O que é a enxaqueca? Dez respostas sobre a dor de cabeça crónica que afeta mais de um milhão e meio de portugueses
É uma doença neurológica frequente e incapacitante. Mas tratável. O diagnóstico precoce, o acompanhamento médico e o tratamento adequado fazem diferença. E há medidas que podem ajudar a viver melhor.
1 O que é a enxaqueca?
A enxaqueca é uma doença neurológica caracterizada por episódios mais ou menos frequentes de dor de cabeça moderada a intensa, que podem durar desde algumas horas até vários dias. “Não é apenas uma dor de cabeça forte, uma vez que envolve alterações complexas no funcionamento do encéfalo, com potencial impacto significativo na vida pessoal, social e profissional das pessoas que vivem com esta doença crónica”, explica Andreia Costa, neurologista especializada em cefaleias do Serviço de Neurologia da ULS São João e da Unidade de Cefaleias do Hospital CUF Porto.
Estima-se que cerca de 15% da população portuguesa sofra de enxaqueca, o que corresponde a mais de 1,5 milhões de pessoas.
2 Qual a diferença entre enxaqueca e cefaleia?
“Cefaleia” é o termo médico para dor de cabeça. A enxaqueca é um tipo específico de cefaleia, com características próprias. “Enquanto muitas cefaleias são ligeiras e pontuais, a enxaqueca caracteriza-se por dor moderada a intensa, frequentemente pulsátil ou latejante, e associa-se a outros sintomas, como náuseas, vómitos e intolerância à luz, ao som e ao movimento”, explica a neurologista.
Além disso, é uma doença que varia ao longo do tempo e pode mudar ao longo da vida.
3 Quais os principais sintomas da enxaqueca?
Para além da dor de cabeça (sobretudo de um lado), latejante, moderada a intensa, os sintomas mais comuns incluem:
- Intolerância à luz, ao som e aos cheiros;
- Náuseas e/ou vómitos e agravamento com o esforço físico;
- Durante as crises, os doentes tendem a procurar deitar-se no escuro e a isolar-se de estímulos;
- Lentificação do pensamento e dificuldade de concentração;
- Em alguns casos, o sintoma mais incapacitante não é a dor de cabeça, mas as náuseas, os vómitos ou a intolerância à luz, por exemplo.
4 Existem vários tipos de enxaqueca?
Sim. O tipo mais comum é a enxaqueca sem aura. “Em cerca de um quarto dos doentes, antes ou quando surge a dor de cabeça, aparecem também sintomas neurológicos transitórios, designados por ‘aura’. Os mais frequentes são as alterações visuais [luzes, flashes luminosos, linhas em ziguezague], que tendem a desaparecer ao fim de um hora, no máximo.”
A enxaqueca pode ser episódica (pontual) ou crónica, “quando existem dores de cabeça em 15 ou mais dias por mês, sendo que, em pelo menos oito desses dias, a dor é reconhecida como enxaqueca ou tratada com medicação específica”.
5 Quem tem mais risco de desenvolver a doença?
A doença afeta pessoas de todas as idades, incluindo crianças e idosos. É mais frequente nas mulheres, sobretudo em idade fértil.
Após a menopausa, a diferença de incidência entre mulheres e homens tende a diminuir, uma vez que muitas mulheres apresentam uma melhoria significativa após esse período, aproximando-se a frequência da doença entre os dois géneros.
Nas idades extremas, o diagnóstico pode ser mais desafiante, explica Andreia Costa. “Nas crianças a doença é muitas vezes subvalorizada, e nos idosos é frequentemente necessário excluir outras causas potencialmente mais graves de dor de cabeça.”
6 O que causa a enxaqueca?
A enxaqueca é uma doença complexa e, na maioria das situações, a causa exata não é totalmente conhecida nem previsível. “Resulta de uma predisposição genética, associada a alterações no funcionamento do encéfalo e das vias da dor, que interage com fatores ambientais.”
Existem, no entanto, fatores que podem desencadear crises, ainda que não sejam a causa da doença: stress, alterações do sono, jejum prolongado, variações hormonais (como o período menstrual), e eventualmente certos alimentos ou estímulos sensoriais, como luzes fortes, cheiros ou ruídos.
7 Como se diagnostica?

Não existe um exame específico para detetar a enxaqueca. Exames complementares, como a tomografia axial computorizada (TAC) ou a ressonância magnética, só são necessários em situações particulares, para excluir outras causas de dor de cabeça.
8 Como se trata?
Um passo fundamental é o diagnóstico correto, que permite ao doente compreender melhor a sua doença, identificar e gerir os eventuais fatores que a desencadeiam e tratar precocemente as crises, aumentando a probabilidade de controlo eficaz.
“O tratamento das crises (tratamento agudo), inclui analgésicos e/ou medicamentos específicos para a enxaqueca. Quando as crises são frequentes e têm impacto significativo na vida do doente — geralmente mais de quatro dias por mês — pode estar indicado um tratamento preventivo, com o objetivo de reduzir a frequência e a intensidade das crises.”
Existem Atualmente opções eficazes, incluindo terapêuticas desenvolvidas especificamente para a enxaqueca, permitindo um controlo muito superior ao que existia há alguns anos.
9 Durante as crises pode ser necessário faltar à escola ou ao trabalho?
Sim. A enxaqueca é uma das principais causas de absentismo (ausência) escolar e laboral em todo o mundo. As crises envolvem dor moderada a grave associada a múltiplos sintomas, o que pode tornar a pessoa incapaz de manter as suas atividades habituais.
Segundo a Migra Portugal – Associação Portuguesa de Doentes com Enxaqueca e Cefaleias “a enxaqueca resulta em perdas de produtividade e absentismo laboral que custam às empresas, anualmente, mais de 650 euros por trabalhador”.
Andreia Costa considera que “seria desejável que as escolas e os locais de trabalho fossem enxaqueca friendly, ou seja, com medidas que ajudem a controlar as crises”, e exemplifica a iniciativa Workplace MIGRA-Care, promovida pela Migra e que consiste num guia de gestão da enxaqueca no local de trabalho.
Na ausência de procedimentos como este guia sugere, considera que “uma informação clínica pode ser útil para permitir, por exemplo, trinta minutos a uma hora de recolhimento no início da crise, num local escuro e silencioso”. Caso a crise não seja controlada, pode de facto ser necessário faltar ou sair precocemente da escola ou do trabalho.
Andreia Costa lembra que a enxaqueca é “uma doença real, não é uma fraqueza, nem uma simples dor de cabeça”.
10 É possível prevenir?
Em muitos doentes, sim. Atualmente não é possível curar a enxaqueca, mas é possível preveni-la e controlá-la. A prevenção passa pela educação sobre a doença, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, pela medicação preventiva, que pode ser essencial para melhorar significativamente a qualidade de vida.
Algumas medidas ajudam a reduzir a frequência das crises, como manter horários regulares de sono e refeições, gerir o stress, praticar atividade física regular e identificar fatores. No entanto, nota a neurologista Andreia, Costa “estas estratégias complementam, mas não substituem, o tratamento médico”.