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Inteligência Artificial na saúde vascular: mais segurança e diagnósticos mais rápidos

A tecnologia nunca substituirá o médico, mas deve libertá-lo de algumas tarefas automáticas e burocráticas, para ter mais tempo com o doente.

Nelson Camacho
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Na área da saúde, como em muitas outras, há quem olhe para a Inteligência Artificial (IA) com desconfiança, destacando os riscos das decisões automatizadas sem supervisão adequada ou das falhas que podem comprometer a segurança do doente e abalar a relação de confiança com os profissionais de saúde. Embora seja inegável que existem questões éticas importantes a considerar, as vantagens também merecem atenção. Foi precisamente isso que me levou a estudar o tema e a confirmar que os ganhos são inegáveis. Ou seja, toda a evidência que existe até ao momento mostra vantagens em termos de segurança e de diagnósticos mais rápidos para o doente.

Uma análise das aplicações atualmente disponíveis para auxiliar os médicos, tanto no diagnóstico, como na escolha do tratamento mais adequado para cada doente na área da saúde vascular, revela que a IA funciona como um super-assistente: uma ferramenta capaz de analisar milhares de exames e dados em segundos, identificando padrões que o olho humano demoraria muito mais tempo a detetar.

Mas qual é, afinal, o verdadeiro valor desta capacidade? Se pensarmos naquele que é um dos grandes objetivos em saúde – uma maior segurança no diagnóstico e no tratamento das doenças – as vantagens são inegáveis. Não estamos aqui a falar, como tem sido alvo recente de debate, de um substituto da experiência do médico, mas sim de olhar para as ferramentas de IA como aquilo que podem, sem dúvida, ser: um apoio.

Como? Ao permitirem, por exemplo, libertar o médico de várias tarefas burocráticas e cálculos complexos, o que lhe permite ter mais tempo, na consulta, para o lado humano, ou seja, mais tempo para conversar com o doente e perceber os seus reais problemas. Libertar o profissional de saúde daquele que é o trabalho mais burocrático dá-lhe a possibilidade de se focar essencialmente naquilo que interessa, que é falar com a pessoa que está à sua frente e perceber os seus problemas, para o conseguir ajudar de uma melhor forma.

Na área da Angiologia e Cirurgia Vascular, isto pode traduzir-se também numa deteção mais precoce de doenças graves, como aquelas que podem levar a acidentes vasculares cerebrais ou aneurismas arteriais. Estas ferramentas permitem rever exames – TACs, ressonâncias magnéticas, eco dopplers – identificando alterações subtis que poderiam passar despercebidas ao olho humano, mesmo quando esses exames foram realizados por motivos completamente distintos.

A decisão é sempre, em última instância, do médico. Isso é indiscutível. Mas quando pensamos nestas ferramentas, conseguimos definir e identificar certos parâmetros para deteção em milhares de exames, gerar certos alertas que nos despertam a atenção para um determinado pormenor, num determinado momento em específico e, assim, validar e detetar precocemente algumas patologias.

Neste momento, já existem ferramentas que utilizamos, até de forma um pouco mais informal, como aquelas que são baseadas em modelos de linguagem natural (semelhantes ao chat GPT e outros), que nos permitem organizar, de uma forma sistemática, a consulta, aquilo que nos é dito, a história clínica do doente, sempre sob supervisão do médico. Há, depois, outras, que ainda não são aplicadas por rotina, mas são ferramentas que já estão desenvolvidas, faltando apenas fazer a translação para a prática clínica diária. Algo que, acredito, irá acontecer a curto e médio prazo.

Mas temos de ter a noção que a tecnologia nunca substituirá o médico: como disse, ela serve para nos libertar de algumas tarefas mais automáticas e mais burocráticas. E temos também de endereçar alguns aspetos éticos, sendo o principal, na minha opinião, os desafios da privacidade, da transparência dos modelos que queremos aplicar e, em última análise, da necessidade de validação clínica.

Ou seja, qualquer modelo de inteligência artificial que tentemos implementar tem de ter por base estas premissas éticas: a privacidade, a transparência do modelo e a necessidade de validação clínica do mesmo. Sabemos que nos vai apoiar, mas também temos de utilizar estas aplicações e estes modelos com muito discernimento e tendo sempre aqui um consentimento da parte do doente. O que significa que devemos informar que vamos utilizar uma ferramenta de IA e ter noção das limitações da mesma.

Em Portugal, a integração da IA na prática clínica enfrenta ainda alguns obstáculos, seja por dificuldades de acesso nos hospitais, seja por limitações no uso de dispositivos digitais por parte dos doentes, como wearables ou relógios inteligentes. Noutros países, esta realidade já está consolidada: no Reino Unido, os doentes levam às consultas de hipertensão arterial medidores automáticos e outros dispositivos que transmitem dados automaticamente para plataformas seguras e fiáveis. Quando é detetada uma alteração nos padrões monitorizados, o sistema de saúde recebe um alerta e convoca o doente para avaliação. Em Portugal, esta tecnologia já é uma realidade em algumas áreas de diagnóstico por imagem, e estamos agora a entrar numa fase de integração mais profunda da IA na decisão cirúrgica e no acompanhamento remoto dos doentes.

O objetivo é caminhar para uma disponibilização universal destas ferramentas, capacitando a população para um registo autónomo de dados clínicos e gerando, assim, ganhos significativos em saúde e segurança.