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(A) :: “Não há uma coisa que não aconteça neste concelho.” Em Figueiró dos Vinhos, desta vez “a chuva não deu tréguas”

“Não há uma coisa que não aconteça neste concelho.” Em Figueiró dos Vinhos, desta vez “a chuva não deu tréguas”

O concelho, como muitos, ficou sem eletricidade, sem comunicações e, em algumas freguesias, sem água. Esperam-se dificuldades na realização das eleições presidenciais e muitas inundações.

Martim Andrade
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Tomás Silva
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Alfredo vive no estado norte-americano da Nova Jérsia há cerca de 20 anos. Já a pensar na reforma da indústria de demolição de pontes dentro de um ano, comprou uma casa em plena Serra da Lousã. Há cinco anos, o investimento foi feito com a ambição de regressar permanentemente a Portugal. No início de janeiro, Alfredo chegou e começou a mobilar a futura residência. Terminou a cozinha e os móveis chegaram todos no início desta semana, quando ninguém adivinhava que o presidente da Câmara Municipal do concelho onde reside pediria socorro ao Governo na sequência da tempestade Kristin. A casa de sonho de Alfredo ficou “completamente arrasada”.

“Nós não temos possibilidade nenhuma de falar com o exterior e estamos neste momento a pedir socorro“, afirmou à agência Lusa Carlos Lopes, o autarca de Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria. Tal como muitos outros concelhos na região Centro do país, este ficou completamente isolado dos outros, sem eletricidade, sem comunicações e, em algumas freguesias, sem água. Centenas de habitantes viram as telhas das suas casas a voar ao longo daquela madrugada, expondo-os ao frio e à chuva que acabou por fazer sentir-se no dia seguinte.

O concelho está uma lástima“, confessa ao Observador um morador que se deslocou ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos, para alertar as autoridades sobre os danos que Kristin deixou em sua casa. Como os restantes fregueses, “não tem vergonha” de descrever o “medo” que sentiu na noite da tempestade.

No dia seguinte à passagem dos ventos que “varreram” o concelho, foram as chuvas que dificultaram a vida aos moradores. “A situação em Figueiró dos Vinhos continua preocupante. Isto porque a chuva não dá tréguas e porque continuam a afluir [pessoas] aqui ao quartel dos bombeiros em busca de ajuda para procurarmos, em conjunto, solução para que possam ter as suas casas minimamente habitáveis neste momento”, afirmou o autarca Carlos Lopes num balanço feito ao Observador.

Ao longo da manhã de quinta-feira, dezenas de pessoas entraram e saíram daquele quartel, sempre com o mesmo objetivo: avisar a Câmara do estado em que se encontravam as respetivas casas e pedir ajuda para que lá possam pernoitar. Mas as freguesias que compõem o concelho estão a alguma distância entre si. É preciso atravessar muitas curvas entre os vales da serra, subir e descer, até chegar à povoação mais próxima. Quando a Kristin passou por Figueiró dos Vinhos, deixou dezenas de pessoas completamente isoladas, uma vez que árvores, postes elétricos e até rochas bloqueavam os acessos às habitações nos locais mais recônditos do município.

Esses efeitos continuam visíveis no dia seguinte. As estradas, agora desobstruídas depois de uma longa noite de esforços do corpo de bombeiros, mostram os vestígios da tempestade que por ali passou. “Eu tenho 60 anos, não me lembro de algum dia o nosso concelho ter passado por uma provação destas”, confessou o autarca. Nas ruas, apesar do “trabalho incansável” das autoridades municipais, notava-se claramente que Figueiró dos Vinhos tinha sido um dos concelhos mais afetados do país.

Sem eletricidade, sem comunicações e (quase) sem água: como o quartel de bombeiros se tornou no centro de operações de gestão de emergência

Ao cruzar a fronteira a sul do distrito de Leiria, todos os dispositivos móveis perdem a conexão à rede. Mesmo um dia inteiro depois das fortes rajadas terem fustigado Figueiró dos Vinhos, continua a não haver comunicações na larga maioria do território. Até ao quartel dos Bombeiros Voluntários, acumulam-se as placas de trânsito derrubadas no chão.

À porta está um gerador, que foi deslocado desde o edifício da Câmara Municipal e fez do quartel o centro de todas as operações relacionadas com a recuperação da tempestade. “Nós estamos sem energia, nós estamos sem comunicações, nós estamos sem água já em alguns pontos do concelho, nós estamos isolados e, naturalmente, eu não posso deixar de lamentar, enquanto autarca, que só hoje [quinta-feira], a partir do meio da manhã, é que nós começámos a ter alguma atenção por parte das entidades competentes. Isto deixa-me muito perplexo, deixa-me, se quiser, revoltado“, atira Carlos Lopes.

Foi só o contacto com o Secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, na quarta-feira, que deu algum sentimento de esperança ao autarca. O governante conseguiu enviar dois geradores: um para o posto da GNR e outro para alimentar o Centro de Saúde. Até perto das 13h de quinta-feira, o primeiro ainda não estava a funcionar, mas as operações no Centro de Saúde já estavam “normalizadas”.

Temos a expectativa de, até ao final deste dia, finalmente, começarmos a ver, aos poucos, o nosso território recomposto e assumido“, desejou o presidente. “Montámos o gerador, temos o sistema satélite e conseguimos comunicações por aí, o que foi fundamental. Por isso, foi importante centrar todos os serviços essenciais no quartel”, acrescenta Jorge Martins, comandante dos Bombeiros Voluntários de Figueiró dos Vinhos.

A prioridade foi desimpedir as vias que dão acesso à capital do concelho. “Começámos às 5h de quarta-feira e, entre bombeiros, Proteção Civil e alguns voluntários que vieram ajudar, conseguimos, até à noite, libertar minimamente todas as acessibilidades principais para que conseguíssemos ir ter com as pessoas numa possível situação de urgência, ou até mesmo para conseguirem sair de casa e vir até à vila, ao supermercado”, congratula-se o comandante local.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

As ruas encheram-se de carros estacionados junto ao quartel, que partilha o gerador com o Café Maçudo. São tantos os que  sobem os degraus, tapados com pedaços de cartão empapados em água, do quartel como os que se juntam no balcão e à porta do café, o único a funcionar em Figueiró “por enquanto”, reconhece a funcionária.

Ao mesmo tempo, no miradouro do Cabeço do Peão, o outrora “ex libris paisagístico” do concelho, dois homens tentam reestabelecer a ligação da antena que ficou ligeiramente torta após a passagem da depressão Kristin.

Na colina onde se ergue uma capela construída no início do século XX, o cenário mudou radicalmente. “É uma mata de 35 hectares e não sei se haverá lá meia dúzia de pinheiros de pé neste momento. É um exemplo daquilo que foi a destruição de todo um património paisagístico que nós agora vamos ter de recuperar, mas que vai demorar naturalmente muito tempo”, diz ao Observador o autarca Carlos Lopes.

De incêndios a tempestades. “Não há uma coisa que não aconteça neste concelho”

Não é preciso andar muito desde o quartel dos bombeiros voluntários de Figueiró para verificar os estragos. No início da rua do Tribunal, onde se situa também a Casa da Criança e o museu da cidade, a Escola Básica José Malhoa não escapou ao mau tempo. Além da árvore secular que agora ocupa metade da estrada, outra do mesmo porte caiu sobre uma das grades que circunda o estabelecimento.

Não se sabe quando é que a escola poderá reabrir. As crianças que frequentam o primeiro ciclo do ensino básico estão em “pausa letiva”, refere a responsável pela Ação Social da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos. “Estavam planeadas reuniões de avaliação esta semana, mas não sei como é que vão fazer uma vez que não há internet, não conseguem aceder ao sistema”, explica Fátima Carnoto ao Observador.

Mas a escola é apenas um exemplo de mais um obstáculo colocado pelas leis da natureza sobre aquela região, continua. “Não há uma coisa que não aconteça neste concelho”, desabafa Fátima Carnoto. Lembra-se dos incêndios que lavram todos os anos — com uma especial menção ao grande incêndio de 2017, que conta com pessoas de Figueiró dos Vinhos entre as vítimas mortais. “A população está marcada e agora estão a reviver os momentos mais traumáticos”.

Também Carla Pereira, presidente da Junta de Freguesia de Aguda, recorda os fogos enquanto tenta minimizar o número de ocorrências em preparação para a segunda noite desde a passagem pela tempestade Kristin. “Acho que com os incêndios a situação não foi tão complicada, excluindo claro o facto de ter morrido gente. Foram afetadas principalmente casas secundárias. Não ardeu tanta coisa”, afirma.

O pesadelo que nasceu dentro da casa de sonho

Com uma grande parte dos munícipes com partes dos telhados em falta devido às rajadas a mais de 200 km/h que por ali passaram, Carlos Lopes explica ao Observador que a Câmara começou, no rescaldo da tempestade, a fornecer plástico e outros materiais para impedir provisoriamente a entrada nas casas da chuva torrencial que caiu durante toda a noite.

Foram montadas várias equipas que, ao longo dos últimos dois dias, têm andado casa a casa a ver os danos provocados pela depressão Kristin. Uma delas bateu à porta de Alfredo. Neste caso, a Câmara dificilmente conseguiria arranjar uma solução que conseguisse ajudar a afastar a água da chuva de dentro da casa do emigrante. “Foi o telhado todo a voar, a janela está partida… Isto encheu tudo”, aponta Alfredo.

O caso não foi único. No topo daquela colina, completamente exposta aos ventos que vieram de leste, todas as casas tinham danos visíveis nos telhados e nas janelas. O carro da cunhada de Alfredo — que lhe havia sido emprestado durante o mês que contava estar por Portugal — ficou com um vidro partido. No sótão daquela casa que aparentava estar nas primeiras etapas de construção, era onde o dono planeava colocar os quartos dos filhos. Passou o dia, a noite e novamente o dia, com a sua mulher Lurdes, a retirar a água do futuro lar.

Desde as três da manhã de quarta-feira que não durmo“, conta Alfredo, ao apontar para as roupas ainda húmidas que usa há mais de 35 horas. Desde a passagem da Kristin, o também entusiasta de fotografia Alfredo “não tem feito outra coisa” que não colocar alguidares por baixo das brechas deixadas pela ausência de telhas e transportar baldes cheios de água da chuva desde o sótão até à varanda, onde os despeja.

Alfredo começa a fazer contas àquilo que terá de substituir na sequência dos danos provocados pela tempestade, que já chegaram a 50 mil euros de prejuízo. Neste lamento, recorda o trabalho altamente físico que faz nos Estados Unidos da América e que, neste ofício, um colega acabou por morrer em dezembro. A sorte, nos últimos meses, não tem estado do lado de Alfredo.

Há quatro meses, quando ainda estava na América, arrombaram-me a porta e roubaram-me tudo“, confessa. O assalto em Portugal obrigou Alfredo a vir mais cedo do que esperado, uma vez que só consegue vir no inverno, por motivos profissionais. Sem sucesso na tentativa de descoberta dos autores do crime ou dos objetos furtados, viu-se forçado a ter de voltar a mobilar a casa. E, no dia em que a mobília nova chegou e foi montada, a tempestade Kristin soprou as telhas do seu telhado, o teto da “casa do forno” e ainda parte do vidro de uma porta que dá acesso à varanda.

Além disso, quando o carro da cunhada que andava a conduzir ficou sem o vidro, procurou ir arranjar os estragos à cidade de Leiria. Uma viagem que normalmente nem chega a uma hora demorou cinco e nem conseguiu chegar ao destino final. Como a grande maioria das bombas de gasolina do distrito estão inoperacionais, o carro que guiava acabou mesmo por ficar sem combustível e, por isso, teve de ficar pelo caminho e chamar um táxi para regressar a casa.

Sem condições para pernoitar na própria casa que ainda sonha um dia tornar no seu lar após a reforma, Alfredo teve a opção de ir para a Santa Casa da Misericórdia, como medida da Câmara Municipal, mas decidiu ficar com os vizinhos, que têm passado o dia a ajudar na remoção de água do sótão e das restantes divisões da casa de Alfredo. “Não sei o que acontece agora”, desabafa, quando questionado sobre possíveis apoios municipais ou coberturas do seguro.

As dúvidas para as eleições, o centro de saúde fechado e o “medo” da “próxima tempestade”

Em casa de Alfredo, circula um vídeo gravado no centro de saúde de Aguda, uma freguesia a poucos minutos daquele local. De acordo com as contas de um dos vizinhos, não chega a uma viagem de cinco minutos de carro. Sem GPS, o trajeto foi bastante mais longo.

“É só descer a rua e subir após o viaduto, antes de virar para o IP8”, descreve um vizinho que se preparava, como outros, para retirar baldes de água das divisões do lar de Alfredo. Logo à entrada da freguesia de Aguda, são notórios os danos nos telhados — como na grande maioria do concelho —, mas os estragos foram maiores nos complexos oficiais da Junta. É precisamente à porta da sede da freguesia que permanece a presidente, acompanhada por uma pequena equipa que se mobilizou para reduzir o impacto causado pelos ventos fortes da madrugada de quarta-feira.

Horas depois de a chuva ter terminado, o chão da junta de freguesia de Aguda ainda estava molhado. Na sala ao lado, os funcionários tentavam salvar os documentos oficiais da freguesia presidida por Carla Pereira. “Tirámos a contabilidade dos últimos anos, registos de cemitérios, o computador, registos de óbitos“, conta. Apesar de terem conseguido resgatar uma boa porção dos documentos, “muita coisa já estava estragada” quando ali chegaram.

À porta do edifício da Junta de Freguesia, vê-se um cartaz afixado com referência à segunda volta das eleições presidenciais de dia 8 de fevereiro. Com alguns dos munícipes já inscritos para o voto antecipado, que será já este domingo, a presidente admite que é provável que não se consigam formar as mesas de voto a tempo do primeiro dia de fevereiro. “Já nem tenho acesso aos boletins”, confessa ao Observador, afirmando estar à espera de indicações adicionais do presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos.

Ao lado desta estrutura de um andar, encontra-se outro semelhante: o centro de saúde. Mesmo com a população mais envelhecida naquela freguesia, este espaço encontra-se fechado quase todos os dias da semana. É apenas à quinta-feira, todas as semanas, que o médico se desloca desde a capital do concelho até Aguda para as consultas de rotina marcadas pelos fregueses. Se for um caso urgente, explica a presidente, têm de se deslocar até ao centro de saúde de Figueiró dos Vinhos.

Porém, apesar de ser quinta-feira, o centro de saúde em Aguda não está aberto. À semelhança do edifício da junta, existe um grande buraco no telhado, também provocado pelos ventos fortes da Kristin e que deixou a água entrar. Tudo ficou inundado.

Enquanto a equipa da junta tenta tapar o buraco com uma tarja, Carlos, um freguês, diz ao Observador que os danos não se cingiram àquela zona mais exposta aos ventos. Em sua casa, cerca de 100 metros a subir desde a sede da junta, os alguidares continuam colocados no chão para apanhar as pingas que não pararam de correr do teto desde a noite de quarta-feira. “Consegui colocar umas telhas para tapar o buraco que ficou, mas não consegui arranjar umas do mesmo tamanho”, aponta.

Ao lado da sua casa — cuja ligação ao poço foi cortada —, um barracão onde Carlos diz guardar “cebolas, batatas e os animais” também ficou parcialmente a descoberto. Mas o que estava no interior não se perdeu e, com a ajuda de outra tarja, os produtos mantêm-se secos e as galinhas continuam a cacarejar.

Frente à junta de Aguda, discutem-se os dias por vir, a previsão de uma nova tempestade no início da próxima semana e os efeitos que uma réplica da Kristin poderá ter numa freguesia já fragilizada. A última já foi semelhante a “uma bomba”, teme um morador. “Se [a próxima] é mais forte, então…”