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(A) :: Corrupção, a desconfiança do "imperador" Xi e a luta entre gangues. A purga nas Forças Armadas chinesas

Corrupção, a desconfiança do "imperador" Xi e a luta entre gangues. A purga nas Forças Armadas chinesas

Xi afastou quase todos os generais do órgão militar mais importante da China. Aliado de longa data foi o último a ser afastado. Presidente quer fim da corrupção, mais poder e Forças Armadas leais.

José Carlos Duarte
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Eram aliados há décadas. O Presidente chinês, Xi Jinping, promoveu Zhang Youxia na hierarquia militar do regime, oferecendo-lhe o cargo de vice-presidente da poderosa Comissão Militar Central da China. Este órgão supervisiona e controla o Exército de Libertação Popular (ELP), o braço militar do Partido Comunista e que funciona como a principal força militar chinesa. Esta amizade e relação de confiança vinha da geração passada: os pais dos dois homens lutaram juntos na guerra civil que levou ao poder Mao Tsé-Tung. Apesar da ligação que foram construindo e do passado em comum, Zhang Youxia caiu em desgraça. Nos últimos dias, foi aberta uma investigação por corrupção e foi afastado do cargo que ocupava.

A medida tem um forte impacto nas Forças Armadas chinesas; afinal, o homem que era o número dois de Xi Jinping entre os militares foi afastado. Para além do legado que carregava do pai — um general de três estrelas que ganhou fama na guerra civil —, Zhang Youxia era dos poucos rostos que tinha efetivamente combatido numa guerra: foi enviado para o conflito na fronteira com o Vietname no final dos anos 70. Era, assim, um general respeitado e poderoso com provas no terreno. De tal forma que chegou a ser um dos membros de pleno direito no Politburo, o órgão político mais importante na República Popular da China.

Nada disso importou. Desde 2023, o Presidente chinês tem levado a cabo várias modificações no seio do Exército de Libertação Popular. Destituiu vários generais de topo e alterou o Ministério da Defesa com a justificação do combate à corrupção, que é a sua grande bandeira. Na Comissão Militar Central da China, que era ocupada por sete homens há apenas três anos, só sobra um general, além do chefe de Estado e secretário-geral do Partido Comunista. O órgão foi totalmente esvaziado e moldado à imagem de Xi Jinping.

O que motivou esta purga nas Forças Armadas chinesas por Xi Jinping? O que pretende o Presidente chinês? As dúvidas são muitas, mas há várias teorias a circular. Existem relatos de que há uma verdadeira luta pelo poder no Exército de Libertação Popular e havia um clima de conspiração contra o secretário-geral. Outra hipótese prende-se com a possibilidade de o chefe de Estado querer garantir a lealdade de todos os que estão em redor dele e afastar quem lhe possa fazer sombra. E ainda há a corrupçãoum fenómeno que poderia atrapalhar a eficácia do ELP.

De qualquer forma, estas mudanças terão certamente impactos significativos num dos exércitos mais poderosos do mundo, em particular no que diz respeito a um tema: Taiwan. Xi Jinping nunca escondeu que, na política externa, a tomada da ilha que insiste na sua autodeterminação e na defesa da sua soberania é a prioridade número um do regime. Sem estes generais de topo, o Exército de Libertação Popular perdeu experiência ao nível da liderança e terá mais dificuldades em concretizar um eventual plano — mas também já não tem contrapesos que se possam opor.

Zhang Youxia foi o mais poderoso a cair. Mas não foi o único

Um ministro em paradeiro desconhecido. Li Shangfu era o titular da pasta da Defesa e não foi visto em público durante meses em 2023. O desaparecimento tinha uma explicação: o governante tinha sido afastado do cargo. Foi o primeiro a cair nesta vaga recente de purgas nas Forças Armadas na China, sendo que também integrava a Comissão Militar Central, o órgão máximo num regime militarista. No ramo dos Foguetes, uma das partes do ELP (juntamente com o Exército, a Marinha, a Força Aérea e da Força Logística), houve várias destituições que começaram há três anos.

Era o primeiro sinal; porém, estava longe de ser o último. Na Comissão Militar Central, em 2025, Xi Jinping afastou He Weidong, vice-presidente que era o general por trás das estratégias para a frente leste — onde se inclui Taiwan —, e Miao Hua, o homem responsável por manter o controlo ideológico entre os militares. Foram duas baixas de peso no ELP, gerando um vácuo que era difícil de preencher. A justificação para os afastar foram “graves violações de disciplina e da lei” — dito doutro modo, acusações de corrupção.

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Em 2026, o Presidente chinês apertou ainda mais o cerco. Afastou o respeitado general Zhang Youxia, que era considerado um dos pilares do ELP e que fora membro permanente do Politburo. O vice-presidente da Comissão Militar Central tinha sido promovido por Xi Jinping desde que chegou ao poder em 2012; tudo indicava que era um homem da sua confiança. Desta leva mais recente, o chefe de Estado chinês também afastou Liu Zhenli, responsável pelo planeamento e operações conjuntas ao mais alto nível.

Em declarações ao Observador, Allen R. Carlson, professor na Universidade de Cornell e especialista em política chinesa, não tem dúvidas de que a “a destituição pública de uma figura de alto escalão como Zhang Youxia é extraordinária”. Num regime tão opaco e onde a informação divulgada é controlada ao milímetro, o facto de o número dois de Xi Jinping no ELP ter sido afastado “sugere que há menos estabilidade nos escalões superiores do Estado chinês do que aparenta”.

Um aviso, segredos nucleares e Xi como líder indiscutível das Forças Armadas: o que explica a purga?

O regime chinês usou o jargão de sempre — “suspeitas de violações sérias da disciplina e da lei” — para explicar os motivos dos afastamentos de Liu Zhenli e Zhang Youxia. Num editorial publicado no passado domingo pelo jornal oficial do ELP, lê-se que esta ação “mostra a determinação do Partido para preservar a luta contra a corrupção e para manter a firmeza, não importa contra quem seja ou que posição ocupe: qualquer pessoa que esteja envolvida em corrupção será tratada sem misericórdia“.

No entanto, o editorial ia mais longe. Acusava Liu Zhenli e Zhang Youxia de traírem a confiança depositada neles e de “desrespeitarem e minarem gravemente o sistema de responsabilidade final que cabe ao presidente da Comissão Militar Central”, isto é, Xi Jinping. “Ameaçaram a lealdade absoluta das Forças Armadas e minaram a fundação de governação do partido”, continuava o texto, que sugere que os dois militares tentaram fazer frente e terão questionado a autoridade do Presidente da China.

Liu Zhenli e Zhang Youxia "ameaçaram a lealdade absoluta das Forças Armadas e minaram a fundação de governação do partido"
Editorial publicado no passado domingo pelo jornal oficial do ELP

Questionar a autoridade de um líder tão centralizador como Xi Jinping é um pecado capital para o regime. Não é bem claro como é que Liu Zhenli e Zhang Youxia terão conspirado contra o secretário-geral do Partido Comunista chinês. Nem existem quaisquer provas de que o terão feito, mas essa é a acusação que pende sobre eles — e pela qual terão de responder.

Para além disso, este editorial surgiu como aviso para outros militares que se arrisquem a questionar o poder do Presidente chinês. “Membros do partido e os quadros das Forças Armadas, especialmente os que ocupam cargos de alto nível, devem implementar resolutamente os principais planos do Comité Central do Partido, Comissão Militar Central e de Xi Jinping, que preside à Comissão”, lê-se no texto.

Ao Observador, Yang Zi, professor na Rajaratnam School of International Studies pertencente à Universidade Tecnológica de Nanyang em Singapura, destaca que esta purga serviu para Xi Jinping reforçar a sua liderança no Exército Popular de Libertação, “recorrendo a táticas altamente assertivas”. “Xi concentrou ainda mais poder ao purgar Zhang Youxia e Liu Zhenli”, considera o especialista nas Forças Armadas chinesas.

Mais além do que o reforço do poder de Xi Jinping, poderá ter havido outro motivo que levou a esta purga. De acordo com o que avançou o Wall Street Journal, Zhang Youxia terá transmitido segredos do programa nuclear chinês aos Estados Unidos, o principal rival geopolítico de Pequim. Em paralelo, o ex-número dois  da Comissão Militar Central terá aceitado subornos para promover dirigentes no Ministério da Defesa, estando também a ser investigado pela forma como supervisionou uma agência responsável pela compra de equipamento militar.

Outra teoria consiste na possibilidade de que Zhang Youxia teria construído uma rede de apoiantes leais nas Forças Armadas, que teriam ganhado bastante poder. À sua volta, teria filhos de combatentes revolucionários e dirigentes que tinham trabalhado na província de Shaanxi; não é de estranhar que fosse conhecido como o “gangue Shaanxi”. O principal rival deste grupo era o círculo de Fujian, composto por quem tinha trabalhado de perto com Xi Jinping quando o atual Presidente chinês trabalhou enquanto governador naquela província no leste da China entre 1999 e 2002.

Quem liderava o círculo de Fujian era He Weidong, o homem que já tinha sido afastado em 2025 e que era o principal responsável pelos planos para anexar Taiwan. Tendo em conta que foi alvo de uma purga mais cedo, tudo indicava que o o gangue Shaanxi ficou em vantagem e assumiu o controlo das Forças Armadas. E terá sido isso que Xi Jinping não apreciou. “Esta rede foi provavelmente vista como Xi Jinping como uma potencial ameaça. Interesses vitais de Xi ou do partido estariam em risco”, comentou, à Deutsche Welle, Chung Chieh, investigador de Taiwan no think tank Institute for National Defense and Security Research.

Apesar de todas estas possibilidades terem algum fundo de verdade, nenhuma está confirmada. As autoridades chinesas estão ainda a investigar os alegados leaks dos segredos nucleares. E os rumores que circulam são variados — e vão desde subornos até a um alegado tiroteio em Pequim. Nas redes sociais chinesas, segundo a Deutsche Welle, os utilizadores até ridicularizam a situação: “As Forças Armadas estão a travar guerras contra os seus próprios generais.” 

Ao Observador, Allen R. Carlson recusa avançar um motivo concreto para as purgas, evocando a “dificuldade” em entender o regime. “O Estado chinês é opaco e as Forças Armadas ainda mais”, sublinha, dando um exemplo: “Nem sequer sabemos ao certo o orçamento anual do ELP”. “Se teve a ver com Xi tornar-se mais forte ou se as Forças Armadas o desafiaram, penso que neste momento ainda não é possível saber, mas tornar-se-á conhecido nos próximos meses e anos”, opina o especialista, vaticinando, no entanto, que nada disto vai “gerar uma mudança sísmica no regime”.

Por sua vez, Yang Zi privilegia a tese de que Xi Jinping quis aumentar o seu poder no seio das Forças Armadas, terminando oficialmente com as guerras internas entre diferentes fações que tomaram conta dos bastidores. E também quis enviar avisos a outros militares: “Estas purgas afastaram ainda mais militares e criaram ansiedade e medo entre as altas patentes”.

"Estas purgas afastaram ainda mais militares e criarem ansiedade e medo entre as altas patentes."
Professor na Rajaratnam School of International Studies pertencente à Universidade Tecnológica de Nanyang em Singapura

Forças Armadas menos capazes, mas mais leais?

Independentemente dos motivos que podem ter levado à purga, certo é que as Forças Armadas chinesas não ficaram iguais. No entender de Yang Zi, a ação “foi muito disruptiva”. “Não há militares profissionais na Comissão Militar Central e no Exército de Libertação Popular não existe um chefe de Estado-Maior. As purgas enfraqueceram severamente a capacidade de decisão do alto comando do ELP. Isso vai ter efeitos negativos, que se vão expandir para os escalões intermédios”, sustenta o especialista.

O Presidente chinês não está, ainda assim, totalmente sozinho na Comissão Militar Central. Sobra Zhang Shengmin naquele órgão, que é o responsável por manter a disciplina nas Forças Armadas e por levar a cabo operações anticorrupção no Partido Comunista. De resto, Xi Jinping livrou-se de todos os generais no seu núcleo duro, apenas contando com este aliado para tomar decisões militares.

Em declarações à BBC, Lyle Morris, que pertence ao think tank Asia Society Policy Institute, fez um retrato muito pessimista do ELP: “Está desorganizado. Há uma grande falta de liderança”, analisa. O especialista nota que isso também afeta a imagem e reputação de Xi Jinping entre os restantes militares, sendo um golpe no moral das tropas. “Acho que vai haver tumultos no ELP nos próximos anos.”

Até o Pentágono reconhece que as purgas enfraquecem as Forças Armadas chinesas, que são as suas principais rivais. No relatório anual ao Congresso dos Estados Unidos sobre a China de 2025 (que ainda não contemplava a destituição de Zhang Youxia e de Liu Zhenli), o Departamento de Defesa concluiu que “é muito provável que estas investigações provoquem disrupções a curto prazo na eficácia operacional do ELP”. “Pequim está a seguir uma abordagem de tolerância zero à corrupção e está disposto a purgar os militares que são tidos como desleais independentemente do impacto que isso tem no ELP”, lê-se ainda no documento.

A curto prazo, esta estratégia poderá ser negativa para as Forças Armadas, diminuir o moral e criar um ambiente onde prospera a conspiração. No entanto, o Pentágono apresenta outra perspetiva, esta mais a longo prazo: “O ELP pode emergir como uma força de combate mais eficiente no futuro se usar a campanha atual para eliminar problemas sistémicos que dão azo à corrupção”.

É certo que a corrupção é um problema estrutural no regime chinês. Desde que assumiu a liderança do país, Xi Jinping tem promovido inúmeras campanhas anticorrupção para tentar limitar um fenómeno praticamente transversal ao Partido Comunista, ao Estado e às Forças Armadas. Por um lado, o Presidente consegue quebrar redes montadas à margem da lei; por outro, ganha espaço para nomear membros leais para cargos de destaque.

"Pequim está a seguir uma abordagem de tolerância zero à corrupção e está disposto a purgar os militares que são tidos como desleais independentemente do impacto que tem no ELP."
Relatório anual ao Congresso dos Estados Unidos sobre a China de 2025

“Eu acho que as preocupações de corrupção são provavelmente reais”, diz, à Reuters, Jonathan Czin do Instituto Brookings, ressalvando, contudo, que algumas vezes este pretexto é usado “para remover alguém da política chinesa”. Com esta purga, o Presidente da China poderá querer não só livrar-se de grupos organizados nas Forças Armadas, como também escolher a dedo quem ocupa cargos de destaque.

No editorial publicado no jornal oficial do ELP, o regime apela a que os militares se “mobilizem em torno do Comité Central do partido com Xi no centro, implementando o sistema de responsabilidade que incide sobre o líder da Comissão Militar Central [liderada também pelo Presidente chinês] e acelerar a construção de Forças Armadas de classe mundial”. “Que fique bem claro que quanto mais os militares combatem a corrupção, mais fortes e puras ficam, com grande capacidade de combate.”

No entender do atual regime, a purga que executou nos últimos tempos é essencial para o futuro do Exército de Libertação Popular. Num país milenar que gosta de pensar em termos de grandes fases históricas, Xi Jinping aceita perder alguma eficácia a curto prazo para que as Forças Armadas chinesas se tornem mais poderosas daqui a alguns anos. E não só: também mais moldadas à sua imagem e totalmente leais. As purgas refletem a “sensação pessoal de insegurança de Xi Jinping”, frisa, ao New York Times, Shanshan Mei, cientista política no think tank RAND.

Atacar Taiwan: um objetivo adiado ou antecipado?

Os Estados Unidos acreditam que a China pretende estar pronta para atacar Taiwan em 2027. Esta ordem terá sido dada por Xi Jinping às Forças Armadas. Como apontou uma análise do Pentágono, este objetivo é “sério”. “Não garante uma invasão, mas sinaliza um calendário claro — um que se alinha com o Congresso do Partido [Comunista] em 2027, em que a liderança de Xi vai ser avaliada” e o atual Presidente pode ser reeleito para um quarto mandato. “Se Xi vir o destino de Taiwan ligado ao seu, o risco de uma ação sobe dramaticamente”, lê-se ainda no documento norte-americano.

Contudo, com tantas mudanças devido às purgas, será que as Forças Armadas vão ter capacidade para anexar Taiwan? As dúvidas são muitas, por conta do vácuo na liderança. Ao Observador, Yang Zi considera que a destituição de várias altas patentes vai ter repercussões sérias — e o objetivo poderá ser mesmo adiado. Ao New York Times, Shanshan Mei garante que “construir as cadeias de comando pode levar cinco anos ou mais” a Xi Jinping. “As chances de um ataque a Taiwan a curto prazo diminuíram”, sentencia.

Um eventual ataque contra Taiwan seria uma operação militar arriscada.A ilha conta com o apoio dos Estados Unidos e do Japão e os militares taiwaneses prepararam-se para uma invasão há anos. Cautelosa e consciente dos erros da Rússia na Ucrânia, a China pretende maximizar as hipóteses de uma operação bem‑sucedida e, se possível, rápida, de modo a concretizar a reunificação. Para isso, o plano tem de ser executado com um grau de coordenação praticamente perfeito — qualquer falha pode transformar a campanha num conflito prolongado e muito mais incerto.

Num contexto em que terá de haver um ataque perfeitamente sincronizado, Allen R. Carlson aponta mais uma teoria que pode ter levado à purga, recordando que o assunto de Taiwan tem ganhado relevância nos últimos tempos. “Pequim tem demonstrado uma crescente assertividade em relação à ilha nos últimos meses”, salienta o especialista, acrescentando que o Japão tem também usado uma retórica mais dura e já assinalou que não descartava totalmente uma possível intervenção militar se o território fosse invadido.

Allen R. Carlson conjetura que a purga poderá ter sido motivada por diferentes prioridades em relação a Taiwan. “Estaria Zhang e outros na liderança do Exército Popular de Libertação a pressionar para levar a cabo ações mais contundentes contra Taiwan? Ou seria Xi Jinping quem estaria mais ansioso por um confronto e a cúpula do Exército Popular de Libertação estaria a tentar contê-lo?”, questiona o especialista, que aclara que não “existem dados fiáveis ​​suficientes para se chegar a uma conclusão” neste momento.

Como tal, existem duas possibilidades: ou o afastamento do comando militar levará a uma reestruturação prolongada das Forças Armadas ou motivará uma resposta mais rápida em relação a Taiwan. Nesta última hipótese, há uma agravante: Xi Jinping poderá não ter quaisquer vozes críticas à sua atuação no órgão militar mais importante do regime. Drew Thompson, antigo responsável do Departamento de Defesa norte-americano na política com China, Taiwan e a Mongólia, expõe num artigo que, se Xi Jinping receber “maus conselhos” de “bajuladores” mais leais do que competentes, pode fazer “erros de cálculo” em relação a uma invasão da ilha. “É o risco número um”, avisa.

Mesmo sendo filho de um revolucionário e membro do partido há décadas, Zhang Youxia era um intermediário que a Casa Branca usava quando procurava diminuir as tensões com Pequim, como recorda a Reuters, que ouviu vários antigos dirigentes norte-americanos dizerem ter ficado em “choque” com o afastamento do número dois da Comissão Militar Central. Em 2023, depois dos estragos nas relações entre os Estados Unidos e a China que a visita da antiga líder da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi causou ao visitar Taiwan, foi o antigo número dois da Comissão Militar Central quem retomou as comunicações com Washington.

"Estaria Zhang e outros na liderança do Exército Popular de Libertação a pressionar para levar a cabo ações mais contundentes contra Taiwan? Ou seria Xi Jinping quem estaria ansioso por um confronto e a cúpula do Exército Popular de Libertação estaria a tentar contê-lo?"
Professor na Universidade de Cornell e especialista em política chinesa

O Governo de Taiwan está a avaliar todos estes cenários. O vice-presidente e porta-voz do Conselho para os Assuntos do Continente (MAC) — entidade responsável pelas relações com a China —, Liang Wen-chieh, refere que existem duas interpretações “extremas”: “Alguns [analistas] sustentam que isto aumenta a probabilidade de um ataque chinês a Taiwan, enquanto outros defendem que torna menos provável uma ação de Pequim no curto prazo”.

Entre estes dois polos, Taiwan vai manter uma “postura prudente” e “manter a plena preparação” para uma eventual invasão. Xi Jinping terá o objetivo de 2027 em mente, apesar de nunca ter dado sinais de que quererá avançar antes disso. Mas é certo que o Presidente chinês tem mais poder do que nunca nas Forças Armadas. Como observou o professor de Ciência Política na Universidade de Taipei Kou Chien-wen ao New York Times, o secretário-geral está a “tornar-se uma figura cada vez mais isolada, como um imperador confinado no seu palácio“.