguem estabelecer contacto com os seus familiares que vivem na região. “Dentro do drama que estamos a viver, foi um milagre isto não ter acontecido numa hora de trabalho.”
“Já há luz, já há luz, já há luz”. O primeiro restaurante a reabrir em Leiria
Miguel Faria, gerente do restaurante Taberna Nova, teve muita sorte quando escolheu a localização do seu restaurante, em frente ao quartel de bombeiros. Percebeu isso mesmo nesta quinta-feira ao fim da tarde.
Tinha pedido um gerador ao avô apenas para não deixar estragar a comida que tinha congelada no momento da tempestade. Esteve uma hora e meia na fila de um posto de abastecimento nos Pousos, a 3 km da cidade, para conseguir comprar gasolina.
Estava no restaurante a colocar combustível no gerador ainda a preparar tudo quando ouviu um som mágico: a câmara frigorífica a ligar-se. Depois as luzes, uma a uma, “tin, tin, tin, tin”, imita ele. A mulher de Miguel estava na cozinha do restaurante e ele correu eufórico para ela, a saltar, a gritar e a exultar: “Já há luz, já há luz, já há luz.”
Miguel Faria beneficiou de ter o restaurante na rua do quartel dos bombeiros, onde um gerador da E-Redes começou a abastecer provisoriamente de eletricidade algumas casas e estabelecimentos à volta.
“Quando a luz voltou, foi mesmo um momento de felicidade”, diz ele, como se precisasse de mais legendas — depois de 36 horas às escuras, em que já estava a preparar-se para ir às Caldas da Rainha ou mesmo a Lisboa “matar saudades de uma refeição quente e aconchegante”. Acabou por ser ele a proporcionar esse momento aos clientes que lhe encheram o restaurante e a esplanada. Não conseguiu ligar aos funcionários, ainda por falta de rede, mas foi a casa buscá-los para reabrir o estabelecimento neste mesmo fim de tarde.

E foi assim que dezenas de pessoas puderam voltar a sentar-se numa esplanada ou num restaurante em Leiria, a comer uma refeição quente, a beber uma cerveja ou um café, a ver um jogo de futebol na televisão e a scrollar nas redes sociais, como nos bons velhos tempos antes da tempestade que isolou esta capital de distrito do mundo. Muitos aproveitaram também para carregar os telefones e comunicar finalmente com os familiares e amigos que vivem fora da região, confirmar ou surpreender-se com quem se preocupou com eles, e eventualmente responder às mensagens a tranquilizá-los com uma frase sentida ou um emoji de alívio.
Entre todos os clientes, havia uma especial neste dia, em que celebrava o aniversário. Ana Beatriz não estava com disposição para festas, depois de todo o negrume em que Leiria mergulhou nas últimas horas. Apesar de ser a menina dos anos, preparava-se para se deitar cedo como se isso aumentasse a possibilidade de isto ser tudo um sonho mau. Sem aviso, viu luzes a acenderem-se nos prédios do outro lado da rua, incluindo as do primeiro restaurante que reabriu depois da tempestade, e veio jantar fora com a família — para festejar o aniversário e agradecer esta prenda que já tardava: a luz.