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Dicionário meteorológico. 10 conceitos para compreender os fenómenos atmosféricos vividos em Portugal

Ligados à dinâmica das massas de ar, fenómenos como ciclogénese explosiva, "sting jet", DANA e "downburst" explicam os ventos fortes, as chuvas intensas e as tempestades violentas que afetam o país.

Manuel Nobre Monteiro
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Nos últimos anos, e especialmente no outono e no inverno, Portugal tem sido afetado por fenómenos meteorológicos extremos. É o caso da depressão Kristin, a terceira de um longo comboio de tempestades que atravessou a Península Ibérica e provocou 6 mortos, dezenas de feridos e milhares em danos.

Para além dos nomes mais conhecidos, como o dito comboio ou carrossel de tempestades e os rios atmosféricos, há processos físicos conhecidos que explicam a violência de alguns destes fenómenos meteorológicos. A conjugação de vários mecanismos atmosféricos num curto espaço de tempo, como é o caso da ciclogénese explosiva, o sting jet, o jet stream, a chegada de várias massas de ar, e ainda o efeito Fujiwhara, as DANA’s e até o downburst que levou aos fogos mortais de Pedrógão. Eis dez conceitos para entender os fenómenos meteorológicos vividos em Portugal.

Ciclogénese explosiva (ou tempestade/ciclone bomba)

A ciclogénese explosiva é um termo usado para descrever a formação e intensificação extremamente rápida de um ciclone extratropical, ou de uma depressão atlântica, fenómenos típicos das latitudes médias, como o Atlântico Norte, onde Portugal se insere. Em termos simples, ocorre quando uma depressão se forma e se torna muito intensa num curto espaço de tempo, aprofundando o seu núcleo — daí serem depressões cavadas.

O critério para classificar uma ciclogénese como explosiva é, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), uma queda da pressão atmosférica no centro da depressão num período de 24 horas, ajustada à latitude. O adjetivo “explosiva” não significa uma explosão real, mas sim a velocidade com que o sistema se intensifica. Por essa razão, o fenómeno é também conhecido como “bomba meteorológica” ou “ciclone-bomba”.

Este tipo de tempestade não é novo, nem em Portugal nem noutras partes do mundo. Ocorre com maior frequência durante os meses de outono e inverno, quando o contraste térmico entre massas de ar é mais acentuado. Desenvolve-se sobretudo sobre os oceanos, neste caso o Atlântico. Embora possa apresentar algumas semelhanças com os furacões, distingue-se por ocorrer em ambientes mais frios.

A formação da ciclogénese explosiva resulta, de acordo com a EBSCO, da combinação de vários fatores: o encontro de massas de ar quente e frio, a presença de uma corrente de jato (jet stream, a corrente de ventos que devia girar mais junto ao polo norte) muito intensa em altitude, uma configuração favorável da atmosfera e a interação com o Oceano Atlântico, que fornece energia e humidade ao sistema. Normalmente, correntes de ar mais quente e seco entram na circulação da depressão e sobem (o ar quente sobe sempre), ficando cada vez mais frias até gelar (se a depressão arrastar uma massa de ar frio ou polar pior será, e com a Kristin foi o que aconteceu) tornando mais cristalinas as partículas de água e gelo. Nessa condição, eles descem muito rapidamente no centro da depressão (o ar frio desce sempre), causando ventos muito, muito fortes.

Em Portugal, os efeitos podem ser significativos, desde ventos muito fortes, precipitação intensa, tempestades, mar muito agitado, ondulação muito alta, até situações de risco, como quedas de árvores, danos em infraestruturas e inundações — como se verificou esta semana na região de Leiria.

https://observador.pt/especiais/o-vento-que-varreu-tudo-os-telhados-arrancados-como-papel-e-uma-grande-magoa-como-a-depressao-kristin-devastou-leiria/

Sting jet

O sting jet é um “pequeno núcleo (dentro da tempestade) que cria ventos ainda mais fortes”, explica o meteorologista Nuno Lopes, do IPMA. Trata-se de um fenómeno raro, localizado e altamente destrutivo, associado a algumas depressões muito intensas, frequentemente após um processo de ciclogénese explosiva. Por outras palavras, é uma corrente de ar descendente muito violenta, capaz de provocar rajadas superiores a 150 quilómetros por hora.

O nome surge devido às imagens de satélite e de radar, que se assemelha à cauda de um escorpião — o sting, ou ferrão. O fenómeno está ligado à estrutura interna da depressão e desenvolve-se, por vezes, na parte oeste de depressões extratropicais, podendo alcançar a superfície. A área afetada é relativamente reduzida, mas causa danos devastadores.

https://twitter.com/gdvictorm/status/2016835580793884857

Segundo o IPMA, as rajadas intensas associadas ao sting jet resultam de processos de evaporação que ocorrem em níveis médios da massa nebulosa da tempestade. Estes processos provocam o arrefecimento do ar, tornando-o mais denso, “o que leva ao seu transporte descendente acelerado para níveis mais baixos da atmosfera, com aumento progressivo da velocidade até atingir o solo”.

https://observador.pt/2026/01/28/registada-maior-rajada-de-vento-de-sempre-em-portugal-178-km-h-na-base-aerea-de-monte-real-culpa-do-jet-sting/

É um fenómeno considerado extremamente imprevisível, mas quando ocorre soma-se aos ventos já muito fortes associados à própria depressão, criando uma verdadeira “soma de velocidades”. Foi isso que explicou o resultado dos danos em zonas como a Figueira da Foz e Leiria na madrugada desta quarta-feira.

https://twitter.com/WX_Advisory/status/2016378377519710595

Em Portugal, há registo de apenas três episódios: a 23 de dezembro de 2009, num caso associado a uma depressão formada inteiramente em latitudes médias; em outubro de 2018, durante a passagem do furacão Leslie, quando se registaram rajadas de mais de 170 quilómetros por hora; e o episódio mais recente.

Jet stream

O jet stream, ou corrente de jato, é uma faixa estreita de ventos muito fortes em altitude, que funciona como uma espécie de rio atmosférico ou coluna vertebral da atmosfera. Apesar de ser altamente localizada, tem um papel central na circulação atmosférica global.

De acordo com os princípios da física, sempre que existem excessos de energia numa determinada região, o jet stream reposiciona-se para ajudar a restabelecer o equilíbrio da atmosfera. É nesse processo que surgem os ciclones ou depressões, favorecendo a formação de nuvens, chuva e vento.

https://twitter.com/MeteoredPT/status/2016826443943104612

https://twitter.com/UNDRR/status/2016316599796416671

Quando a corrente de jato se desloca mais para sul do que é habitual, como está a acontecer, passa a favorecer a formação de depressões sobre o Atlântico, que depois atingem Portugal em sequência. Surgem assim os chamados “comboios de tempestades”, fenómenos considerados normais do ponto de vista meteorológico, mas que podem ter impactos relevantes quando associados a outros fatores.

Em Leiria e na Figueira da Foz, por exemplo, verificou-se uma conjugação de jet stream muito a sul, ciclogénese explosiva e sting jet.

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Comboio de tempestades

A expressão, que recentemente ficou popular, é relativamente simples. Como o nome indica, é a designação que corresponde à descrição de uma situação real, ou seja, à sucessão de tempestades umas a seguir às outras. Trata-se de um fenómeno normal no inverno que pode atingir a costa atlântica da Europa e o território de Portugal.

O termo é também conhecido como carrossel de depressões — algo a que assistimos nos últimos dias. A depressão Ingrid foi a primeira: chegou no final da semana passada e inicialmente foi classificada como “a mais forte”. Na última quinta-feira, 22 de janeiro, do norte até ao alentejo, uma grande parte do país ficou coberto de neve, as chuvas foram torrenciais em todo o território e sentiram-se ventos fortes a par de uma grande agitação marítima que levou o IPMA a acionar um alerta vermelho no litoral.

No início desta semana, o país foi atravessado pela Joseph. Chuvas e ventos intensos causaram pelo menos 1.400 ocorrências registadas pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), mesmo antes da entrada da Kristin na Península Ibérica. Kristin que se formou de um núcleo que nasceu precisamente da Joseph e se desenvolveu muito rapidamente, no processo de ciclogénese explosiva.

Rio atmosférico

Rio atmosférico é uma expressão que se está tornar popular, à semelhança do comboio de tempestades. Trata-se de uma concentração de humidade (vapor de água) na atmosfera, em forma de rio suspenso, que provoca chuva contínua que dura vários dias seguidos.

Nesta semana, um destes rios ligava as Caraíbas até à Grécia e esse vapor de água tropical e semi-tropical “alimentou” o processo de ciclogénese da Kristin, por exemplo, e até o seu jet sting.

https://twitter.com/picazomario/status/2016060125312590197

Massas de ar

Uma massa de ar é um extenso volume de ar com características homogéneas de temperatura e humidade, que se forma quando esse volume permanece durante um período prolongado sobre uma determinada região, adquirindo as propriedades dessa superfície. De acordo com o IPMA, o movimento lento é essencial para que a massa de ar se estabilize.

As massas de ar diferenciam-se sobretudo em função da região onde se formam. As massas de ar continentais tendem a ser mais secas, enquanto as marítimas transportam maior quantidade de humidade. Para além disso, variam consoante a latitude de origem: as massas de ar árticas, formadas nas regiões polares extremas, são muito frias e secas; as massas de ar polares, típicas de latitudes acima dos 60 graus, são frias, mas menos extremas; as massas de ar tropicais, provenientes de latitudes mais baixas, são quentes; e as massas de ar equatoriais, formadas junto ao equador, são ainda mais quentes. Estas duas últimas, são habituais no verão e juntam-se muitas vezes já a massas de ar muito quentes do norte de África, que arrastam poeiras do Saahra.

https://twitter.com/AEMET_Divulga/status/1901549255669539097

Apesar da perceção de frio intenso, a aproximação de uma massa de ar polar a Portugal é considerada normal durante o inverno, resultando da dinâmica habitual da atmosfera e da interação entre anticiclones e depressões típicas desta época do ano. São as que, por regra, trazem neve (e chuva, claro).

Frente fria

Uma frente fria é a zona que separa duas massas de ar, sendo que a massa mais fria e densa está a avançar e a substituir a mais quente, explica o Serviço de Meteorologia suíço. Por ser mais denso, o ar frio força o ar quente a subir, um movimento que está na origem de nuvens, precipitação e, por vezes, trovoadas. Como o nome indica, a sua passagem traduz-se quase sempre numa descida acentuada da temperatura.

Do ponto de vista meteorológico, a chegada de uma frente fria é relativamente fácil de identificar: o vento intensifica-se, roda normalmente de sudoeste para noroeste, a pressão atmosférica começa a subir e o ar arrefece de forma brusca. Nos mapas do tempo, estas frentes surgem representadas por uma linha azul com triângulos, indicando o sentido de deslocação do ar frio.

https://twitter.com/1517fund/status/1948740298223620310

A instabilidade criada pela subida do ar quente favorece a formação de nuvens e chuva. Dependendo da diferença de temperatura entre as massas de ar, a frente pode ser mais ou menos ativa.

Depois da passagem da frente fria, o tempo entra muitas vezes numa fase de céu variável. Alternam períodos de abertas com aguaceiros, que podem ser de chuva, granizo ou até neve, em situações mais frias. É o típico cenário de “tempo instável” frequente, por exemplo, na primavera.

Efeito Fujiwara

O efeito Fujiwhara, também conhecido como interação binária, ocorre quando dois vórtices ciclónicos se aproximam o suficiente para começarem a rodar um em torno do outro, no sentido dos ponteiros do relógio. Este movimento, diz o The Weather Channel, reduz a distância entre os seus centros de baixa pressão e altera a trajetória e intensidade dos sistemas.

O fenómeno foi descrito pela primeira vez em 1921 pelo meteorologista japonês Sakuhei Fujiwhara, a quem deve o nome. Normalmente, a interação acontece quando os ciclones estão a uma distância média de cerca de 1400 quilómetros.

https://twitter.com/geotechwar/status/1859813160573968440

Regra geral, o ciclone mais forte acaba por dominar e absorver o mais fraco, embora em alguns casos a fusão possa levar ao enfraquecimento do sistema. Noutros, a combinação de calor e vapor de água pode, pelo contrário, intensificar a tempestade. Em qualquer cenário, trata-se de um fenómeno raro.

DANA (ou gota fria)

A DANA (Depresión Aislada en Niveles Altos, em espanhol) é uma depressão isolada em altitude, fenómeno conhecido em Portugal como gota fria. O termo foi adotado pela agência meteorológica espanhola, a AEMET, para distinguir este processo de outras situações de chuva intensa vulgarmente designadas de forma genérica.

A DANA forma-se quando uma bolsa de ar frio em altitude se separa da circulação geral da atmosfera, passando a circular de forma independente, normalmente entre 5.000 e 9.000 metros de altitude. Pode ocorrer em qualquer altura do ano e, ao contrário das tempestades comuns que se deslocam para leste, pode permanecer estacionária durante vários dias ou até mover-se para oeste.

https://twitter.com/EFEnoticias/status/1851679052530356674

O seu potencial mais destrutivo manifesta-se quando essa massa de ar frio em altitude entra em contacto com ar quente e húmido à superfície, originando aguaceiros intensos e tempestades severas, por vezes com consequências catastróficas, como aconteceu em 2024 na região de Valência. Em alguns casos, a DANA evolui naturalmente para uma depressão que se estende também aos níveis baixos da atmosfera.

https://observador.pt/especiais/dana-que-fenomeno-meteorologico-e-este-que-causou-uma-catastrofe-em-espanha-e-vai-chegar-a-portugal/#title-4

Downburst

O downburst é uma corrente de vento muito intensa e descendente associada a tempestades que ao atingir o solo se espalha em todas as direções. É frequentemente confundido com um tornado, mas trata-se do fenómeno oposto: enquanto no tornado os ventos convergem e rodam, no downburst os ventos divergem após o impacto com o solo.

De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, as rajadas podem ultrapassar os 150 quilómetros por hora e, em casos extremos, exceder os 200, causando danos comparáveis aos de um tornado. Existem microbursts, quando os ventos se estendem por uma área inferior a quatro quilómetros, e macrobursts, quando afetam áreas maiores.

O fenómeno pode ocorrer ao longo de todo o ano, mas é mais comum no verão, quando o calor e a humidade favorecem a formação de nuvens de tempestade que podem atingir 20 quilómetros de altura. O downburst ganhou particular relevância em Portugal por ter contribuído para a propagação rápida do grande incêndio de Pedrógão Grande em 2017, ao espalhar fragmentos incandescentes em múltiplas direções.

https://observador.pt/2017/06/21/downburst-foi-o-fenomeno-raro-de-vento-que-ajudou-a-propagar-o-incendio-explica-o-ipma-ao-governo/